HORROR: um gênero mais velho do que você pensa

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Você já parou para pensar ou questionou: qual a idade do gênero de literatura que mais te cativa à leitura?

 

Chronus
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Pense bem, a impressão de livros foi um desafio para a humanidade desde sempre. Somente no final do século XIX aconteceu a popularização dos livros. Reproduzidos manualmente, a preservação das histórias era feita de forma precária, mas ainda assim era feita, e é a partir daí que esse novo panorama remonta. A impressão em si não é o foco da questão. O paradigma aqui são os gêneros, em ênfase, o de horror na antiguidade.

Edgar Allan Poe é, por muitos, classificado como o pai do gênero de horror que conhecemos. Todavia, se arremetermos o pensamento para um pouco mais cedo na linha da história humana (digamos alguns milênios), descobriremos revelações e surpresas ainda mais prazerosas na leitura antiga.

Sim, essa é a temática que o ensaio a seguir vem tratar. Desenvolvido pelo advogado e escritor Leslie S. Klinger, é tomado a partir da introdução de In the Shadow of Edgar Allan Poe: Classic Tales of Horror (em tradução literal: Na Sombra de Edgar Allan Poe: Contos Clássicos de Horror, 1816-1914), uma antologia dedicada à recuperação dos escritores de horror que são obscurecidos pela ameaçadora sombra de Poe. Klinger remonta à origem do conto de terror, não em Poe – como é frequentemente afirmado –, mas em um autor um pouco mais velho, pouco… falamos aqui de Homero. Em seguida, Klinger delineia a história do horror através da sua floração no final do século XVIII. Com efeito, fornecendo um contexto sensível e favorável para o que viria a ser a História de Horror Moderna.

Na narrativa de Klinger, a obra de Poe, bem como a de seus discípulos, é transformada e se torna ainda mais fascinante do que na Antiguidade, pois ela é colocada em um novo contexto, sob uma nova história do horror.

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De: In the Shadow of Edgar Allan Poe

In the Shadow of Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe não inventou o conto de terror. Odisseia de Homero registra confrontos de Ulisses contra várias bruxas, incluindo Circe. Na Bíblia, por sua vez, em Samuel 28, 3-25, há o relato de uma consulta de Saul com a Bruxa de Endor, uma médium que invoca um espírito do qual Saul identifica como o profeta Samuel. Os escritos dos gregos contêm vários contos de vampiros antigos, chamados Lamiae ou Empusae. Flegonte de Tralles, escrita no século II, narra a história sobre Philinium, uma mulher que retorna da sepultura para dormir com um homem jovem, Machates. O Empusae também aparece na obra de Aristófanes, As Rãs (The Frogs, 450 a.C.). Life of Apollonius of Tyana (em tradução literal: A Vida de Apolônio de Tiana), obra de Flavius ​​Philostratus, 200 a.C., conta a história de uma relação quase fatal entre Menippus e uma mulher fenícia que confessa ser uma vampira. O contador de histórias romano Lucius Apuleio, em The Golden Ass (traduzido para o inglês em 1566), relata inúmeras reuniões com bruxas e feiticeiros, bem como uma criatura vampírica. Chaucer e Shakespeare conheciam bem as tradições contemporâneas de sua época e seus escritos incluem numerosos contos de fantasmas e bruxas. O polímata renascentista Nicolau Maquiavel escreveu um romance sobre um demônio antigo chamado Belfagor ou Belfagor. No final do século XVII e início do XVIII, o popular escritor inglês Daniel Defoe produziu uma série de histórias que, se classificadas hoje, seriam do gênero de contos de terror.

Mesmo mediante tão poucos exemplos da idade do gênero, o real florescer das histórias de horror remonta ao séc. XVIII. Castle of Otranto (Castelo de Otranto – 1764) de Horace Walpole, apresenta-se sob a roupagem do gênero que mais tarde viria a ser conhecido como horror gótico ou romance gótico. Walpole procurou combinar ideias medievais sobre o sobrenatural com o realismo do romance moderno. Acima de tudo, ele buscou criar uma atmosfera de terror, um mundo em que tudo pode acontecer, e muitas vezes teve sucesso.

Um capacete gigante cai dos céus,
esmagando Conrad em seu dia do casamento;
membros imensos aparecem dentro do próprio castelo…”

Na citação acima, vemos algumas características de seu traço como escritor. Ele sempre agregava alguns itens, tal como fluxos de sangue misteriosos e uma miscelânea de outros bichos-papões que vagueiam para dentro e fora dos contos.

