Honra ao mérito

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Poucas coisas são tão produtivas – no sentido mais concretizador da palavra –  quanto o orgulho de si. Lembro até hoje quando ganhei diversas coisas: medalhas de natação, torneio de xadrez, primeiro lugar no concurso de bolsas da escola, isenção da matrícula por ser a melhor aluna da turma e assim por diante. Dá pra falar isso estufando o peito. Mas a verdade é que existe aí uma lógica míope: eu não estava partindo do mesmo lugar que quem competia comigo. Por exemplo, desde muito pequena, fui exposta a histórias, letras, lugares com livros e pessoas que falavam disso. Desde pequena, assistia muita coisa (até por ter asma e ter que ficar mais reclusa na cidade grande e perigosa) e, por isso, minha relação com a interpretação das coisas se construiu de maneira diferente. Quer dizer, se a vida fosse um tipo de corrida, quantos passos eu teria iniciado à frente de quem ficava brincando na rua ou ajudando a mãe com as tarefas do lar ou cuidando do irmão menor? Se estivéssemos todos vivendo em um gigantesco tabuleiro de um jogo, quantas casas eu já iniciaria na frente? Isso por que nem entrei no mérito (haha, foi sem intenção) de nunca ter precisado trabalhar até os 20 anos, ter minha mãe em casa, acompanhando detalhadamente os meus estudos, não ter nenhuma dúvida de que sempre haveria comida, roupa, energia elétrica, água e casa limpa me esperando. Quantas casas eu ganhei na cartinha de “Sorte ou Revés”?

É claro que, dependendo do ponto de vista, eu também me “esforcei” e me “dediquei”. Mas se tem uma palavra que tem pouco significado e muito impacto é a coisa do “esforço”. Pensa aí, como você definiria “esforço”? Que tipo de medida existe em “esforço”? Uma das definições poderia ser trabalhar arduamente para atingir um objetivo, esgotar suas forças para alcançar uma meta. Esforço, então, é irmão do sofrimento e do desgaste. Não estou fazendo uma ode ao “relaxo”, não se trata disso, mas acho importante desmitificar as coisas. Quando valorizamos o esforço de alguém, valorizamos e mensuramos o quanto a pessoa colocou de sua força ali. Mas como podemos medir isso com certeza? Será que o meu esforço, que comecei incontáveis espaços à frente de tantas outras pessoas, conta igual? Digo mais: será que eu precisei me esforçar tanto quanto outras tantas pessoas que conheci, que estudaram comigo e que passaram pela minha vida? Gente que queria participar da reunião pro trabalho em grupo, mas precisava trabalhar; que não fazia tarefa por estar com a luz cortada; que não conhecia o próprio pai, que tinha ido embora; não comia lanche mais de duas vezes na semana; vivia na moradia estudantil e, como não havia bandejão de fim de semana, era universitário top de linha comendo arroz com ervilha enlatada no sábado à noite – não sei se eu precisei me esforçar tanto quanto elas. Não sou capaz de medir.

Quando valorizamos o esforço e o mérito exclusivamente sem colocarmos em relação outras coisas na balança, o que fazemos é ignorar que nem todo mundo está começando o jogo na casinha nº 01. Por isso, hoje, me envergonho do orgulho que fui autorizada e incentivada a sentir por passar em todos os vestibulares que prestei. Inclusive, colocaram uma faixa pavorosa na frente de casa com o meu nome e a lista de aprovações. Eu era cumprimentada por quem eu nem conhecia, como se tivesse alcançado grande feito. E então eu respondia: “Não foi nada demais, qualquer um que estudasse teria conseguido”. Era o que me diziam em casa, no cursinho, nas festas de família. Meus amigos, meus pares, diziam exatamente o contrário. “Comemora bastante, ninguém aqui conseguiu além de você. E nem teria conseguido também.” Isso me soava estranho, mas também soava estranho que todos eles fossem vagabundos desinteressados. Este era um momento em que eu era favorecida pela falta de lógica da coisa como um todo e que, por isso, não questionava. Apenas quando entrei na grande a almejada universidade pública fui sendo gradativamente tomada pelo constrangimento de ter sido tão aplaudida sendo que sou privilegiada. Claro que eu estudei, fiz o que se esperava de mim e tudo mais. Mas me lembro de um amigo de cursinho, que foi meu padrinho de casamento, e que trabalhava e ia para o cursinho estudar para passar em um dos cursos mais concorridos da USP – Economia. Sinceramente, ele era e ainda é muito mais inteligente do que eu. Mas lembro de  um dia em que eu e ele nos encontramos com um garotão que fazia cursinho a tarde e uma serie de outras aulas particulares para tentar entrar no mesmo curso. Ele, com senso de humor impar, olhou pra mim e disse “Mais uma vaga a menos”. Foi cruel e fiquei triste. Não sei se ele sabe o quanto o admiro por ter persistido até entrar no curso que queria, mas gostaria de deixar registrado que ele, sim, se esforçou muito mais do que eu, mereceu muito mais, mas não foi favorecido, pelo contrário: teve de prestar outros dois vestibulares até passar. Não se trata do ódio ao vestibular ou a universidade. Não se trata de ódio a nada. Trata-se apenas de manter em mente que vivemos continuamente sob uma lógica absolutamente esquizofrênica de que o esforço/sofrimento vão conseguir, por si só, tornar tudo mais justo e melhor, quando, na verdade, a única coisa que resolveria isso seria – seguindo a metáfora – dar algumas jogadas a mais para aqueles que começaram na casa 01 enquanto nós começamos na 30, não por pena, mas para que haja justiça real e dignidade.

A epígrafe de A reprodução, de Pierre Bourdieu, traz um poema falando sobre pelicanos branco botando ovos dos quais nascem novos pelicanos brancos e que, se ninguém quebrar os ovos e fizer uma omelete, e o que vai continuar acontecendo. Este é o ponto: fazer com que todos os vencedores orgulhosos com grandes medalhas de honra ao mérito no peito consigam olhar para trás e perceber que não começaram do mesmo lugar que seus concorrentes e que o máximo que ganharam foi o poder de apoiar mudanças nas estruturas injustas que favorecem e desfavorecem continuamente os mesmos grupos.