Horas, jazz, metáforas e outras questões

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VIVIAN PIZZINGA LANÇA SEU NOVO LIVRO, A PRIMAVERA ENTRA PELOS PÉS, ABORDANDO TEMAS QUE PERMEIAM DESDE FATOS ROTINEIROS ATÉ UM OLHAR MAIS PROFUNDO SOBRE A EXISTÊNCIA HUMANA

escritora

Ser capaz de valorizar cada instante da vida parece, em um primeiro momento, algo tão absurdo de se conseguir fazer que a grande maioria das pessoas, felizmente não todas, acostuma-se a nem tentar. Tão conectadas com suas rotinas desenfreadas, tristes, loucas e sem sentido que não se permitem realmente viver. Esse fato pode soar como mero discurso filosófico, porém basta analisar de forma mais subjetiva tal questão que logo se é capaz de ressaltar seu singular valor. Foi exatamente essa análise que a escritora Vivian Pizzinga fez em sua nova obra, A primavera entra pelos pés, segundo livro de contos da autora, divididos em 3 partes e 22 contos. A proposital e bem feita divisão desta forma faz com que o leitor se entregue aos poucos às reflexões contidas em cada conto. Nada pode soar tão óbvio, por isso os detalhes, as personagens e cada aspecto delas são trabalhados de modo a não apressar a própria descoberta de quem lê.

A primavera entra pelos pés (Oito e Meio)

O narrador se mostra de várias formas, moldando o enredo, fazendo com que as situações fujam das conclusões do senso comum, permitindo ao leitor um plano maior de cada cena, sendo capaz de desvendar o pensamento da personagem e, somente desta forma, concluindo a história, mesmo que ela não tenha fim. Afinal, muitas das situações retratadas na obra não nos parecerão tão improváveis.

Uma das maiores questões humanas presente em A primavera entra pelos pés é a inalcançável e incansável busca pela felicidade. Certamente ao menos uma vez na vida todo mundo se perguntou sobre esse assunto, pensou, talvez tenha perdido algumas noites de sono e logo esqueceu. Mas não se pode negar que para pensarmos sobre isso devemos questionar nossas vidas, o que exatamente encontramos no 4º conto da 2ª parte da obra, intitulado O descuido que é viver. Partindo de um pressuposto de que viver não valesse tanto a pena assim, uma garota decide facilitar as coisas e se matar. Com o decorrer da leitura do conto o leitor talvez consiga compreender os argumentos tão relevantes que ela poderia conter:

“Meu raciocínio foi o seguinte: se viver era um descuido prosseguido, se eu concordava com aquela frase do Riobaldo no Grande Sertão, o melhor então seria interromper o prosseguimento de tal imprudência.(…)” (Página 45, 3º parágrafo).

Quando temos a sorte de encontrar autores dispostos a nos fazer pensar muito além de sua obra devemos nos sentir privilegiados. Pizzinga nos proporciona esta experiência, a qual pode ser agradável ou, o que é mais provável, cheia de questões e nenhuma afirmação. Contudo, prazerosa.