Galileia e a dura terra que é o coração humano

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Romance vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009 fala de uma terra inóspita e abstrata

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O cearense radicado no Recife, Ronaldo Correia de Brito, que também é médico, foi durante muito tempo conhecido como dramaturgo em todo o país desde os anos 1980. Dedicou-se também à literatura infantil e à publicação das suas obras teatrais. Foi só nos anos 2000 que o escritor focou sua produção na narrativa. Galileia, de 2008, romance que levou o Prêmio São Paulo de literatura no ano seguinte batendo ótimas obras como Órfãos do Eldorado de Milton Hatoum e Acenos e Afagos de João Gilberto Noll (o que não é para qualquer um), é um dos seus melhores livros.

É a história de três primos, amigos na infância, que se reencontram quando adultos para voltar à fazenda Galileia, do patriarca Raimundo Caetano que agoniza seus dias finais na terra. A falta de jeito e a incomunicabilidade entre os primos Adonias, Ismael e Davi vão dando lugar às rememorações do passado, ao desenterro de histórias que ora são poéticas, ora são catastróficas. Os três personagens principais saíram da Galileia em busca de outras terras, mas que nunca se desprenderam completamente da Galileia, terra de sua família decadente.

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Galileia (Alfaguara, 2009)

Adonias, personagem principal e narrador da história na maior parte do romance, é uma espécie de alter ego de Ronaldo Correia de Brito: mora no recife e é médico. Davi é pianista e viajou pelo mundo. O violento Ismael morou, ficou preso e depois foi expulso da Noruega. Depois de muitos anos, os três se reencontram para ver de perto da morte do avô, patriarca da família.

O que desperta uma estranheza quando se lê o livro é que a terra que lhes causa desejo e medo é pouquíssimamente descrita pelo narrador. O que se sabe da Galileia é que foi construída sob muito trabalho, tal qual a fazenda São Bernardo de Graciliano. Sabemos da existência de um açude, de alguns animais e quase nada mais. A terra de Galileia é metafórica. A fazenda é apenas um detalhe para as relações humanas, essa sim decadente e áspera.

A terra na qual as personagens pisam não é a terra comum, terra que os homens sofregamente usam para sobreviver. O habitat aqui é o do coração humano, uma terra muito mais imprevisível do que qualquer ecossistema. Tal qual um Vidas Secas de Graciliano Ramos, a terra vai moldando o ser, até o ponto em que não sabemos qual é a terra batida e qual é a terra de sangue de um coração rubro.

Terra que escraviza de inúmeras maneiras. A primeira determinante é: nunca se está longe da própria terra, pois, por mais que se ande, seus ecos sempre perseguirão quem se afasta. O desejo de retorno ao solo idílico perpetua nas mente dos que se vão, clamando pelo retorno. E o regresso é ambíguo: se há o desejo de volta, há também o não reconhecimento do próprio chão, um deslocamento aparentemente inexplicável que só se ajusta na busca interior de uma memória longínqua de criança.

Não é a toa que Ronaldo Correia de Brito não goste que chamem sua obra de regionalista.  O autor minimaliza para maximizar. Não é da fazenda Galileia que o romance trata, mas sim da condição humana. É a universalização de uma terra perigosa que é o coração do ser humano. Um belíssimo romance que entra para os melhores do século XXI sem sombra de dúvidas.