Intervalo: Vem pra Rua! – Cláudia de Villar

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Barbosa acordou naquela manhã como sempre havia acordado naqueles últimos 30 anos. Em paz. Levantou-se mecanicamente e foi para o banheiro como sempre fazia. Nada de diferente.

– Vem pra rua!!!

Ao ouvir esse chamado, ele desviou de seu caminho e foi para a janela de seu apartamento ver o que era. Mas não conseguia ver nada. Então, decidiu tomar café primeiro, mudando a sua rotina. Ao escutar um burburinho vindo da rua, decidiu ir logo para o trabalho. Lá ele iria ao banheiro. Portanto, como sempre fez ao longo daqueles 30 anos, ele foi pegar o seu ônibus rumo ao trabalho. Tudo na mais perfeita ordem.

Nem tudo.

– Vem pra rua!!!

Logo ao dobrar a esquina, Barbosa percebeu que a sua rotina não estava tão perfeita. Certo tumulto acontecia em torno da parada de seu ônibus. Ele ficou em dúvida se caminharia até a parada ou não. Melhor não. Vamos evitar a desordem e mudar de rumo hoje. Primeira mudança em 30 anos.

Porém, na parada seguinte também havia outro tumulto. Eram estudantes que carregavam faixas e placas. Ele olhou meio que desconfiado para aquele povaréu todo. Imaginando que talvez algum ídolo do futebol ou do funk fosse passar por ali. Seria melhor ele evitar, novamente, aquele amontoado de pessoas. Vamos manter a ordem – pensou Barbosa, dirigindo-se a um ponto de táxi. E assim, conseguiu chegar até seu trabalho.

– Vem pra rua!!!

Entretanto, Barbosa também presenciou em frente ao seu trabalho um aglomerado de pessoas. Mas que desordem! – gritou a cabeça de Barbosa. Decidindo não fazer parte daquele tumulto, Barbosa entrou pelos fundos de seu prédio – parecia um fugitivo. Ao chegar ao seu escritório, surpreendeu-se com seus colegas todos juntos num aglomerado humano em torno de um computador. Mas o que estaria acontecendo?! Resolveu perguntar:

– Mas o que está acontecendo, Sra. Rose?

A secretária lançou um olhar muito estranho para ele. Como se na frente dela estivesse um alienígena. Ele não sabia?! Como Barbosa não respondia, a secretária resolveu clarear as ideias dele:

– Como assim, senhor Barbosa?! Você não está acompanhando a vida?

Barbosa, mais confuso ainda, fez cara de paisagem à espera de mais respostas. E elas vieram:

– É o povo que acordou! Chega de tanta impunidade! Basta de roubalheira! Fora aos corruptos! Fora presidentA, fora senhores deputados, fora ladrões!

E tudo o que ele via na tela do computador eram dois jovens carregando uma faixa com letras garrafais: CHEGA DE ROUBAR! A PASSAGEM DEVE BAIXAR! R$0,20 JÁ!!!

Barbosa não estava entendendo nada, mas ele aceitou, de forma pacífica, a explicação da secretária, já que não teve outra escolha, uma vez que na sua caixa de entrada de e-mails tinha mais de 20 correios falando sobre a passagem! Sentiu-se um alienígena em seu próprio país. Seus colegas vieram falar com ele. Politizá-lo. Contar sobre as lutas, as manifestações:

– Mas em que mundo você vive, Barbosa?! Nosso salário cada vez menor, a comida cada vez mais cara, os impostos cada vez mais altos!!!

Ele vivia numa ordem. Sem progresso.

– Vem pra rua!!!

Barbosa pensou. Refletiu. E, antes que esboçasse qualquer opinião, a moça do cafezinho falou:

– Um dia sem TV Bobo!

Um dia sem a sua novelinha? Por quê?!

– Dia %& o Brasil vai parar geral!

Parar geral? Mas eu…

– Chega de sermos palhaços!

– Pão e circo, jamais!

Mas eu gosto tanto de comer pão…

– Fora Pilma, fora Crustáceo!
– Vamos fazer uma varredura no Congresso!

