A filosofia da alcova de uma mulher livre

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Fernanda Torres na adaptação teatral de “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro

Pode soar estranho: lembrei do João Ubaldo Ribeiro no Dia Internacional da Mulher. Mas tenho uma justificativa plausível. Não foi dele propriamente dito, mas de A Casa dos Budas Ditosos. Já leu? Puta livro genial. No fim da década de 1990, o escritor tinha que escrever um romance sobre a luxúria para a coleção ‘Plenos Pecados’, da Editora Objetiva, que produziu romances sobre cada um dos sete pecados capitais, quando recebeu um manuscrito contando a história de CLB, uma mulher de 68 anos, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro, que se gabava de ter as coxas iguais às da Marlene Dietrich. Eu acredito piamente na existência dessa mulher.

O depoimento socio-histórico-lítero-pornô ou sociohistoricoliteropornô, como CLB o define, mais do que uma narrativa erótica é um libelo a favor da vida e contra a repressão sexual das mulheres, o machismo e a hipocrisia social, enraizada na Bahia da metade do século passado, que serve como um microcosmo da sociedade brasileira, infelizmente, até os dias de hoje.  Como a libertação sexual das mulheres ainda se encontra aquém de toda a sua potencialidade (muito provável a dos homens, também)  decidi compartilhar um pouco da filosofia da protagonista do Ubaldo. Se discordarem, Data Vênia, à vontade:

1 – Sabe o que é a vida? A vida é foder. A vida é foder, em última análise. É uma pena que a maioria nunca chegue nem de longe à plenitude que esta constatação oferece, uma grande pena mesmo.

2 – É triste viver numa sociedade em que a honra feminina é portada entre as pernas, que coisa mais besta, meu Deus do céu.

3 – Em tese, somos capazes de nos apaixonar por tantas pessoas quantas sejamos capazes de
lembrar, o limite é este, não um ou dois, ou três, ou quatro, ou cinco, ou dezessete, todos esses números são arbitrários, tirânicos e opressores.

4 – Escreva-se: a) nenhuma mulher gosta de pau mole; b) excetuadas dimensões aberrantes e as outras variáveis sendo equivalentes, o pau maior e mais vistoso é preferido. Evidente que o principal, principalíssimo, é quem é o proprietário do pau. Mas aí, se é pequeno, a mulher apenas deixa para lá, embora preferisse que fosse maiorzinho; é mais satisfatório, por alguma, ou várias, razões.

5 – Tomar nas coxas, de que eu já falei tanto, exige know-how, para ser desfrutado decentemente . A mulher tem que treinar a postura, para estar segura de que vai atingir um orgasmo, ainda mais quando o homem é semi-adolescente e goza em dois décimos de segundo.

6 – Heterossexualismo exclusivo, limitação. Homossexualismo exclusivo, limitação. Bissexualismo, normal, tanto assim que na infância desperta em todos e todas, sem exceção. Pansexualismo, o futuro, se até não acabarmos como espécie, por força de vícios de origem que só fizemos piorar e jogarmos fora a chance de universalizar a força agregadora do amor.

7 – O ideal é que todo mundo nesse grupo se transe, mas não é indispensável. O indispensável é que as duas mulheres se dêem muito bem, em matéria de rivalidade sejam esportistas sinceras e gostem e tenham tesão no homem e, um belo dia, decidam transformá-lo em sultão e elas em odaliscas.

8 – E, muito preferivelmente, que todos sejam amigos, essa história de que não se pode misturar amizade com sexo é uma maluquice, é precisamente o contrário, meu Deus do céu. É porque as pessoas envolvem o sexo em tanta merda –mesquinharias, ciúmes, despeito, inseguranças, disse-me-disse, suspeitas, afirmações de ego, tanta, tanta merda — que fazer sexo com amigos às vezes acaba prejudicando a amizade. Não se oferece merda aos amigos, atentar nisso, os amigos são muito importantes.

9 – Luta mais besta não pode haver, melhor seria que todo mundo fosse foder numa boa e deixasse de aporrinhar o juízo alheio. Mas parece que a humanidade acabará e isso não acontecerá. Não existe ninguém razoavelmente normal que não pense, ou tenha pensado, em prevaricar.

10 – O homem não pode gozar fora, não pode cometer o pecado de Onan, que, como você sabe, não foi se masturbar, mas ejacular no chão, em vez de emprenhar devidamente sua cunhada viúva, se não me engano era a cunhada viúva, ou uma outra parenta em situação semelhante.

11 – Não se pode querer ver a afirmação da mulher como uma vingança, agora vamos descontar e assim por diante, essa barbárie insuportável. Então, porque supostamente os homens nos oprimiram ao longo da História, agora é a nossa vez de oprimir os homens, para eles verem o que é bom. Não concebo estupidez maior, substituir uma merda por outra, preservando a baixaria humana.

12 – Alguns homens, até liberais, não suportam a idéia de suas mulheres verem fotos pornográficas, não querem que isso exista para elas, coitados. Acham que, por não deixarem que a mulher veja certos atos e observe o pau de outros homens, elas não vão fazer isso por conta própria se resolverem, ou passarão a vida na crença de que só o marido tem pau, o maior do mundo, e ninguém faz safadagem.

13 – Tenho de admitir que sou uma nevropata, talvez no feliz dizer de Euclides da Cunha. Porque também acho esse negócio de cornidão o maior atraso de vida, ninguém é monógamo, nem homem nem mulher, só degenerado mesmo, masoca, deslibidado, doente da cabeça gravemente. Ficar casado com a mesma pessoa a vida toda, ótimo (…) Agora, nunca ter querido dar uma escapulidinha de vez em quando, nunca ter fantasiado uma trepada fora é mentir (…) Todo mundo é corno, mesmo que não seja, por uma mera questão conjuntural técnica.

14 – Todo homem que disser que nunca, na vida toda, sentiu nenhum tesão por absolutamente nenhum outro homem, até um belo transexual ou um efebo, mas nenhum mesmo, ou está mentindo ou se enganando. O mesmo para as mulheres, que reconhecem esse fato com muito maior facilidade, talvez porque não tenham que ser machos como os homens e não vivam tão assustadas o tempo todo.

15 – Faço tudo que me dá na cabeça, não quero saber de limitações. Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer.