As histórias não acabaram: Suíte em quatro movimentos, de Ali Smith

0
808

Suíte em quatro movimentos possui uma história contemporânea, mas alternativa. Nada de grandes momentos de introspecção reflexiva. Quando há um flashback, é para justificar algo que acontece na atualidade”. 

alismith13-jpg-1-lst058786
Quem acompanha, pelo menos em parte, a literatura contemporânea às vezes tem a impressão de que as histórias acabaram. Os enredos já não importam mais, e as páginas se sucedem em jogos de linguagem que exigem a paciência do leitor. Mas esta impressão pode ser equivocada. Ou, pelo menos, equivocada para quem ler Suíte em quatro movimentos, de Ali Smith (Companhia das Letras, 2014), posto que neste livro há sim uma história bastante original e inusitada.
Após um prólogo que relata a conversa entre um homem e um menino que lhe ensina como fazer um avião de papel, o leitor se depara com o primeiro movimento, começando da forma mais banal de transformar o absurdo em algo comum: “Lá estava um homem que, entre o prato principal e a sobremesa de um jantar, subiu as escadas e se trancou num dos quartos da casa das pessoas que estavam dando o jantar”. Logo depois, acompanha-se a história de Anna Hardie, uma escocesa que na adolescência conheceu o tal homem que se trancou no quarto. Ela é chamada pela dona da casa para tentar falar com Miles (este é o nome do homem), tentando de alguma forma colaborar para que ele saia. Anna ainda conhecerá uma menina chamada Brooke, filha de um casal que trabalha na universidade e que estava presente no jantar em que Miles se meteu no quarto, com quem a escocesa travará alguns diálogos interessantes.
O segundo movimento segue a vida de Mark, um homem já velho que perdeu a mãe há quarenta e sete anos. Mais do que isso, foi ele quem convidou Miles para ir ao jantar. Ao se conhecerem, uma semana antes, após uma troca de comentários sobre a peça O conto de inverno, além de uma conversa um tanto estranha sobre a importância do “mas”, Mark acabou convidando Miles para ir ao “evento”. O tal jantar funciona como uma “celebração anual”, em que a Sra. Lee convida pessoas alternativas, que nunca convidaria numa situação comum. Uma forma de quebrar a rotina.
Um dos mais impressionantes, o terceiro movimento acompanha o pensamento e as lembranças nada lineares de May Young. Internada numa espécie de asilo/casa de saúde, a mulher desperta e começa a estranhar aquelas mãos velhas e enrugadas à sua frente, as quais depois constatará ser suas próprias mãos. Também faz uma série de questionamentos sobre a menina que está sentada como acompanhante, não consegue se lembrar quem é ela. Através do fluxo de consciência, o leitor acompanha os pensamentos e lembranças de May. E a forma como este movimento se conecta às demais histórias é um dos pontos mais tocantes do livro. Todos os anos, Miles a visitava no dia do seu aniversário. Neste ano, como está trancado no quarto da Sra. Lee, enviou um pedido para as pessoas que se acampam em frente à casa – esperando por Miles como se ele fosse um profeta – para que localizassem May Young e lhe fizessem companhia.
O quarto movimento é o último ato de uma peça que prende a atenção, pois além de ser um livro sobre Miles, o homem que se tranca no quarto da casa de um estranho, é também sobre a menina Brooke – que não aparece apenas no terceiro movimento. Neste quarto, o leitor segue Brooke em sua trajetória de observar a casa da Sra. Lee, tendo sido uma das que estava também no jantar em que tudo aconteceu. Filha de dois professores, a menina surpreende com sua criatividade. Mas a forma com que a escritora usa a personagem é a de registrar o mundo a partir deste olhar agudo, porém infantil, passando por temas como a história da Inglaterra, o caso de Miles e até uma discussão entre os pais, que se pode conferir abaixo:

“A sua mãe e eu estávamos tendo uma discussão intelectual ontem à noite sobre a masculinidade da virada do século, o pai dela disse. Era porque seu pai estava chateado porque eu estava assistindo na TV um filme chamado Ronin e não queria largar o filme e ir pra cama, a mãe dela disse. Era porque a sua mãe disse que ser arremessado através de uma parede por um herói de filmes de ação ou, naquele caso, ser perseguido até quase morrer de medo por um cara armado num estacionamento era tão empolgante que ela não podia ir pra cama antes do filme acabar, e quando eu disse que ia contar pra todos os alunos e colegas pra quem dava emprego pra ela na universidade que ela prefere, como exemplos da masculinidade da virada do século, Arnold Schwarzenegger e Al Pacino em vez de Swann de Proust e do Bloom de Joyce, ela ficou bem violenta comigo e até começou a me golpear com certa força na região do peito, o pai dela disse. Se pelo menos você fosse um homem de verdade, a mãe dela disse, e o Schwarzenegger nem está no Ronin. É, mas aparece um monte na Recherche, o pai dela disse, e a gente só pode é agradecer aos grandes escritores por eles nos darem esses modelos tão bons de comportamento. Sylvester Swann. Leopold Schwarzenegger. Robert de Bloom. Os pais dela estavam rindo. Brooke ergueu os olhos da folha de papel e ficou olhando os dois jogarem palavras estranhas um em cima do outro como se estivessem jogando pedras embrulhadas para presentes”. (pg. 282).

13154_gSuíte em quatro movimentos possui uma história contemporânea, mas alternativa. Nada de grandes momentos de introspecção reflexiva. Quando há um flashback, é para justificar algo que acontece na atualidade. Nem por isso deixa de ser uma obra onde a linguagem possui forte desenvolvimento, embora se mantenha sempre a serviço da história – do homem que se tranca no quarto, num jantar na casa de estranhos.
Suíte em quatro movimentos
Ali Smith
Companhia das Letras
2014
288 Páginas