Henry Louis Mencken: imagine um cara estúpido

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Críticas impiedosas, artilharia verbal e diversão: Mencken

Henry Louis Mencken
Henry Louis Mencken

Imagine um cara estúpido, desses pra quem cada frase é uma oportunidade de fuzilar alguém. Dê a esse cara um repertório muito diverso (e longe do que poderia ser um ecletismo de mainstream ou de mídia alternativa da nossa época), um vocabulário verborrágico até a medula, e um senso de humor tão desgraçado que faz você renovar seu visto de ida pro inferno rindo dos ataques dele. A estupidez cai aqui não como um insulto, mas como o elogio mais sincero possível – igual chamar um amado escritor de literatura de lazarento em vez de o botar em um pedestal, como se fosse um amigo próximo.
O elogiado da vez é Henry Louis Mencken, um sujeito que nasceu com língua graças a um engano da biologia – espero que alguém traga à luz sua história não oficial e confirme que ele tinha uma navalha na boca. Mencken foi um jornalista Estado-Unidense atuante na primeira metade do século XX, cuja produção é geralmente associada ao ensaio, crítica, jornalismo, colunismo e termos afins, com sua voz autoral se sobrepondo a todas essas classificações. Colunismo até serve, ao menos para mim soa esse termo é menos impreciso, mas vai longe da prática atual dessa modalidade, constantemente reduzida a um preguiçoso viés de confirmação por parte dos leitores e a um ataque vociferante pelos autores.
Mencken destruía qualquer assunto. Seria um involuntário plantador de tretas em nosso tempo, que com certeza cairia nas suas linhas impiedosas. Ainda
Fonte das citações dessa crônica
Fonte das citações dessa crônica

mais se alguém o dissesse qualquer verdade, pois pra ele “um homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela”. Reservava elogios às mulheres quando queria, um pouco por acreditar na inteligência feminina sem buscar apoio nas vertentes de estudos feministas, outro tanto porque não via o homem como um idiota no mesmo nível de um jumento.
A cultura também levou uns tiros verbais dele. Entre eles, a poesia e os poetas foram jogados às sombras e a busca por estilo (pode chamar de voz autoral) foi ridicularizada. “A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras que se rajustam a quem o usa como a pele ao resto do corpo. Aliás, é uma parte tão integral do escritor quanto essa própria pele. […] Tentar ensiná-lo a alguém é tão tolo quanto promover cursos sobre como fazer amor”. Suas críticas mostram sua insatisfação permanente com tudo, e também com a forma com que se falava de qualquer tema.
Parte disso vem de suas neuroses, misturas de preciosismo com ferocidade. Mencken não ficava sem assunto quando não tinha alvo, prova disso é que se o tivessem encomendado livros sobre Beethoven ou Joseph Conrad sobrariam análises das suas obras, com nada de um consumidor apaixonado e muito de sua verve crítica, longe de uma pseudo imparcialidade. Também era um pouco presunçoso, pois em sua franqueza às vezes subestimava ou elevava um tema como se fosse a autoridade – quase um complexo de deus, algo irônico em se tratando de um ateu hostil que desancava a humanidade como se não a integrasse, principalmente por seus ataques ao ‘cidadão médio’ – fácil bater nesse homem ‘médio’ quando se tem plena consciência da própria bagagem e capacidade, muitas vezes se colocando acima de um alvo indefensável.
Henry Louis Mencken foi tão complexo quanto qualquer um de nós é, com direito a contradições e falhas. No posfácio do Livro dos Insultos, Ruy Castro diz que o iconoclasta era capaz de sentimentos quando não tinha ninguém olhando. No livro Happy Days, por enquanto sem tradução por aqui, Mencken escreveu ensaios autobiográficos onde se vê um pouco de sentimento além da fúria, de memórias de infância a severas autoavaliações de falta de talento pra alguns temas. Talvez isso explique um pouco de sua escrita onde o senso crítico e a impiedade andam de mãos dadas, capaz de provocar risos com sua verborragia e forçar o raciocínio além do limite com sua argumentação.
“Todo artista de alguma dignidade é contra seu próprio país — assim como se pode dizer que aquele país é contra o seu artista. O artista difere de nós porque reage de maneira incomum a fenômenos que nos deixam paralisados ou, no máximo, vagamente aborrecidos. Seu trabalho artístico é uma crítica da vida e, ao mesmo tempo, uma tentativa de escapar dela. É quase impossível encontrar o rastro de um artista que não tenha sido ativamente hostil ao seu ambiente.”

“O governo ideal de qualquer homem dado à reflexão, de Aristóteles em diante, é aquele que deixe o indivíduo em paz — um governo que praticamente passe despercebido. Este ideal, acredito, se concretizará no mundo cerca de vinte ou trinta séculos depois de eu ter partido e assumido minhas funções públicas no Inferno.”