– Chega de sermos manipulados!!!

– Ãh?!

Barbosa ficou preocupado. Será que ele queria parar também? Gostava de sua ordem pacífica e rotineira. Porém, antes que ele pudesse manifestar a sua opinião o rapaz da limpeza falou com voz alta:

– Devemos lutar pelos animais!

E o outro falou:

– Devemos lutar para termos mais moradia!

– Por um sistema de saúde mais justo!

– Por uma educação igualitária!

– Por hospitais equipados!

– Por uma jornada de trabalho menor!

– Pelo direito ao lazer!

– Queremos mais cultura! Teatro, cinema, exposições, feiras…

– Vem pra rua!!!

Barbosa nem conseguia pensar. Era uma enxurrada de manifestações!

– O povo acordou, Barbosa! Acordou!

E ele? O que queria? Quais as suas reivindicações particulares?!

Tentou falar novamente, mas foi interrompido pelo recepcionista:

– Abaixo à hipocrisia! Vamos pras ruas! Vamos protestar!

Seria o fim da ordem em sua vida? – pensou Barbosa.

– Cadê os atores da ”Bobo” dando seus depoimentos?

– Cadê os cantores cantando músicas de rebeldia?

E Barbosa naquele momento sentiu apenas vontade de urinar. Precisava ir ao banheiro. E foi isso que ele fez… Ou tentou fazer.

– Vem pra rua!!!

Nem conseguiu atravessar o escritório e ir ao banheiro. Foi levado pelos colegas de escritório. Na passeata febril, Barbosa não pensava em nada. Só queria falar, mas ninguém queria escutar!

Cadê a democracia? – pensou Barbosa.

Estava ele vivendo numa vida à parte? Alienado?! Parado? Será que era hora dele também se rebelar?! Não. Ele só queria urinar. Mas naquela multidão… Quem prestava atenção? Era uma massa popular febril.

– Somos da paz. Não queremos quebrar nada! Queremos apenas os nossos direitos!

– Respeito aos direitos!!!

Barbosa respeitava os direitos de todos. Mas ele precisava sair dali! Ao tentar afastar-se da multidão, alguns colegas, ao perceber a intenção, gritaram em conjunto:

– Não fuja, Barbosa! Assuma a sua luta!

– Cadê a sua voz política?!

– Cadê o seu senso de justiça?

– Cadê o seu patriotismo?

– Cadê o seu coleguismo?

– Estamos na mesma luta!

Será? – pensou Barbosa.

– Ordem e Progresso, Barbosa!!!

E Barbosa só pensava: Ordem de protesto!!!

– Vem pra rua!!!

Barbosa não pensava, não refletia. Só queria urinar! Correu da multidão. Foi vaiado pela população. Foi apedrejado pelos mais salientes. Foi escorraçado pelos colegas de trabalho. E viva a democracia!

Esfolado, machucado e cansado, Barbosa conseguiu chegar ao seu apartamento. Rumo ao banheiro, enfim. Ali, exercendo o seu direito de cidadão, conseguiu colocar seu pensamentos em ordem. Pensou, refletiu e decidiu! Também fazia parte da população. Não era um palhaço e não iria deixar-se manipular. Ele também tinha seu direito de reivindicar. Os jovens tinham razão: chega de ser alienado! Pegou cartolina e canetão. Fez seu cartaz com letras garrafais.

– Sim!!! Vou pra rua!

Misturou-se à galera. Posicionou-se em frente à televisão. O seu cartaz quis logo mostrar à nação. Ele também era cidadão:

“EU APOIO A CAUSA,
DOU FORÇA AO MOVIMENTO
NÃO SOU UM ALIENADO
QUERO UM PAÍS MAIS JUSTO E IGUALITÁRIO
POR ISSO, EU GRITO:
ORDEM E PROTESTO!
PEÇO MAIS “PIPI-MÓVEIS” À BEIRA MAR
AFINAL, TODO MUNDO TEM QUE URINAR!”

Cada um luta pelo que acredita.
Até o nosso próximo Intervalo.