Inominável: 130 anos de Howard Phillips Lovecraft

Na coletânea “Inominável: 130 anos de Howard Phillips Lovecraft”, vários autores compartilham seus textos inspirados no mestre do horror

H. P. Lovecraft contra a vida - Revista Galileu | Estante Galileu
H. P. Lovecraft

Uma coletânea para Lovecraft

Na coletânea “Inominável: 130 anos de Howard Phillips Lovecraft”, vários autores compartilham seus textos inspirados no mestre do horror. Os contos apresentam uma bela homenagem ao autor e também servem como manutenção da força da sua obra. Funcionam como uma boa recomendação tanto para quem já conhece e aprecia sua obra quanto para quem deseja se iniciar nesse tipo de leitura.

Eles apresentam os elementos que figuram nos textos do grande representante do “horror cósmico”, personagens tais como Cthulhu e Yogg-Sothoth, o fictício livro dos mortos Necronomicon, que teria sido escrito pelo árabe Abdul Alhazred em 730 d.C., criaturas de outras dimensões, cultos satânicos e um horror indescritível sentido pelos personagens (e também, como proposta, pelo leitor).

O título da obra provém justamente dessa noção de um tipo de medo ou pavor impossível de ser nomeado de tão intenso, já que estamos lidando com forças além do poder de compreensão humano.

Os temas caros a esse tipo de texto são a insanidade, o ocultismo e a possível destruição da raça humana. Constantemente, é a curiosidade e a busca pelo saber infinito que levam os personagens à perdição, tal como Fausto, de Goethe.

Ver tais criaturas ou mesmo ouvir seu nome pode ser fatal. Assim, arqueólogos despertam criaturas adoradas por povos ancestrais durante expedições, um estudioso traz de volta à vida sua mulher morta para acessar outros portais, um pesquisador solitário numa estação russa na Antártica enlouquece e é atacado por pássaros que parecem dominados por uma força sobrenatural, um homem é oferecido em sacrifício a um deus alienígena durante o sono, etc.

Controvérsias do autor homenageado

H.P. Lovecraft se tornou um autor polêmico por conta de seus inúmeros preconceitos, como machismo e racismo, explicitados em sua obra.

É fato que os negros retratados em suas obras são sempre perigosos e primitivos e a participação das mulheres em suas histórias é insignificativa ou desdenhosa, por exemplo.

Porém, não podemos negar a importância do escritor para a literatura de horror. Inúmeros filmes e outras obras foram realizados a partir de seu legado.

Ele nasceu em 1890, na cidade de Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos. Escreveu diversos contos, ensaios e romances de fantasia e terror. Suas obras, inspiradas constantemente por pesadelos, são discutidas até hoje por uma legião de leitores impactados por sua mitologia repleta de simbolismos.

H. P. Lovecraft — Wikipédia
HPL

O medo cósmico

Conforme já dito, H.P. Lovecraft também era ensaísta. Seu livro teórico mais famoso é “O Horror Sobrenatural em Literatura”. Nele, Lovecraft afirma que o medo é o sentimento mais primitivo do ser humano. Em especial, o medo do desconhecido. E é com esse tipo de medo que o autor trabalha. Mais especificamente, com o que denomina “medo cósmico”. Este consiste no pavor sobrenatural sentido por quem se depara com as criaturas místicas inventadas pelo americano.

O pesquisador Prof. Dr. Júlio França (UERJ) associa os conceitos dessa obra lovecraftiana aos do filósofo Edmund Burke. Ele analisa as influências de “Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo”, de Burke, em “O Horror Sobrenatural na Literatura”, de Lovecraft. Segundo Burke, a dor é a sensação mais forte que pode ser sentida por um ser humano, mais forte que o próprio prazer. Ela estimula a imaginação, como os pesadelos de Lovecraft.

Quando temos a percepção da dor sem correr risco real de vida, podemos experimentar o que Burke chama de “deleite”. É uma espécie prazerosa de medo, pois sabemos que o perigo não é real.

A ficção pode nos transportar a esse estado, pois conseguimos sentir o pavor dos personagens através da “simpatia” (um tipo de empatia, identificação, segundo Burke), sabendo que estamos a salvo do perigo real. Isso explica por que procuramos obras que visam um efeito estético de impacto negativo, como o horror.

O “sublime” seria uma das fontes do “deleite”. Mais poderoso que o “belo”, ligado aos afetos positivos, o “sublime” é ligado ao obscuro, à ameaça física, à solidão, ao silêncio, à percepção da imensidão ou da infinitude, etc.

Como aponta Júlio França, essas são características próprias das narrativas de horror. Assim, Lovecraft parece incorporar em sua teoria e em sua literatura os conceitos burkeanos. O tipo de medo causado pelas criaturas ancestrais e alienígenas indescritíveis em sua obra é por ele classificado como “medo cósmico”.

Nesse gênero de narrativa, a tentativa de desvendar um conhecimento inacessível e enlouquecedor à mente humana, que provoca danos irreparáveis e por vezes até a própria extinção da espécie, nos lembra que somos poeira diante do caos primordial.

Conclusão: o acerto dos covers

Conforme é possível supor, não é tarefa fácil recriar as histórias de um autor tão renomado como Lovecraft. Porém, os escritores de “Inominável” são muito bem-sucedidos em seu intento. Eles conseguem produzir uma obra atual e ao mesmo tempo conservam as características típicas do autor homenageado.

Ótima leitura para os fãs do horror, aqueles corajosos o suficiente para encarar o desconhecido rumo ao “inominável”.

Referência:

COELHO, Maurício (org.). Inominável. Bragança: Pará.grafo Editora, 2021.

Links de consulta:

Bases filosóficas do horror cósmico na literatura (revista Galileu)

O horror na ficção literária: Reflexão sobre o “horrível” como uma categoria estética (Júlio França)

Fundamentos Estéticos da Literatura de Horror: a influência de Edmund Burke em H.P. Lovecraft (Júlio França)

5 melhores filmes inspirados na obra de H.P. Lovecraft

Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
Nicole Ayreshttp://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
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