HITLER REPUBLICADO: cinco pequenas razões para concordar, uma grande para não

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O que o mundo deve pensar sobre a reedição de Mein Kampf, de Adolf Hitler

1000509261001_1630293503001_BIO-Biography-Adolf-Hitler-SF2016 já vai começar com uma notícia daquelas, que há muito vem dividindo a opinião do público leitor no mundo: a Alemanha fará uma segunda edição do Mein Kampf, a bíblia de Hitler. O Homo Literatus traz cinco pequenas razões para concordar com a reedição da obra tenebrosa do nazismo, e uma grande razão para discordar.

Não precisa ser escritor para saber que, desde Gutemberg, a reedição de uma obra significa, além de sua aprovação (ainda que tácita) pelo público, sua reafirmação, por assim dizer. Muitos são os exemplos de obras que caem no esquecimento do público simplesmente por nunca terem sido reeditadas e os seus direitos vagarem ora na mala de um parente entediado do autor, ora no anonimato, ou mesmo no domínio público, só que sem interesse desse. No entanto, é bom lembrar, o esquecimento ou a reedição não dizem se uma obra é boa ou não, mas apenas, se tem um público e, assim, se é lembrada.

Nesse contexto, temos o caso do Mein Kampf. Escrito entre 1924 e 1925, dentro e fora da prisão de Landsberg, o livro que é a verdadeira apologia do antissemitismo, do preconceito racial, do determinismo geográfico, e do ódio à diversidade, após vender milhões de cópias na Alemanha nazista (era de leitura obrigatória), teve seus direitos de reedição congelados pelo Estado da Baviera, desde a invasão dos aliados em 1945 e o desmantelamento de sua casa editorial, a Franz Eher Verlag. Em 2016, após 70 anos da guerra, a obra cai em domínio público, em razão disso, o Instituto de História Contemporânea de Munique (IHCM) pleiteou e, pelo visto, conseguiu a sua reedição cotejada com argumentos críticos.

Assim, vamos ao 5×1 do HL:

Primeira pequena razão

A bíblia de Hitler não é como um evangelho apócrifo que a Igreja conseguiu sufocar por séculos, sendo acessível apenas a estudantes de teologia curiosos. O Mein Kampf pode ser encontrado em traduções muitas vezes perniciosas do alemão, já tendo sido reeditado 08 vezes só no Brasil, entre 1934 e 2001; assim, basta ir num sebo ou clicar na Estante Virtual e se vai encontrar o livro, de modo que uma edição histórica cotejada com os valores morais dos vencedores da guerra – que é a pretensão do IHCM alemão – não seria perniciosa.

Segunda pequena razão

Na internet, a bíblia de Hitler é um dos livros mais caçados e comprados. Um dos casos é a pequena editora brasileira (quase desconhecida e que só edita livros em domínio público) Montecristo que, segundo O Globo, levou o ebook do nazismo à lista dos mais vendidos da Amazon nos EUA, Inglaterra e, mesmo, no Brasil. Assim, em dois clicks, qualquer pessoa pode ter acesso ao texto trash do Mein Kampf, de modo que a edição do IHCM que terá mais de 2.000 páginas e 3.500 anotações, não se apresenta como um problema.

Terceira pequena razão

O esquecimento do que foi o nazismo soa muito mais pernicioso do que a sua divulgação. É conhecida, por exemplo, a declaração de Mahmoud Ahmadinejad (presidente do Irã) de que o holocausto dos judeus no nazismo (e não só dos judeus, vez que várias pessoas pertencentes a minorias foram levadas aos campos nazistas) teria sido um mito. Alinhe isso ao completo desconhecimento do que aconteceu na época e de quais as reais ideias de Hitler e teremos pessoas ignorantes que poderão levantar a mão em saudação infantil ao próximo populista que prometer erradicar os problemas do mundo em troca de sangue.

