Gênios na guerra

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O escritor J. D. Salinger, à esquerda, ao lado de companheiros durante a Segunda Guerra Mundial

Esses dias eu e um colega, um velho poeta com quem converso de vez em quando, trocamos figurinhas. Quero dizer, batemos um papo. Enquanto caminhávamos pelo campus da universidade na qual eu trabalho conversamos sobre a vida de alguns grandes escritores e de alguns grandes filósofos. Para falar a verdade, e de maneira bem peculiar, falamos sobre eles, os escritores e filósofos, e o envolvimento deles em conflitos armados, ou seja, em guerras.

Começamos falando sobre nem sei quem e terminamos falando sobre outro fulano que nem lembro direito mais quem era ao certo. O que importa é que me surpreendi ao refletir sobre esse peculiar aspecto dos homens sobre quem falamos, e os quais recebem, daqueles deslumbrados com a obra deles, a alcunha de gênios.

Imaginem só o autor d’O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger, lutando na segunda grande guerra contra os alemães? E ainda por cima levando chumbo grosso. Mas felizmente sobrevivendo para escrever suas obras. É algo que gera um pouco de surpresa, pensando-se a partir da figura introspectiva que foi o escritor norte-americano.

Em contraposição alguém como Hemingway, explosivo e turrão, acabo não me admirando em nada que o autor de O Velho e o Mar, além de ter lutado na primeira guerra, tenha ido dar uma espiada de perto na Guerra Civil Espanhola. Além de ter também, na época em que vivia em Cuba, armado um barco para caçar submarinos alemães durante a segunda guerra e, não satisfeito, ter ido ao front de batalha aliado na Europa presenciar de perto as batalhas travadas. Para um homem que incorporou o estereótipo, digamos assim, de machão, o papa não me surpreende com atitudes como essa, mesmo sendo suas aventuras fascinantes.

Mas ainda sim reflito sobre isso. Afinal depois de ter lido alguns livros da dita literatura universal, os clássicos da literatura, imaginar tais homens, tais iluminados, em atividades que ultrapassem aquela de estarem detidos, com uma pena na mão, destilando de suas entranhas o supra sumo literário, me causa uma certa estranheza. Talvez eu sofra de algo que não sei chamar, mas que poderia dizer como sendo uma espécie de “estereótipo do gênio”. Ou seja, uma espécie de visão tola de que os ditos iluminados, não somente literários, como também científicos e artísticos em geral, foram homens detidos única e exclusivamente, durante toda a vida deles, nos afazeres os quais os imortalizaram. Uma ideia bem boba por sinal.

De toda forma penso em Nietzsche, no velho alemão bigodudo, famoso pela sua impactante sentença: Deus está morto! Penso nele em meio à Guerra Franco-Prussiana — uma das tantas guerras nas quais os franceses sofreram nas mãos dos alemães. Penso em Nietzsche, numa tenda de campanha, como enfermeiro, tendo que cuidar de pacientes terrivelmente feridos, alguns já inclusive sem os membros, e se esvaziando em sangue. Imagino o filósofo que tanto escreveu sobre o super homem diante de corpos mutilados de soldados, vendo o sangue deles, a cena tenebrosa desses homens quase cadáveres, sentindo então seu filosófico estômago se embrulhar.

E justo por isso, imagino também Sartre, em plena Segunda Guerra indo para o front de batalha, ele e todo o exército francês caindo diante dos alemães, sendo conduzido com seus colegas para algum campo de prisioneiros para passar ali uma temporada. Fico pensando o que ficaria pensando Sartre naquela campo, em meio aos, como ele, prisioneiros. Em como sair dali? Na comida, provavelmente, horrorosa servida para ele e seus camaradas? Não. Na verdade provavelmente fenomenologia, metafísica, algo do tipo. Totalmente disperso das trivialidades mundanas e sofrimentos e privações tão horríveis da carne, mas que somente homens mortais, e não aqueles detidos com problemas d’O Ser e o Nada, são capazes de sentir.

Por fim confesso que a conversa com o poeta sobre tais gênios nas guerras foi animada e demos, inclusive, boas risadas naquele dia. E confesso também que acabei por escrever isso aqui por palpite dele, que disse que seria uma boa ideia um texto sobre esse tema. Sobre esses gênios e suas aventuras em campos de batalha com armas na mão.