O imenso sucesso do romance de Walpole, que publicou sob um pseudônimo a fim de passar sob o radar dos registros históricos, levou outros a explorarem o gênero. Em 1777, Clara Reeve publicou um trabalho anônimo originalmente intitulado The Champion of Virtue (tradução literal: O Campeão da Virtude). O autor descaradamente denominou-o como “descendência literária” de Otranto, e o público abraçou-o com o mesmo fervor e melodrama que fariam por Walpole. Apesar de ter sido similar em estilo ao Otranto, Reeve tentou injetar mais realismo evitando alguns dos absurdos da Walpole.

Anne Radcliffe foi, talvez, o expoente mais bem sucedido em combinar o sobrenatural e o moderno. São seis romances principais, tendo destaque mais notavelmente Os Mistérios de Udolpho (1794), que foi parodiado brilhantemente por Jane Austen em Northanger Abbey (1817, embora provavelmente escrito entre 1798-99). Todos focados em jovens heroínas confrontados com castelos misteriosos e ainda mais misteriosos nobres.

Matthew Gregory Lewis com o The Monk (O Monge, 1796) trouxe uma história sensacional de depravação, devassidão e diabolismo. Também foi extremamente popular, e alguns críticos vem a descrição física de Ambrosio, o monge principal, como base para a caracterização do próprio Conde Drácula, de Bram Stoker. Imensa tiragem de Sir Walter Scott incluiu muitos contos populares horríveis, como a parte de Redgauntlet, conhecido como Conto de Wandering Willie ou A Festa de Redgauntlet (1824). Scott também foi um apreciador assíduo do trabalho de Radcliffe.

Nos Estados Unidos, Washington Irving escreveu inúmeros contos contendo fenômenos sobrenaturais regionais, entre os quais se destacam The Legend of Sleepy Hollow (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) e Rip Van Winkle (1820), duas das melhores referências de seu trabalho.

Embora seus contos psicológicos da Nova Inglaterra terem feito sua fama, Nathaniel Hawthorne também era fascinado por histórias estranhas, e entre os seus numerosos contos do ocultismo, Dr. Heidegger’s Experiment (A Experiência do Dr. Heidegger, 1837) e o título póstumo publicado Septímio Felton, ou O Elixir da Vida (1871) são exemplos do continuo interesse de Hawthorne na busca pela imortalidade literária.

O fenômeno romântico gótico não se limitou a países de língua inglesa. O francês roman noir (romances negros) e o Schauerroman alemão (literalmente, romances de estremecer) foram igualmente populares. Os contos bizarros do escritor alemão E.T.A. Hoffmann e nobre polonês Jan Potocki também eram uma parte da tradição. Esses primos continentais eram geralmente mais violentos do que os seus homólogos ingleses.

As fases iniciais do movimento romântico nasceram no início do século XIX produzindo ícones gêmeos no horror: o monstro científico e o vampiro – curiosamente, ambos surgiram a partir de uma única noite dedicada à narração de histórias de horror. Em 1816, o Dr. John Polidori acompanhou seu paciente Lord Byron em uma viagem à Itália e Suíça. Naquele verão se hospedaram no Villa Diodati próximo ao Lago de Genebra onde foram visitados pelo poeta Percy Bysshe Shelley, por sua futura esposa, Mary, e sua meia-irmã Jane “Claire” Claremont. Quando a chuva incessante manteve os cinco amigos dentro de casa, começaram a ler em voz alta um livro de contos de fantasmas. De acordo com Mary Shelley, Byron sugeriu que cada um escrevesse uma história de fantasmas para os rivais no livro. Seu marido nada escreveu em resposta ao desafio; Byron começou em uma história, mas supostamente abandonou.

Os esforços de Mary Shelley nesse jogo contra a monotonia se converteram numa obra impar: Frankenstein, publicado dois anos mais tarde. O conto do cientista Victor Frankenstein e sua criatura ilegítima tornaram-se extremamente populares, resultando em uma série de peças de teatro, uma edição toda dedicada de uma revista em 1831 e, eventualmente, inúmeros filmes, paródias, histórias em quadrinhos, dramas de rádio e imagens publicitárias. É chamado por alguns como o primeiro romance de ficção científica. Infelizmente, a imagem popular da história tem crescido em estatura e vem ofuscando o trabalho original. De forma aparente, todos os jovens sabem o significado de uma caminhada impressionante e hipnótica com os braços estendidos; cada filme deu seu tom para a criatura, tornando-a indelével. Não o deixam suprimir ou desaparecer dos pensamentos e medos humanos, transformando-o de inocente monstro que pode colher flores como uma criança ou exibi-lo como um nervo exposto, sendo o monstro horrível e mal-entendido que é. Entretanto, o livro de Shelley foi mais um devaneio sobre a responsabilidade moral do que uma previsão da ciência-dando-errado, gerações leram-o como o conto de horror final, uma severa advertência sobre a arrogância da humanidade.

