Hell – Paris – 75016: infernais privilegiados

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O livro Hell – Paris – 75016, de Lolita Pille, retrata o cotidiano de jovens milionários, mimados, badalados e profundamente infelizes

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Lolita Pille, autora de “Hell – Paris – 75016”

Com apenas dezoito anos, Lolita Pille já levava uma vida com a qual muitas meninas sequer ousam sonhar: era rica, amiga de famosos e convidada para grandes eventos. E, no entanto, Pille odiava esse mundo; uma realidade em que jovens com tudo ao alcance das mãos passam seus dias à mercê das drogas e do dinheiro, tentando preencher suas vidas vazias.

Cansada e um tanto rebelde, a garota decide escrever sobre a futilidade e o desencanto da milionária juventude parisiense. A obra Hell – Paris – 75016 é um sucesso instantâneo, sendo traduzida para diversos idiomas e transformada em filme e peça teatral. Lolita passa a ser celebrada na esfera literária, mas é excluída do grupo de amigos e banida de festas. Ela revelara segredos que deveriam permanecer ocultos.

Para expor o mundo à sua volta, a autora dá voz à personagem Hell, quase um alter ego de Pille. Endinheirada e bem-relacionada, nossa protagonista mora na região mais cara de Paris – cujo código postal é o 75016 no título do livro. Recém-saída do Ensino Médio, ela nem considera a ideia de ter uma profissão. Trabalhar é desnecessário em seu meio, pois todos ganham tudo de suas famílias. Tudo, menos afeto. Milionários ausentes, os pais de Hell e seus amigos não têm vínculo com seus filhos e acreditam que a solução para qualquer problema é uma bolsa de marca ou carro importado.

Como é de se imaginar, as grifes não preenchem o vazio causado pela falta de cumplicidade e, eventualmente, os jovens desabafam entre si sobre seus problemas, como o pai viciado ou o namorado envolvido no tráfico de prostitutas. No entanto, essas conversas são de pouca ajuda, pois ninguém tem empatia pelo outro. Quando suas amigas começam a falar, o único desejo de Hell é que elas calem a boca. Cada um é tão focado em seus próprios problemas que não sobra espaço para solidariedade, e o maior “afago” oferecido é uma carreira de cocaína.

Há, no entanto, uma exceção; alguém capaz de despertar sentimentos genuínos em Hell: Andrea, um rapaz igualmente rico, drogado e irritadiço. A semelhança dos dois fica evidente quando a autora decide escrever um capítulo todo do ponto de vista de Andrea, e a narrativa dele se mostra idêntica à da garota:

“Possuo duas armas infalíveis para exercer minha arte, a primeira é a minha inquestionável superioridade, física, intelectual, financeira e social, que arrasa totalmente meu adversário e me torna invulnerável a qualquer tipo de ataque, a segunda é que estou pouco me lixando para tudo e não tenho vergonha de nada. […] Minha vida é uma busca por objetivos que não mais existem, meus antepassados eram heróis, eu não passo de um filhinho de papai.”

O jovem, assim como Hell, não narra nenhum evento em particular. Aliás, é difícil encontrar um fio condutor no livro. Pille não constrói um romance tradicional, com começo, meio e fim. Em vez disso, o que encontramos é uma sucessão de dias iguais. Mesmo situações que renderiam capítulos inteiros em outras obras são meramente citadas pela protagonista amortecida:

“Ontem à noite, saí, fui ao Cabaret e ao Queen, depois enchi a cara de pó com A até às oito horas da manhã, dormi três horas e fui fazer um aborto. Eu receava o depois, mas o depois não tem nada de terrível, tomei um drinque com uma amiga depressiva, e agora vou fazer compras nas butiques, hoje é um dia como os outros.”

Intrínseca, 2003
Hell – Paris – 75016 (Intrínseca, 2003)

Esse estado de dormência com o qual os personagens do livro encaram seus dias é irritante para o leitor. Hell reclama de sua vida vazia, mas, apesar de ter todas as ferramentas à sua disposição, não faz nada para mudar. Se nós começamos a história encantados com a ideia de enxergar atrás da cortina dessa realidade tão exclusiva, terminamos a obra indignados perante tanto desperdício, tanta inércia. Hell, em suas últimas páginas, é a mesma do capítulo um: drogada, nervosa, fútil e infeliz.

Lolita Pille abandou o estilo de vida de seu alter ego após o sucesso de Hell e hoje se dedica exclusivamente à carreira literária. Escreveu outros dois livros: Bubble Gum  e Cidade da Penumbra. Todos os títulos de Pille são publicados no Brasil pela Intrínseca.