Infância: uma prisão paradoxal?

“Se pensarmos assim, romanticamente, faremos da infância uma grande prisão paradoxal”.

matilde

As primeiras descobertas que fazemos na vida acontecem na infância. Também sabemos que a literatura brasileira e seus melhores autores olharam muitas vezes para ela, servindo de inspiração para escreverem seus poemas e histórias. E que muitas dessas histórias demonstram sentimentos de nostalgia, beleza e carinho para com esta fase da vida. Porém, sabemos também que nem todas as histórias são assim.

No período do romantismo brasileiro, em que a arte estava cheia de emotividade e evasão dos sentimentos, a infância foi abordada de forma onírica e alegre. Ela foi tratada como um lugar de sonhos e felicidade. Quem não se lembra do poema Meus oito anos, de Casimiro de Abreu, em que se diz:

“Oh! Que saudade que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!”

Este é um bom exemplo do pensamento romântico sobre a infância. Exemplo da evasão, do olhar para o passado e acreditar que ele foi mais feliz que o presente. O que em geral é um mito, pois não devemos fazer com que o presente seja melhor independente do passado?

Também em relação ao romantismo é interessante lembrar que as características da arte romântica foram absorvidas fortemente pela mídia brasileira. O amor romântico e o sentimentalismo aparecem nas novelas, tanto quanto as idealizações aparecem nas propagandas (penso agora nas mulheres “perfeitas” dos shampoos, sabonetes e afins).

Resumindo: a mídia e a propaganda formaram por muito tempo pessoas que acreditam nas características românticas. Somos de certa forma, por formação, românticos! O que não é ruim. Porém, pode não ser totalmente bom. Afinal, imagine se começarmos a imaginar que só a infância foi feliz e que o presente não vale nada. Ou que a infância é uma época de ouro e, por termos vividos situações difíceis nela, perdemos a melhor parte de nossas vidas. Se pensarmos assim, romanticamente, faremos da infância uma grande prisão paradoxal.

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A própria literatura, depois do romantismo, retratou a infância de forma mais realista. Este trecho do poema Infância, de Manuel Bandeira, é um exemplo disso:

“Descoberta da rua!
Os vendedores a domicílio.
Ai mundo dos papagaios de papel, dos piões, da amarelinha!
Uma noite a menina me tirou da roda de coelho-sai, me levou, imperiosa e ofegante, para um desvão da casa de Dona Aninha Viegas, levantou a sainha e disse mete.
Depois meu avô… Descoberta da morte!
Com dez anos vim para o Rio.
Conhecia a vida em suas verdades essenciais.
Estava maduro para o sofrimento
E para a poesia!”

Neste poema, Manuel Bandeira nos mostra que a infância foi para ele o momento de descoberta de coisas fortes da vida, como o sexo, a pobreza, os “vendedores a domicílio” e também a morte. Ainda criança estava pronto para o sofrimento e também para a poesia.

Não quero com isso dizer que não devemos olhar para a infância ou para o passado com carinho. Pelo contrário, é preferível olharmos para trás com ternura do que com rancor ou amargura. Mas não nos deixemos iludir. As coisas são como elas são. Há infâncias felizes e tristes.

Mas, voltando para a mídia e a atualidade, penso agora nas redes sociais, neste dia das crianças, e em todas as fotos de crianças que foram postadas ou trocadas no perfis do Facebook. E questiono: será que estamos sendo românticos em massa? Será que estamos presos na época de ouro achando que o passado é melhor que o presente? Espero que não.

Renan Pereira
Estuda Letras na Unesp de Araraquara. E anteriormente trabalhou como repórter fotográfico no jornal Debate, no interior de São Paulo.
Renan Pereira
Estuda Letras na Unesp de Araraquara. E anteriormente trabalhou como repórter fotográfico no jornal Debate, no interior de São Paulo.
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