Um critico anônimo em 1818 cortejou Frankenstein pela sua originalidade, a excelência da língua, o seu interesse peculiar, e classificou de bold, que segundo o palavreado da época quis dizer, possivelmente, obra ímpia, audaz, vigorosa. Mais tarde nesse mesmo ano, Sir Walter Scott, escrevendo para a revista de Edimburgo chamada Blackwood (e atribuindo a autoria do livro a Percy Bysshe Shelley já marido de Mary), comentou que o trabalho expressou suas ideias com clareza e força. Em sua avaliação, Scott contemplando o propósito de romances maravilhosos, como ele classificou o trabalho: “Um uso mais filosófico e refinado do sobrenatural em obras de ficção é adequada a essa classe em que as leis da natureza são representadas como alterada, não com a finalidade de mimos a imaginação com maravilhas, mas, a fim de mostrar o efeito provável que os supostos milagres produziriam em quem os testemunhou. Neste caso, o prazer normalmente derivado dos incidentes maravilhosos é secundário para o que podemos extrair da observação de como os mortais como nós seriam afetados por cenas como essas que, a ousadia de afastar a verdade sóbria ainda é a verdadeira natureza…”. Em outras palavras, Scott acreditava que obras como Frankenstein nos prepararam para enfrentar o horrível.

O outro fruto daquela noite famosa de verão (retratado de forma idiossincrática, em 1986, no filme gótico de Ken Russell) foi de Polidori, The Vampyre (O Vampiro), o primeiro relato popular de vampirismo publicado na Inglaterra que datou de abril de 1819. Originalmente foi anunciado como uma obra de Byron e, em seguida, visto como uma sátira. A história narra algumas das atividades do vampiro Lord Ruthven, um nobre marcado pela sua maneira distante e o tom mortal de seu rosto, que nunca ganhou uma tonalidade mais quente. No início do século XIX, o enigmático e ainda estranho e atraente Ruthven faz amizade com um senhor chamado Aubrey, o qual descobre que até mesmo a morte não o livraria de seu letal amigo. Quando Ruthven retorna da morte, ele reencontra Aubrey em meio ao horror, e logo ataca e mata Lanthe, o objeto de afeto de Aubrey. Mergulhado em um colapso, Aubrey recupera-se apenas para descobrir que sua amada irmã também se tornou vítima da criatura, que, em seguida, desaparece.

Polidori não era um grande escritor, como é evidente nas linhas finais do livro:

Lord Ruthven tinha desaparecido,
e a irmã de Aubrey saciado a sede de um vampiro!

O trabalho de Polidori tem crédito como o primeiro dos grandes contos de vampiros, principalmente por sua representação do vampiro em forma de um cavalheiro – uma criatura personificada de longe diferente dos cadáveres ambulantes, nojentos e sugadores de sangue detalhados nos contos de vampiros escritos, por exemplo, por Calmet e outros historiadores. As obras de Polidori eram imensamente bem-sucedidas, sendo seu trabalho traduzido para o francês, alemão, espanhol e sueco e adaptado em várias peças teatrais, que provocou e deixou o publico horrorizado até o início da década de 1850. Infelizmente, Polidori não presenciou seu sucesso por muito tempo, falecendo dois anos após a publicação de O Vampiro.

Outro trabalho memorável do início dos Românticos foi Melmoth, o viajante, publicado em 1820.
Escrito por Charles Robert Maturin, tio-avô de Oscar Wilde, seu protagonista, John Melmoth, vendeu a alma para ganhar 150 anos extras de vida. Melmoth vaga pela Terra procurando por alguém que assuma seu contrato. Apesar de o livro ser enrolado com vários contos dentro de um conto, Melmoth foi comparado ao Moliere de Don Juan, ao Fausto de Goethe e ao Manfred de Byron como grande figura alegórica, e H.P. Lovecraft o chamou “um enorme passo na evolução do conto de horror”.

