A identidade galega nas palavras de mulheres

A voz da mulher na literatura não é recente, desde a formação da Língua Portuguesa, com o galego-português, havia mulher na literatura, sobretudo na poesia
A poeta Rosalía de Castro | Popart de FeijooS

Historicamente, as mulheres permaneceram à sombra dos homens em vários aspectos, inclusive artísticos e culturais. Mesmo assim, elas estiveram presentes, agregando valor ao mundo da literatura, desde muito tempo atrás. A título de exemplo, muitos consideram que o primeiro romance tenha sido escrito por uma mulher: Murasaki Shikibu, uma japonesa da classe nobre, que escreveu no ano 1007 um livro chamado A História de Genji.

Há quem pense que a luta feminina por voz na literatura é recente, principalmente no Brasil. Pelo contrário, desde a formação da Língua Portuguesa, com o galego-português, as mulheres buscavam seu espaço na literatura, sobretudo na poesia.

Vale ressaltar que o galego-português foi o idioma que deu origem às línguas galaico-portuguesas, ou seja, as línguas originadas na região ocidental da Península Ibérica. O galego-português foi falado durante a Idade Média nas regiões de Portugal e da Galiza, dando origem às línguas portuguesa e galega.

A mulher e as cantigas de amigo

As Cantigas de Amigo eram escritas por homens, mas davam voz às mulheres. A língua galega perde um pouco sua força, e as cantigas de amigo, sua principal marca, quase se perde também. As cantigas de amigo, mesmo que escritas por homens, eram consideradas poemas de mulheres. Contudo o país enfrentava uma crise econômica e literária, tendo a língua falada e a língua literária se esmorecido. Nesse ponto, a autora Rosalía de Castro promove o ressurgimento da língua literária galega.

Rosalía de Castro

A poesia de Rosalía de Castro fez ressurgir a identidade literária de seu povo. Seus poemas não mais cantavam o amor da donzela pelo rapaz, e sim faziam um resgate da identidade galega: a mulher tomava voz não para se lamentar pelo amado que se foi, mas cantar sua terra, suas lutas.

“Adios, rios, fontes;
Adios, regatos pequenos;
Adios vista dos meus olhos;
Non sei cando nos veremos”.

Luz Pozo Garza

Outra poeta e destaque na poesia galega é Luz Pozo Garza, que resgatou a tradição galega nos tempos atuais. Foi uma das primeiras a escrever na língua mátria após a guerra civil de 1936-1939, não apenas por escrever em galego ou por refletir sobre a condição de ser galego ou por retomar a tradição da poesia galega, dos trovadores, mas sim por colocar-se, ela própria como amostra daquele que é um dos traços importantes de sua terra: a poesia.

Noitébrega sibila
De alavras de cinza
Acórdamos o fado
Desta terra,
As aldeas pechadas
Esqueceron as verbas.
Ónde quedou a espranza
Que percute no peito?
Unha roda de chumbo
Vái calcinando a pedra.
Non me ves desvelada
Sobor da terra moura
Sobor da terra núa?
Si ollas na miña ialma
Ollas temén Galicia,
Que sorte
         norte
         morte
                     nos agarda?

A mulher nos cancioneiros medievais galego-portugueses: Maria Pérez, a Balteira

Existem observações preliminares de como a mulher é retratada nos cancioneiros profanos medievais galego-portugueses, nas cantigas satíricas. Apesar de a maioria das cantigas preservadas ser de autoria masculina, também havia mulheres que executavam cantigas, juntamente com os jograis e trovadores: são chamadas de jogralesas ou soldadeiras. Dentre as mulheres que eram soldadeiras, destaque para Maria Pérez, de origem galega, que pertencia a uma família abastada, era dançarina e cantora. Ela era tema de várias cantigas satíricas. Alguns trovadores atacaram a soldadeira nominalmente em mais de doze cantigas de escárnio e maldizer. Joan Vásquiz a acusa de prostituir-se, numa pequena cantiga de estilo direto:

O que veer quiser, ai, cavaleiro,
Maria Pérez, leve algun dinheiro;
senon, non poderá i adubar prol

Podemos observar que, desde as origens de nossa língua, a mulher ergueu sua voz na literatura. Possuímos várias mulheres de grande representatividade em nossa literatura. A título de exemplo podemos citar Ana Eurídice Eufrosina Barandas, considerada a primeira cronista do país; Raquel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras; Clarice Lispector, uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX; e Nélida Pinon, primeira mulher a ser Presidente da Academia Brasileira de Letras.

Seja na política, nas artes e em todos os segmentos da sociedade, a mulher está inserida e representada. Lemos aqui que desde outrora a mulher luta para ter sua voz ouvida e se manter na posição que lhe é de direito.

Alessandro Silva Author

Professor de Língua Portuguesa, Literatura e Redação. Editor de textos e cronista.