Sobre como o humor de ‘Graça Infinita’ é inadequado para os dias de hoje (e por isso o livro é bom)

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1929
Uma tentativa de falar de humor usando David Foster Wallace para analisar ele mesmo em sua obra-prima, o romance Graça Infinita.

Quando você se senta diante de um livro como Graça Infinita¹, desses romances-calhamaços de detonar pulso de neguinho, há inúmeros temas e personagens que saltam das páginas. Para se escrever sobre um livro assim é no mínimo preciso um recorte. Portanto, vamos falar de humor usando Wallace para analisar Wallace, id est (expressão em latim bastante usada por DFW que quer dizer “isto é”), utilizar o ensaio Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante para esboçar ou tentar um suposto entendimento do livro Graça Infinita.

Comecemos por uma síntese da história.

Ambientado em um futuro no qual os Estados Unidos e o Canadá deixaram de existir, unidos em um país nomeado de Organização das Nações da América do Norte (ONAN), o romance conta com várias peculiaridades, como hamsters selvagens ou o fato de os anos serem nomeados por marcas, ou seja, até eles foram vendidos comercialmente. Alguns desses anos são: o Ano do Chocolate Dove Tamanho-Boquinha, o Ano dos Laticínios do Coração da América e, aquele em que passa a maior parte da história, o Ano da Fralda Geriátrica Depend. Precisamos ressaltar ainda que o consumo de entretenimento se dá pela distribuição de cartuchos, sendo que estes substituíram a TV aberta. Neste contexto, surgem nossos personagens principais, o trio de filhos da família Incandenza: Hal, Orin e Mário – ainda que, é necessário dizer, há páginas e mais páginas protagonizadas por outros personagens, como Don Gately em sua luta (em dado momento até literalmente uma luta) nos Alcoólicos Anônimos de Boston, ou os divertidos diálogos de Steeply e Marathe. No entanto, voltemos ao trio de irmãos. Orin é o filho mais velho, teve uma passagem pela ATE, a academia de tênis fundada por seus pais, que rendeu a ele uma bolsa universitária; e indo à universidade, acabou descobrindo que poderia ser um punter de futebol americano em vez de tenista. Já Mario, o segundo filho, vive com uma câmera presenteada pelo pai, captando imagens na ATE para produção de um vídeo para datas comemorativas da academia – sua mãe teve problemas no parto e ele nasceu um pouco atrofiado, tem dificuldades de entender certas convenções sociais, o que faz deste um dos melhores personagens da obra. E, por último, temos Hal, filho mais novo do casal Incandenza. Ele é o número dois do ranking sub-18 do continente, atrás apenas de seu companheiro de ATE Jonh Wayne, porém mais do que isso, é um verdadeiro gênio precoce, como se tivesse herdado a capacidade analítica de idiomas que sua mãe tem, embora o temperamento seja o mesmo do pai.

Algo que “assombra” todo o livro é o fato do Dr. James Incandenza – pai do trio Orin, Mario e Hal – ter se suicidado quatro anos antes do Ano da Fralda Geriátrica Depend, colocando a cabeça dentro de um micro-ondas após três meses de sobriedade alcoólica. Contudo, este pai deixou um legado como diretor de cinema experimental, inúmeros filmes que vão sendo citados durante a obra – como Acordo pré-nupcial do céu e do inferno, Disque C para concupiscência, Diga adeus ao burocrata, Civismo de baixa temperatura, O século americano visto por um tijolo, entre outros –, mas que servem apenas de contexto para o filme mais buscado por toda a ONAN, o temível Graça Infinita V ou IV, que seria uma obra de entretenimento produzida pelo diretor com a capacidade de levar qualquer pessoa a desistir de todas as demais coisas da vida, restringindo-se unicamente a assistir e reassisitir ao filme.

 

O humor de David Foster Wallace, id est

Um humor que poderia ser comparado com o utilizado por Kafka em contos como A pequena fábula e Um artista da fome, ou a novela A construção. O grande problema de elaborar esta comparação é que a maioria das pessoas não saca o humor kafkaniano, e me incluo com esta dificuldade, pois é um humor muito diferente daquele que consumimos na atualidade. Em Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante, DFW compara os contos kafkanianos às piadas, pois ambos dependem de exformação, “que é uma certa quantidade de informação imprescindível omitida porém evocada na comunicação de modo a provocar uma espécie de explosão de conexões associativas no leitor².” E, pouco depois, ainda acrescenta que Kafka é “capaz de orquestrar o aumento dessa pressão de modo que ela se torne intolerável no instante preciso em que é liberada.”

Mas o que Kafka tem a ver com Graça Infinita (além da citação, pelo menos em três ocasiões, do adjetivo “kafkaniano”)?

Pois se temos as leituras dos contos da obra de Kafka – bem mais relevantes que A Metamorfose, diga-se de passagem –, enxergaremos tanto nos contos de Wallace como em Graça Infinita uma espécie de pós-humor-kafkaniano, como se DFW tivesse dado continuidade a esta vertente de humor, porém a aprofundando e a recriando. Em vez de tratar do homem subterrâneo, da solidão, da impotência, como o autor de O Processo, Wallace fez humor com temas como a depressão, o vício em alucinógenos e álcool, a ninfomania, o estupro, o consumo emburrecedor de entretenimento e, talvez um dos principais temas da obra de DFW, o suicídio.

Ele dá este passo além no que se refere a tratar de temas que fazemos de conta que não estão próximos de nós. Temas que preferimos ignorar, excluídos de nossas conversas vazias e cheias de “como você vai?” e “aí, será que chove hoje?” Talvez Graça Infinita (ou “piada infinita”, como traduziram nossos amigos portugueses) não seja o filme de James Incandenza, porém esta nossa graça, nossa capacidade de percorrer linhas e linhas de ficção wallaciana, para logo depois ir comer um sanduíche e ver qual o próximo filme da Netflix vamos assistir

DFW, contudo, não nos diz nada disso.

Basicamente porque quem lê Graça Infinita, ou seus contos, ou seus ensaios, ou até o discurso Isto é água se depara com um tipo de “literatura amoral”, uma literatura que não te explica o que quer dizer, que não tem um “e a moral é”, pois se propõe a entregar esta decisão sobre “o que estamos falando” ao leitor.

Você lerá, por exemplo, em Graça Infinita um personagem contando como era estuprado pelo pai e, pela forma como se conta, terá vontade de rir, uma espécie de riso interno, mas que transparece em seu rosto. Porém você sabe que é socialmente inaceitável que você possa rir de algo assim. Você sabe que não contaria a ninguém se risse, e menos ainda gostaria que alguém próximo a você, talvez alguém de sua família, saiba que você riu de algo assim. Só que DFW provocou este tipo de reação em você, e você não tem como se livrar disso.

Mais ou menos isso é ler Graça Infinita. É terrível, assustador, inadequado para os tempos de um humor politicamente correto – mas exatamente por isso, é bom, é preciso que você leia.

 

Notas:

¹ WALLACE, David Foster. Graça Infinita. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

² WALLACE, David Foster. Alguns comentários sobre a graça de Kafka dos quais provavelmente não se omitiu o bastante. In: Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

³ WALLACE, David Foster. Breves entrevistas com homens hediondos. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.