Varney, o Vampiro, de James Malcolm Rymer, também foi muito popular e se tornou uma série em 109 publicações semanais, de 1845 a 1847. Primeira prosa com duração de um romance com vampiro escrito em inglês, tem um texto sensacional:

Seu busto levanta, e seus membros tremem, ainda assim ela não podia parar e olhar aquele rosto cor de mármore… Com um mergulho ele se apossa do pescoço dela com seus dentes parecidos com presas – uma golfada de sangue é seguida por um ruído horrível de drenagem. A garota desmaia, e o vampiro continua sua refeição nefasta!”

Apesar de suas deficiências artísticas, Varney entrega um retrato vivo e monstruoso dos mortos. O vampiro é Sir Francis Varney, nascido no século XVII, geralmente renascido dos mortos – uma grande figura delgada cuja face, similar a de Ruthven, é “perfeitamente branca e sem sangue”, com “olhos de lata polida” e “temíveis dentes como aqueles dos animais selvagens, hediondos, pálidos e semelhantes a presas”.

Os contos de Edgar Allan Poe foram marcos da metade do século na trilha do conto de horror. Começando em 1835, com Berenice, um conto obscuro de um homem obcecado com os dentes da amante.

As histórias de Poe cobriram a gama da ficção científica, mistério e horror. É impossível superestimar sua influência. Em muitos de seus trabalhos, Poe se esforçou em criar um efeito simples com um conto, focando em intensas experiências emocionais. Poe era adorado na Europa, especialmente após Charles Baudelaire traduzir sua produção para o francês entre 1852 e 1865, atingindo a dúbia distinção de ser o primeiro autor americano a ser melhor recebido fora do que em casa. Apesar de O Escaravelho de Ouro (1843), e O Corvo (1845), terem feito dele um autor renomado em casa, ele ganhou pouco com seus escritos, e em sua morte era visto popularmente como depravado, alcoólatra e viciado em drogas.

As melhores histórias de Poe atravessam as bordas do existencialismo, refletindo sobre a inexorável natureza do tempo e da morte e sobre a indiferença de Deus – a profundidade da alma humana. Elas exploram as almas demoníacas de pessoas comuns e crimes extraordinários e a patologia do crime e da confissão. A ficção de Poe é bem mais lida hoje do que no século XIX. Poe é o grande mestre da escrita de horror, e não surpreende que ícones dele e de seu corvo estampem o logotipo da Mystery Writers of America e o Horror Writers Association.

As histórias de Ambros Bierce, Charles Dickens e Wilkie Collins, autores que escreviam contos muito populares de visitas de fantasmas e outros acontecimentos estranhos, foram o legado imediato de Poe. Um Conto de Natal publicado pela primeira vez em 1843, de Dickens, é tido como sentimental, mas em seu núcleo permanece uma história de crise de consciência trazida por poderosos espíritos. Uma Mulher de Branco, de 1860, Collin, combina a atmosfera de romance gótico com o então recente conto de mistério, enfatizando deduções racionais das pistas. Bierce, de quem ainda se leem histórias curtas, forjou efeitos realistas de guerra e horror que soaram críveis ao público americano, procurando o efeito simples de Poe.

Entre os muitos escritos fantásticos de Joseph Sheridan Le Fanu, está seu altamente sensitivo Carmilla (1872). O conto rememora a história de uma vampira. Após um acidente de carruagem, a charmosa e bela Carmilla é levada por Laura, a narradora, à uma jovem solitária. Laura têm sonhos terríveis em que uma mulher misteriosa a visita na cama e beija seu pescoço. Ela se lembra que, durante o dia, Carmilla às vezes:

me pressionava em seu abraço trêmulo, e seus lábios suaves gentilmente brilhavam sobre minha bochecha… Eu não gostava desses humores misteriosos dela. Senti uma empolgação turbulenta que era prazerosa, misturada com medo e desgosto vagos… eu estava consciente de um amor se tornando adoração e ao mesmo tempo aversão.

Laura descobre que Carmilla é uma dupla de sua antecessora, a Condessa Mircalla Karnstein (da Styria), morta há mais de um século. Com a ajuda do pai de seu amigo, General Spielsdof, ela viaja a vila Karnstein na Styra, onde aprende com o General que Carmilla, que chama a si mesma de Millarca, é a Condessa Mircalla, uma vampira. Laura e seus homens desenterram o corpo da Condessa e a destroem enterrando uma estaca em seu coração.