Quarta pequena razão

As ideias do nazismo, sobretudo a propaganda ostensiva e perniciosa, gerou aderência convicta da juventude na Alemanha dos anos 30 em diante. Embora saibamos que a juventude, muitas vezes, é por si só inflamável, é certo que a falta de conhecimento e de educação suficientes pioram muito mais o cenário. Esse é, inclusive, o enfoque do diretor alemão Dennis Gansel no filme Die Welle (A onda), que retrata um projeto de pesquisa de um professor de colegial na Alemanha que quer fazer os alunos perceberem que ainda é possível uma ditadura fascista se instalar na Europa do século atual – considerando que reinava na Alemanha (e ainda reina?) a lei do esquecimento de Hitler, como uma espécie de vergonha coletiva. O projeto acaba em desgraça pelo simples fatos dos alunos se excitarem com o ideal fascista a tal ponto, sem entenderem especificamente suas conotações, de passarem a propagar o terror cegamente.

Quinta pequena razão

As ideias propagadas por Hitler em seu manual de sadismo não foram originadas em sua cabeça – até nisso ele era ruim. Na verdade, o antissemitismo (tanto no viés judaico quanto no árabe) é uma prática antiga na Europa. De modo que o Führer nazista apenas aproveitou a pobreza extrema do povo, após a primeira guerra, e a tendência à sociedade-espetáculo (que continua atual), bem como a possibilidade de excitação das massas, para alicerçar o seu inferno na Terra, particular. Assim, republicar seu livro com versão oficial do IHCM, totalmente cotejada e criticada, se mostra muito melhor que, após cair em domínio público, ser publicado por qualquer editora, inclusive com uma possível nova Eher Verlag, que pode existir em sigilo por aí (vai saber!).

 

– Da GRANDE RAZÃO para não concordar com a reedição do Mein Kampf

De outro lado, está solitário, mas forte, o argumento contrário a toda e qualquer reedição da obra hitlerista (e parece ser essa a preocupação da comunidade judaica): a concretização da eternidade das palavras de Hitler. Isso era o que ele mais queria.

Sobre a necessidade de tornar inesquecível o império ariano no mundo, inclusive para a conquista de novos adeptos futuros, Hitler escreveu essas palavras no Prefácio do Mein Kampf, que por si só já são um grande argumento para que seu livro não seja reeditado em nenhuma plataforma, nunca mais:

Sei muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento não aos grandes escritores, mas aos grandes oradores. Isso não obstante, os princípios de uma doutrinação devem ser estabelecidos para sempre por necessidade de sua defesa regular e contínua.

E então, o que você acha?

Referências:

ÁLAMO, Alfredo. El Mein Kampf volverá  a las librerías alemanas. Lecturalia. Disponível em: http://www.lecturalia.com/blog/2015/12/03/el-mein-kampf-volvera-a-las-librerias-alemanas/. Acesso:  18/12/2015.

EFE. Presidente do Irã diz que Holocausto é um ‘mito’. Folha de São Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u90520.shtml. Acesso: 18/12/2015.

GANSEL, Dennis. Die Welle. Disponível em: https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=5&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwja0su8-OXJAhVFIpAKHacBA64QtwIINTAE&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DpuD3kh9LE6g&usg=AFQjCNF5PtgRSLReZ5mK9GMvGOwkyP_GEA&bvm=bv.110151844,d.Y2I. Acesso: 18/12/2015

HITLER, Adolf. Mein Kampf. Disponível em: http://bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br/services/e-books/Adolf%20Hitler-1.pdf. Acesso: 18/12/2015.

MEIRELES, Maurício. Editora brasileira leva ebook ‘Mein Kampf’, de Hitler, às listas dos mais vendidos. O Globo. Disponível em http://oglobo.globo.com/cultura/editora-brasileira-leva-ebook-mein-kampf-de-hitler-as-listas-de-mais-vendidos-11255628, Acesso: 18/12/2015.

QUEIRÓS, Luís Miguel. Alemanha permite primeira reedição de Mein Kampf desde 1945. Publico.pt. Disponível em: http://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/alemanha-permite-primeira-reedicao-de-mein-kampf-desde-1945-1686985. Acesso: 18/12/2015.

WIKIPEDIA. Mein Kampf. disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mein_Kampf. Acesso: 18/12/2015