Henrique Rodrigues resenha seu conto predileto: ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, de Jorge Luis Borges

0
2597

Foto-Henrique-PBPierre Menard, autor do Quixote é um dos contos presentes no livro Ficções, de 1944. Trata-se de um texto, a meu ver, extremamente humorístico e, por isso mesmo, relevante pacas.

Nele, um narrador comenta sobre um escriba, chamado Pierre Menard, que teria deixado, além da obra conhecida, outra mais interessante e “subterrânea”, escondida e inconclusa. Dentre esses textos, ele seria o autor de partes do Dom Quixote. Pierre Mendard teria vivido entre o final do século XIX e início do XX. Pera lá!

Segundo os relatos, o propósito do autor não seria copiar ou escrever um novo Quixote, mas o original, palavra por palavra. Para isso, Menard deveria se transformar em Cervantes, deixando para lá os 300 anos de diferença.

É interessantíssima a comparação de dois trechos – o Quixote de Cervantes e o de Menard – feita pelo narrador. Ainda que sejam idênticos, o narrador o cita duas vezes, a fim de ressaltar as diferenças:

“… a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro.”

Enquanto Cervantes teria feito apenas um elogio retórico da história, Menard teria escrito o mesmo texto com outro sentido mais crítico, resultado de novas conceituações de verdade e de história – e aí os 300 anos começam a aparecer novamente, indissociáveis da primeira camada literária.

Nesse conto, como em outros do mesmo livro, Borges faz o diabo com as ideias de espaço e tempo, repensando o fazer literário e a própria ideia de leitura. É por isso que ler esse conto provoca um tipo de viagem embaralhada no conceito racional de sincronia e de verossimilhança narrativa. Borges escreveu Pierre Menard como se colocasse uma ampulheta sobre um espelho, e logo depois outro espelho por cima, elevando a anacronia literária a possibilidades infinitas.

O Quixote, que já foi em si uma lupa crítica em torno das novelas de cavalaria, ganha aqui uma nova lente dimensional. Como disse o próprio Menard numa carta ao narrador do conto: “Todo homem deve ser capaz de todas as ideias e suponho que no futuro o será”.

 

Trecho do conto ‘Pierre Menard, autor do Quixote’, de Jorge Luis Borges

Por que precisamente o Quixote? – dirá nosso leitor. Essa preferência, num espanhol, não seria inexplicável; mas o é, sem dúvida, num simbolista de Nime, essencialmente devoto de Poe, que gerou Baudelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Edmond Teste. A carta acima mencionada elucida a questão. ‘O Quixote’, esclarece Menard, ‘interessa-me profundamente, mas não me parece – como direi? – inevitável’. Não posso imaginar o universo sem a interjeição de Poe: Ah, bear in mind this garden was enchanted!

 

Trecho do conto ‘Hey Jude’, de Henrique Rodrigues

Ao sair da estrada principal e entrar na rua esburacada, a lembrança do desenho a que gostava de assistir na infância veio junto com aquele cheiro da terra molhada. Embora tivesse passado tanto tempo, as vias permaneciam sem calçamento, e o barro tinha a mesma tonalidade entre marrom e cinza: só ali a terra era daquele jeito estranho. Ainda passavam bois? Olhando para a chuva de verão que caía, Renato começou a concluir que, naquele lugar, somente o chão e o céu nunca mudavam. Mas entre ambos não havia dúvida: tudo era diferente. A ideia da infância rupestre – como a mulher ironizava –, até há pouco tempo bem-vinda, ficava apertada, e se espremia ainda mais por ter de voltar às pressas para o local que, nos últimos trinta anos, acumulou poeira num canto abandonado da memória.

 

Henrique Rodrigues é doutor em Letras pela PUC-Rio. Publicou o livro de poemas A musa diluída, além de vários infantis e juvenis, como Versos para um Rio Antigo e O tesouro na sombra da árvore. É organizador e coautor das antologias de contos Como se não houvesse amanhã e O livro branco (de onde o conto Hey Jude foi extraído), inspiradas nas músicas da Legião Urbana e Beatles. Costuma visitar escolas e eventos literários, e trabalha com projetos voltados para a promoção de leitura.