Futebol bem jogado, texto bem escrito

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Você gosta de futebol e literatura? Mas já pensou em como os dois campos mal se tocam na literatura brasileira?

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Em entrevista à Corner, o jornalista José Trajano avalia que há poucos livros na literatura brasileira que são referências em se tratando de futebol. Dentre esses casos raros, cita Páginas sem glória, de Sérgio Sant’Anna, e O drible, de outro Sérgio, o Rodrigues. A essas (excelentes) sugestões, acrescento o conto “Abril, no Rio, em 1970”, de Rubem Fonseca, parte do volume Feliz ano novo. Peço licença para fazer autopropaganda: também já me arrisquei nessa área com a breve narrativa Crônica de um jogo de futebol, que está no meu recém-lançado livro Identidades secretas, editado pela Lamparina Luminosa.

Sérgio Rodrigues, além de homenagear o futebol, faz um belo ensaio sobre a crônica esportiva, aproximando-a do fazer literário. O Brasil tem grandes nomes nesse campo: Armando Nogueira, Mário Filho, Nelson Rodrigues, Juca e André Kfouri. Nenhum deles foi jogador, mas intelectuais que tentam enxergar poesia e prosa acima do nível da narrativa, sem participarem da história. O diferencial de Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, é que foi craque no campo e também o é na função de cronista, que desempenha há quase vinte anos.

Em Tempos vividos, sonhados e perdidos (Companhia das Letras), Tostão descreve a própria trajetória, sem nunca deixar de lado o contexto histórico que serviu de pano de fundo para cada fato em particular. Jogador inteligente e talentoso, pertenceu à Seleção campeã da Copa de 1970. Um descolamento de retina encurtou sua carreira – foi obrigado a abandonar os gramados com 26 anos. Ao contrário da maioria dos ex-jogadores, voltou a estudar. Passou por um período sabático, no qual se tornou médico e professor. Voltou ao futebol por causa de sua intimidade com as palavras.

Há análises sobre a derrocada política que manchou o futebol mundial dentro e fora das quatro linhas. Da evolução europeia e do retrocesso brasileiro que culminaram no 7 a 1. Menções a jogadores e técnicos que foram verdadeiros artistas dos gramados, mas seres humanos execráveis na vida real. O futebol, assim como a literatura, samba na fronteira que separa magia e realidade. Vilões e heróis são criados a todo momento, a cada apito inicial e final.

Tostão diz sempre escrever com caneta e papel. Não por ser um excêntrico, mas pela facilidade em organizar as ideias que a escrita manual lhe proporciona. Assim como o Murilo Filho de Sérgio Rodrigues, a prosa de Tostão tabela com o bom texto literário. A limpidez de suas frases lembra a narrativa fluida do chileno Alejandro Zambra. Autodenomina-se um leitor voraz de poucos autores: Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Miguel de Cervantes, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa. A paixão pela leitura talvez esteja refletida em sua serenidade e pouca exposição.

Tempos vividos, sonhados e perdidos é para os que gostam do futebol bem jogado e do texto bem escrito.