Frank Sinatra, Ernest Hemingway e a garota que escapou da canção

O que levou Frank Sinatra a modificar a canção The Gal That Got Away? E o que isso tem a ver com literatura? 

Ernest Hemingway, Mary Hemingway e Ava Gardner.

The night is bitter, the stars have lost their glitter
The winds grow colder, suddenly you’re a lot older
And all because of the gal who got away

Em 1956, Frank Sinatra, a Voz, lançou pela Capitol a canção The Gal That Got Away, a qual transcrevo os versos iniciais acima. A repetição de uma rima muito parecida nos dois primeiros versos, aliada com a melodia, tem um aspecto quase mântrico. Ora, o leitor atento já deve ter voltado aos versos e reparado que sublinho o artigo definido “the”; E o leitor ainda atento mais deve estar se perguntando, o que faz uma letra de música em um site de literatura?

Aqui examinaremos esses primeiros versos e faremos algumas inferências sobre o poesia. Quando em oposição com o artigo indefinido a o the tem um sentido  de maior especificidade (assim como em português um e o).

 

Quem era a garota que escapou da canção de Frank Sinatra?

A garota que escapou era Ava Gardner, em um relacionamento conturbando os dois se distancivam cada vez mais. Ava finalmente o deixou em 1957 . Frank direcionava seu canto para uma mulher específica. A música foi regravada em 1981, se passaram 26 anos entre as duas gravações e Sinatra fez uma modificação em sua performance, ele troca o artigo definido “the” pelo indefinido “a”.

And all because of a gal who got away.

Para os falantes de inglês, a diferença é óbvia, não é mais “A garota que se foi”, mas “uma garota”. Um pequeno paralelo é a primeira frase de Um Escândalo na Boêmia: “ To Sherlock Holmes she is always the woman.” Deixemos isso de lado por alguns minutos e façamos uma pequena investigação para descobrir a importância da mudança de uma palavra.

 

Pound, Hemingway e Pessoa – Relações entre literatura e música

No essencial ABC da literatura, Ezra Pound define a grande literatura simplesmente como linguagem carregada de sentido até o maior grau possível, podemos nos arriscar e acrescentar que essa grande literatura tem por objetivo provocar um efeito no público, ou, utilizando termos aristotélicos: provocar uma catarse. Para provocar essa catarse o artista deve ter um repertório de experiencias e emoções, mesclando realidade e ficção de modo a atingir o público com a maior eficiência possível, aí entra em questão a persona; O artista deve colocar essa máscara na representação, generalizando experiências particulares e particularizando experiências gerais, tornando estas parte da experiência do público, sem nunca as tornar rígidas a ponto de o público não se identificar, sejam elas em prosa, verso, canção, teatro ou cinema.

Ernest Hemingway captou muito bem essa ideia, sabendo muito bem como trabalhar com a simplicidade (é importante notar a diferença entre simplicidade e simplismo) prova disso é um conto erroneamente atribuído a ele, mas que nos serve perfeitamente de exemplo, de seis palavras: For sale: baby shoes, never worn. (Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados.)

Devo aqui também citar Fernando Pessoa, que explicou tudo isso de forma muito mais bela e eficiente:

Fernando Pessoa

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm..”

Mas Pessoa falha em um ponto, a poesia não é feita para ser lida, e sim ouvida. Homero, o maior dos poetas, era na realidade um aedo (cantor) que tinha uma estrutura poética formulaica, mas podia improvisar em sua narrativa tornando-a mais adequada para um determinado público. Aqui começamos a nos aproximar de nosso objetivo: a similaridades no processo de composição e performance de um texto poético (aqui utilizo o poético em um sentido mais amplo).

Voltando a Hemingway, podemos dizer que ele foi o Ulisses do século XX, caçador, pescador, lutou em diversas guerras, bom de copo e era um grande apreciador de touradas (tendo aliás escrito o livro Death in the afternoon dedicado as touradas e suas relações como o ofício de escrever). Sabendo mesclar as experiências reais com as imaginadas, atingindo o leitor em cheio. O escritor conheceu Ava Gardner em 1946 nas filmagens da adaptação de seu conto Os Assassinos, desenvolvendo uma amizade e a apresentou a seu amigo, o toureiro Luis Miguel Dominguín, por quem Ava finalmente deixou Sinatra. Temos aqui a garota que escapou.

 

O artista que nunca deixa de se aperfeiçoar

Em 1981, na segunda gravação, Sinatra muda o artigo por “a girl that got away”, muita água havia rolado e o crooner, já mais experiente e com um maior repertório de decepções amorosas, percebeu que a música não era mais direcionada à mulher, mas sim à uma mulher. O cantor de Jazz, assim como os poetas gregos arcaicos, sabia a importância de cada palavra para provocar uma catarse em seu público, mas não estava preso as palavras escritas em pedra, podia improvisar sobre o tema; em Shakespeare, por exemplo, muitas modificações nas peças mostram essa adequação ao público, o exemplo mais notável talvez seja Hamlet e suas varias versões e vestígios de mais versões ainda.

Nossa tradição nos leva a crer que literatura é aquilo que está escrito, quando na realidade a literatura é muito mais que isso. Podemos ver que essa divisão entre literatura e música é apenas superficial, observando que os elementos de composição e performance são os mesmos: as experiências que nos moldam, as que transmitimos aos outros, as músicas que ouvimos e os filmes que vemos e a técnica constantemente aperfeiçoada. A literatura em suas mais diversas formas nos oferece a oportunidade de viver mais, e quando se é o autor, indefinitivamente.

Umberto Eco já disse que “Chi non legge, a 70 anni avrà vissuto una sola vita: la propria. Chi legge avrà vissuto 5000 anni.” Podemos também inferir que o artista não vive uma só vida, suas experiências pessoais serão analisadas sob uma perspectiva profissional, afinal, trabalhar com as emoções é seu ofício. Sua vida é constantemente analisada e reanalisada. Nos últimos dois versos da primeira versão Sinatra suplica: “Please come back, Won’t ya come back?”.

Na versão de 1981, novamente, mais experiente, ele elimina a prece. O ofício do artista deve ser trabalhado até o ultimo momento da vida, corrigindo e aperfeiçoando a própria obra no mesmo ritmo em que se vive.

 

 

Mário Coutinho Author

Mário Coutinho. Estudante de Letras na Universidade de São Paulo.