O que aprender com a ficção histórica de Bernard Cornwell

Ficção histórica abrange recriação e reinterpretação do que entendemos por história. Na ficção de Bernard Cornwell, autor da saga As Crônicas Saxônicas, temos uma invasão na história nórdica, documentada em uma série grandiosa.

Ficção histórica
Bernard Cornwell

Ficção histórica, segundo o filósofo húngaro George Lukács (1885-1971), é um gênero que nasceu e trilhou o seu caminho através do século XVIII, passando por autores como Jonathan Swift (1667-1745), Charles Dickens (1812-1870), Gustave Flaubert (1821-1880) e Tolstoi (1828-1910), além de transformações sociais importantes como a Revolução Francesa, trazendo uma abordagem diferente para a literatura e as artes em geral: ao invés de criar toda uma nova história do zero, e se eu pudesse invadir o espaço sagrado dos registros da humanidade e alterar algumas pequenas coisas, criando meus próprios registros e dando uma pitada de sabor dramático?

A ficção histórica de Cornwell

Meu incentivo para esse texto veio a partir de uma leitura recente do escritor inglês Bernard Cornwell. Cornwell nasceu em Londres, em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, e começou sua carreira como pesquisador da BBC antes de migrar para a literatura, onde construiu toda uma carreira remodelando e recontando a História do seu ponto de vista, nos dando a oportunidade de visitar diferentes civilizações, povos, guerras e culturas.

Mas o que me levou a gastar meu suado dinheiro nesse sujeito, nesse tipo de história? Exatamente isso: meu interesse por História.

Assim como muitos leitores que apreciam narrativas de ficção, sempre fui um aficionado da área de Humanas, especificamente de História. Aprender sobre grandes guerras, conquistadores, dinossauros, sociedades totalmente diferentes que desapareceram há muito tempo sempre foi um prazer indescritível: meu próprio DeLorean que cabia na mochila. Eis que, caminhando por livrarias, pela internet e por podcasts me deparo com um volume de aparência rústica, cuja capa apresenta um guerreiro Viking em toda sua glória.

O Último Reino, primeiro livro da série As Crônicas Saxônicas, foi publicado em 2006 e retrata as invasões nórdicas aos reinos da antiga Inglaterra na segunda metade do século IX, contando a narrativa de Uthred (personagem fictício), um garoto inglês que é criado entre os escandinavos e se torna um soldado com um futuro incerto. Vale mencionar que Cornwell é um escritor muito habilidoso na hora de construir descrições apuradas; as cenas de batalha quase depreendem cheiro do sangue e suor dos guerreiros mortos, e quase podemos ouvir os gritos e o barulho do metal se chocando nas paredes de escudo.

Tudo isso é maravilhoso do ponto de vista literário, mas existe uma outra camada no livro que aos poucos fui descobrindo, quase que inconscientemente: eu estava em uma aula de História.

“[…] Naquele dia os dinamarqueses foram inteligentes. Tinham feito novas muralhas dentro da cidade. Convidando nossos homens para as ruas, prenderam-nos entre as novas muralhas, depois os cercaram e mataram. Não mataram todo o exército da Nortúmbria, porque até mesmo os guerreiros mais ferozes se cansam da carnificina e, além disso, os dinamarqueses ganhavam muito mais dinheiro com a escravidão. A maioria dos escravos feitos na Inglaterra era vendida a fazendeiros nas selvagens ilhas do norte ou na Irlanda, ou eram mandados através do mar até as ilhas dinamarquesas. […]” (p. 43)

Devido ao profundo trabalho de pesquisa do autor, as informações usadas no livro sobre os sistemas políticos, crenças religiosas, características de armas e armaduras dos guerreiros, das cidades e regiões, dos idiomas são de tirar o fôlego; conforme cavalgamos, bebemos cerveja e invadimos vilarejos, aprendemos sem perceber sobre seres humanos como nós, mas que há muito tempo foram engolidos pelo passado e seus nomes esquecidos.

Muitos romances e outros gêneros literários são baseados em fatos reais, mas o trunfo da Ficção Histórica é usar esse princípio como base, possibilitando que o leitor tenha duas experiências ao mesmo tempo: uma dramática e uma acadêmica.

Será que eu teria tido esses aprendizados se não tivesse lido O Último Reino? Sim, a Internet pode me oferecer todas essas informações à distância de um clique, sem a necessidade de ler um romance de 400 páginas, mas a diferença é que agora carregarei esse conhecimento junto com a história de Uthred, filho de Uthred, que perdeu sua casa e descobriu seu caminho através dos horrores da guerra.

Everton Missiagia Autor

Um solitário estudante de Jornalismo, entusiasta da Literatura e amante da palavra escrita.