Germinar é preciso (ou o que há entre Zola e os professores do Paraná?)

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emile-zolaA primeira vez que ouvi falar sobre o pai do naturalismo literário, Émile Zola, foi há quase 10 anos, quando estava no início da faculdade de jornalismo. Numa entrevista, a escritora e jornalista Ana Arruda Callado lamentava: Outro dia, em matéria assinada em O Globo, li que na casa onde os jogadores brasileiros vão ficar na Suíça, antes da Copa do Mundo, já morou a escritora Emile Zola. Não vi correção do jornal nem qualquer carta de leitor horrorizado. Ana Arruda Callado lecionou jornalismo na PUC-Rio, na UFF e na UFRJ.

Germinal é o mais famoso romance de Émile Zola – autor que fez de tudo um pouco (e muito bem, diga-se): literatura, jornalismo, crônica, crítica de arte e ensaio. De espírito contestador e revolucionário, o jovem Étienne Lantier não se conforma com a miserável condição de trabalho na mina de carvão de Voreux, no interior da França. Ele incita todos à revolta. Os mineiros passam a reivindicar seus direitos. A greve explode. A força bruta do poder detém o movimento, mas a semente da nova ordem social já estava germinada.

Resolvi lembrar Émile Zola e Germinal por conta da celebração Dia do Trabalhador, cuja origem remete ao massacre sofrido pelos operários, que reivindicavam melhores condições de trabalho nas fábricas de Chicago (EUA),  em maio de 1886, e da covardia e truculência da polícia militar do Paraná contra os professores do estado – mais de 200 feridos. Os docentes se opuseram à mudança das regras da previdência social do funcionalismo público paranaense. A farsa acabou: a história pode repetir-se duas vezes como tragédia.

As péssimas condições de trabalho vivenciadas pelos mineiros em Germinal ainda estão presentes em nossos dias e em alguns casos podem ser mais cruéis para muitos trabalhadores. Daí a atualidade e importância da obra-prima de Émile Zola, que se passa na segunda metade do século XIX. Por isso, cada vez mais é preciso germinar a semente da nova ordem social, para que tenhamos um mundo em que o trabalho sirva para emancipar e proporcionar aos homens uma vida digna e plena – e não para escravizá-lo, tornando-se um fardo insuportável.