George Simenon: a busca pelo homem nu

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Em muitas de suas obras, Simenon põe em cena o homem que subitamente experimenta a perda de um sentido de si mesmo, através da perda de seu lugar no mundo social

Georges-Simenon
George Simenon

Apesar de sua excepcional amplitude, de sua qualidade e do grande sucesso de público, a obra de George Simenon (nascido em Liège, na Bélgica, em 1903) tem um status ambíguo – e singular – na literatura de língua francesa. Prova disso é sua entrada, em 2003, no restrito círculo de escritores publicados pela Bibliothèque de la Pléiade, que edita as maiores obras do patrimônio literário e filosófico francês e estrangeiro.

Mais do que ambíguo, porém, seu status é incerto no campo da literatura francesa: dono de uma obra abundante (400 livros, 500 milhões de exemplares vendidos, numerosas adaptações para o cinema e a televisão, tradução em mais de 50 línguas), o criador do comissário Maigret permanece, ainda hoje, menosprezado por boa parte da crítica literária.

E é exatamente esse extraordinário sucesso de público que originou os preconceitos que foram sendo construídos e reforçados ao longo de sua carreira. Sua obra é um desafio e um incômodo para a crítica oficial, e ocupa um lugar modesto nas obras ditas “de referência”. A abundante produção do escritor (em certa época, Simenon escrevia um romance a cada quatro meses), assim como sua diversidade (escreveu reportagens, fait divers, contos, folhetins, autobiografia e romances), lhe conferem uma imagem que não corresponde exatamente à imagem tradicional do escritor canônico.

Ainda que tenha escrito mais de uma centena de romances de cunho psicológico – os chamados romans durs, ou romans de la destinée –, sua produção da série Maigret lhe fixou a imagem de escritor menor, autor de romances policiais. Este, porém, foi um gênero que renovou e a que deu valor literário; nas suas narrativas de mistério, o desvendamento das motivações de um crime é mais do que a simples solução de um enigma detetivesco: trata-se da interrogação pertinente sobre a condição humana, busca obstinada pelo homem nu – o desvendamento do indivíduo moderno em ruptura consigo mesmo, com seu meio, com o universo: um homem em crise.

Simenon põe em cena, de forma recorrente, o homem que subitamente experimenta a perda de um sentido de si mesmo – pela perda de seu lugar no mundo social –, o que o leva a uma crise de identidade, reveladora do profundo sentimento de estranheza do sujeito face ao mundo e ao outro.

Nesse sentido, as motivações que marcam os inquéritos de seus romances policiais se estendem aos seus romances de cunho psicológico, onde sempre ocorre um crime. Há uma repetição temática, de contornos obsessivos, que caracteriza sua obra. Os chamados romans durs apontam com insistência para a questão da impossibilidade de o homem compreender e justificar o mundo – e a si mesmo. É na primeira metade do século XX que se vê surgir um quadro perturbador do sujeito e da identidade – num mundo descentrado, singularmente marcado pela incerteza e pela angústia identitária, o sujeito se encontra isolado e solitário: é o indivíduo exilado ou alienado, figura obscura na multidão anônima. Este é o cenário recorrente dos romances do autor belga.

O título de um de seus romances, O passageiro clandestino, é revelador no sentido de apontar, de modo contundente, um valor metonímico relativamente à obra do escritor: a angústia e a solidão do homem moderno que Simenon põe em cena – o homem medíocre, “le pauvre homme”, insistentemente desenhado na sua dimensão mais desolada e patética – compõem a ideia de estranheza (de sombra que se desloca na clandestinidade) que percorre toda a obra e lhe dá unidade.

A partir da incapacidade do sujeito de escapar a códigos e normas e da impotência que o leva a experimentar a alienação e o vazio que configuram sua trajetória existencial, Simenon traça o percurso do desvio e da transgressão do herói, e o faz pelo recurso a uma oposição cotidiano/aventura que marca o rompimento do protagonista com estritos limites de sociabilidade. A partir de um dado acontecimento, o protagonista rompe com seu meio, estabelecendo-se um conflito entre os papéis socialmente dados e o eu – irrecorrível “travessia de uma fronteira desconhecida”: equilíbrio, ruptura, libertação, fracasso. Nesse desvio se inscrevem variadas questões, tais como imagens obsessivas (loucura e morte), busca das figuras simbólicas do pai e da mãe, a recorrente nostalgia do paraíso perdido, a busca do outro e o tema do duplo.

Sim, com certeza George Simenon é um autor prolífico: as tiragens de seus livros atingem o espantoso (e quase inacreditável) número de 500 milhões de exemplares. Que esses números não enganem, porém: sua prosa elegante e contundente atinge o leitor e o torna, de imediato, um fã cativo e para sempre fascinado.

 

Referências: 

ALAVOINE, Bernard [et al.] Simenon, l’homme, l’univers, la création. Bruxelles : Complexe, 1993.

BERTRAND, Alain. Maigret. Bruxelles : Editions Labor, 1994.

_____________. Georges Simenon. Lyon : La Manufacture, 1988.

BOUTRY, Marie-Paule. Les trois cents vies de Simenon. Paris: C. Martin du Gard, 1990.

BOYER, Régis. Georges Simenon ou   Nous sommes tous des   assassins   (II). In : Le Français dans le Monde. Juillet-Août 1969, pp.9-14

DELCOURT, Christian et alii. Lire Simenon. Realité – Fiction – Écriture. Bruxelles: Editions Labor, 1993.

MARNHAM, Patrick. O homem que não era Maigret. A vida de Georges Simenon. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

MATHONET, Anne. Regard et voyeurisme dans l’oeuvre romanesque de Simenon. Liège: Editions du CEFAL, 1996.

RICHTER, Anne. Georges Simenon et l’homme désintégré. Bruxelles: La Renaissance du livre, 1964.