Girassol Voltado para a Terra: lampejos acerca da vida

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Os microcontos e minicontos de Renato Tardivo apresentam o cotidiano complexo das pessoas, colocando em evidência que não somos todos iguais, dotados dos mesmos desejos e vontadesRenato tardivo
Girassol Voltado para a Terra (2015) é um livro de ficções breves, microcontos e minicontos, de Renato Tardivo, escritor paulistano, psicanalista e professor universitário. Publicou também Do avesso (2010) e Silente (2012), ambos livros de contos, e Porvir Que Vem Antes de Tudo – Literatura e Cinema em Lavoura Arcaica, uma obra ensaística. O livro conta, ainda, com ilustrações da paulistana Anna Anjos, inspiradas nas culturas brasileira e africana.
Os pequenos textos ficcionais de Tardivo retratam o cotidiano complexo das pessoas, colocando em evidência que nós não somos uma única massa corpórea, dotada das mesmas características, desejos, sonhos, taras. Seus personagens são pessoas com vidas repletas de segredos e desejos, alguns talvez incompreensíveis. Pessoas que são um abismo quase insondável, com histórias inusitadas.
O fato de as ficções serem curtas deixa o leitor com sabor de quero mais, de querer saber e ler mais sobre os fatos narrados. Os pequenos textos são como lampejos sobre a vida de personagens tão distintos, muitas vezes não nomeados, o que faz com que o leitor dê vez e liberdade à fantasia e livre interpretação. Sendo assim, as ficções são como uma ponte de interação entre leitor e sua imaginação, a partir da leitura destas.
Embora alguns leitores possam estranhar a pequeneza dos textos, eles têm muito a apresentar. Renato Tardivo usa como ferramentas literárias o trocadilho, diálogos inusitados breves e a metaficção, ou seja, o falar da literatura por meio da própria literatura, explorando o trabalho do escritor, o poder da palavra, do sintagma e do signo linguístico.

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Girassol Voltado para a Terra (Ateliê Editorial, 2015)

No Brasil, os microcontos ganharam força, inicialmente, graças ao escritor curitibano Dalton Trevisan, também conhecido como o “Vampiro de Curitiba”, mas escritores como Marcelino Freire e João Gilberto Noll também contribuíram com a produção das ficções breves, o que fez com que logo elas fossem aceitas e respeitadas como objeto artístico e literário, ou seja, a palavra elevada ao nível da arte.
Tartivo, com seu Girassol, reforça com competência o time de escritores brasileiros que legitimam as ficções breves no país. As suas pequenas histórias trazem como temática a liberdade, os relacionamentos amorosos, a angústia, a fome, o desejo (em suas mais distintas formas), a saudade, o futuro e o passado. De modo resumido: questões contemporâneas que fazem parte do cotidiano de muitos de nós e que talvez nunca deixem de fazer parte dele. Tratam-se de histórias com “H” maiúsculo, que nos prendem e fazem refletir sobre nós mesmos, nossos feitos; nos fazem retomar ao baú de lembranças e vivências.