No final do século XIX, houve muitos escritores fascinados pelo horror. Arthur Conan Coyle, Rudyard Kipling, Guy de Maupassant, Henry James e Robert Louis Stevenson criaram muitas histórias no gênero. Em 1897, Bram Stroker – crítico de teatro, gerente de negócios, romancista e autor de pequenas histórias de fantasia e terror –  entregou Drácula, um trabalho tão aterrorizador que criou um padrão para todas as histórias vindouras de criaturas noturnas.

Quando Drácula, nomeado originalmente O Não Morto, apareceu, alguns críticos ficaram imediatamente empolgados. O Daily Mail chamou o livro de:

… poderoso e horrendo.
Essa história estranha e fantasmagórica sem dúvida vai nos assombrar por muito tempo.
É excelente e um dos melhores materiais na linha do sobrenatural que tivemos a sorte de ler.

Essa última critica veio de Paul Mal Gazette.

Menos favorável, The Bookman expressou sentimentos alinhados aos da maioria da reação dos ingleses: um sumário do livro chocaria e causaria repulsa; mas devemos nos lembrar de que no decorrer da história apressamos detalhes com repulsa, lemos praticamente o livro inteiro com grande atenção.

Embora vampiros estivessem nos olhos do público por centenas de anos, foi Drácula quem chamou a imaginação do mundo e liderou a triunfal marcha dos zumbis vampiros da Transilvânia nos jornais livros, cinemas e palcos do mundo Anglo-Saxão, segundo as palavras de um crítico.

Centenas de peças de teatro, programas de rádio, filmes e séries de TV, assim como milhares de histórias com vampiros, seguiram a onda. Foi imensamente admirada por escritores do século XX: H. P. Lovecraft em seu Horror Sobrenatural na Literatura, escreveu:

… o melhor de todos é o famoso Drácula, que se tornou quase o padrão da exploração moderna do temível mito do vampiro. Conde Drácula, um vampiro, mora em um castelo horrível nas Carpathianas, e finalmente migra à Inglaterra querendo povoar o país com vampiros. Como um inglês lida com os fortes desígnios de terror dele, e como o plano de dominação do demônio morto é enfim derrotado, são elementos que se unem para formar uma história que hoje tem um justo lugar nas letras Inglesas.

Apesar de Arthur Machen, Algernon Blackwood, e Lord Dunsany, que viveram na metade do século, e M. R. James terem sido alçados por Lovecraft como os melhores no fantástico no começo do século, eles são pouco lembrados hoje. Machen, um autor Galês cujos trabalhos sobrenaturais apareceram em 1890, era muito interessado no oculto. Ele sustentava uma crença de que por trás do véu da realidade existe um reinado de magia e criaturas antigas. Na década de 1920, seus escritos ganharam fama na América, com Vincent Starrett e James Branch Cabell entre seus defensores mais fortes. O trabalho de Machen foi uma influência no desenvolvimento do horror pulp encontrados em revistas tal como a Weird Tales, e em notáveis autores de fantasia como Clark Ashton Smith, Robert E. Howard e H. P. Lovecraft.

O inglês Algernon Backwood esteve presente na tradição de Poe e Bierce, com a prolífica produção de novelas sobrenaturais e histórias curtas. Lovecraft o descreveu como inspiração e produção… cuja a obra volumosa e trabalho desigual podem ser encontrados alguns dos melhores espectros da literatura em qualquer época. Em seus contos, Lovecraft notou uma construção detalhe por detalhe, e completa sensação e percepção aprendidas na vida comum ou visão. Sem comando notável da bruxaria poética de meras palavras, ele é o único absoluto e inquestionável mestre da atmosfera estranha. Como um jornalista, Balckwood escreveu centenas de arquivos, ensaios, e ficção, com prazos, muitas vezes, curtíssimos. Sua última coleção de pequenas histórias data de 1946.

O nobre britânico Edward John Moreton Drax Plunkett, do século XVII, foi dramaturgo, poeta, romancista e contista. E apesar de ter escrito histórias sobrenaturais, ele é mais conhecido como um escritor de fantasia, um predecessor de J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis.

Seus livros Chronicles of Rodrigues and The Kinf of Elfland’s Daughter são aclamados; e escritores de fantasia como Jorge Luis Borges e Neil Gaiman, e os escritores de ficção cientifica Michael Moorcock, Arthur C. Clarke, Gene Wolfe e Robert E. Howard reconhecem a influência dos escritos de Dunsany.

O estudioso medieval Montague Rhodes James, cuja histórias de fantasmas, muitas escritas no pé da lareira durante o Natal para seus amigos, têm sido aclamado como um dos melhores do gênero. Geralmente com seres sobrenaturais maléficos, cuja atenção é atraída por uma vítima inocente que abre um livro velho ou um relicário descartado. Depois de anos de negligência, suas histórias estão sendo redescobertas com muito do ocultismo perdido.

Em 1919, com a publicação da história intitulada Dagon, um gigante surgiu no gênero. Howard Phillips Lovecraft começou sua carreira como poeta. Foi o influente em Supernatural Horror in Literature que ele descreveu o gênero como um ramo, embora essencial da expressão humana, e com apelo a um público limitado com sensibilidades especiais. Qualquer que seja a obra-prima universal de amanhã, essa poderá ser sobre fantasma ou terror, mas terá que conquistar sua aceitação sendo uma obra suprema que algo de tema simpático. A obra de Lovecraft produziu um imenso fluxo de histórias, romances, ensaios, poesias e contos, terminando apenas com sua morte prematura, em 1937, quanto tinha 47 anos.

Dagon foi à primeira obra de Lovecraft da qual podemos explorar suas criações de mitos de um panteão extradimensional de divindades que antecedem o próprio nascimento da humanidade. Esses deuses anciões, Lovecraft deixou que: são para serem encontrados nos interstícios dos antigos mitos e lendas.

Cthulhu

August Derleth, um dos grandes discípulos de Lovecraft, chamou esses deuses de Cthulhu. As temáticas de Lovecraft estavam de fato longe de serem simpáticas: ele era profundamente cínico com a humanidade, especialmente a luz que ele acreditava ser a evidência cientifica da insignificância da humanidade e do aleatório, a natureza probabilística do universo. Seus escritos expressam fatalismo e um sentimento de culpa, herdados pelo pecado e pelas gerações anteriores. Ele também frisou a grande influência exercida por inteligências não-humanas em assuntos humanos. Ele acreditava que o Trabalho dos Deuses foi deixado melhor inexplorado pelos humanos. Em The Call of Cthulhu (O Chamado de Cthulhu), ele aconselhou:

A melhor coisa do mundo, eu acho, é a incapacidade da mente humana de correlacionar todo seu conteúdo… um dia a junção do pensamento dissociado abrirá as vias aterrorizantes da realidade, e da nossa medonha posição, e a partir disso, ficaremos loucos ou corrermos das luzes em direção a paz e a segurança da nova Idade das Trevas.

Para a maioria das pessoas do século XX, as edições definitivas das obras de Lovecraft, especialmente At the Mountains of Madness and Other Novels, Dagon and Other Macabre Tales, The Dunwich Horror and Other, e The horror in the museum and other revisions, foram publicadas por Augusto Derleth’s Arkham House, fundada com o propósito de publicar obras de Lovecraft.

Lovecraft intencionalmente costumava usar um estilo de escrita sesquipedalian (o uso excessivo de longas formações silábicas, multisilábicas; uso exagerado de palavras extraordinariamente longas) e ainda se utilizava escrita com grafias antiquadas, a fim de invocar com tom de seriedade e verossimilhança. Seu trabalho foi influenciado pelos deuses antigos de Dunsany e os contos demoníacos de Machen. Por sua vez, seus escritos foram reconhecidos como influências significantes de grandes nomes da ficção científica, fantasia e horror do século XX e têm sido extensivamente parodiado e copiado em muitos meios, incluindo dezenas de filmes.

É possível, nesse breve texto, fazer justiça à escrita de terror após a primeira metade do século. Os grandes escritores modernos, tal como Stephen King, Peter Straub, Clive Baker, Robert Bloch, Shirley Jackson, entre muitos outros, são tão conhecidos que não há a necessidade de apresentação, e qualquer tentativa de fornecer uma história desde ponto seria imprudente. Somos sortudos de viver em uma época onde o jardim do conto sobrenatural tem crescido deliciosamente.

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Parte do texto foi extraido de In the Shadow of Edgar Allan Poe: Classic Tales of Horror, 1816-1914.

Essa matéria contou com a colaboração na tradução e adaptação de Dayane Manfrere e Walter Voigt Bach.