Inventariando nossas imperfeições: o livro “Brochadas – Confissões sexuais de um jovem escritor”, de Jacques Fux

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Em tempos de facebook e twitter, ler Brochadas, de Jacques Fux, nos traz de volta à realidade

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A sensação que se tem ao terminar a leitura de Brochadas, de Jacques Fux, é de apaziguamento e reconciliação com os próprios fantasmas. Enfim, uma apologia ao fiasco. Uma ode ao fracasso. A ousadia desse autor é um alívio. E nada brochante!

Em tempos de rostinhos sempre sorridentes no “livro da face”, nos quais, por trás da quantidade (ou falta) de likes, já se insinua, aterradora, a sombra da exclusão (como se a vida tivesse se tornado um permanente curso de self-marketing – aula de hoje: otimização de perfil), nesses tempos de felicidade coercitiva, a sobriedade bem-humorada deste corajoso autor vem a calhar. Não, não somos perfeitos, não estamos bem e a vida às vezes (na maioria das vezes) é mesmo de brochar. Pronto, falou!

O movimento da leitura é mais ou menos assim (foi comigo): logo nas primeiras páginas, com a “Tentativa de esgotamento do motivo das brochadas masculinas” e a “Tentativa de esgotamento do motivo das brochadas femininas”, Fux deixa claro a que veio: tocará em tabus, inventariando nossas imperfeições. “Mau hálito; chulé; fedor na xoxota; fedor no bumbum; bunda murcha; bunda flácida;… pinto pequeno; pinto grande demais; pinto meia-bomba; muito pentelho; pouco cabelo; depressão; tudo isso junto.”

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Brochadas, Rocco, 2015.

Numa espécie de prefácio, o autor se alia a notórios brochas como Rousseau, Platão, Montaigne e tantos outros de todos os tempos que souberam fazer da impotência uma em potência (no sentido aristotélico do ser em ato e ser em potência) e da brochada uma inextinguível fonte de inspiração. Jacques Fux desvela o enorme potencial da falta, da insuficiência, como motor do desejo: o déficit aqui é crédito e o melhor tesão é aquele pelo qual você tem que lutar.
Na sequência, tem-se acesso a uma hilária troca de e-mails com as supostas ex-namoradas, a quem o autor escreve, pedindo que relatem as suas experiências com ele, mas que falem também das próprias brochadas. Aprendemos que há várias modalidades de brochada: a masculina, a feminina, a real, a literária, a metafísica. Aos poucos, o leitor vai se enredando imperceptivelmente no próprio voyeurismo e, lá pelas tantas, flagra-se deleitado ao espionar a correspondência e a vida sexual alheia. É então que se pergunta: o que esse cara está fazendo comigo? Está gozando da minha cara, está me enrolando ou está de fato se expondo? Ou tudo junto? Nota então que caiu numa armadilha de sublimação e catarse: está rindo é da própria desventura.

Uma questão recorrente no livro (como suposto motivo para as brochadas) é a do (mau) cheiro. Fux discorre sobre o tema em longos ensaios, tão filosóficos quanto engraçados. O assunto é de fato relevante porque o (mau) cheiro denuncia a nossa condição de hominídeos: somos primatas. E passamos o tempo todo tentando recalcar esse fato.
“Desde o final do século XVIII, e sob o ponto de vista da estética clássica, o cheiro era classificado como o mais inferior entre os sentidos…. O tal do Kant classificou o olfato como ‘o ingrato e mais dispensável‘ dos sentidos… Kant colocou em dúvida a capacidade desses inferiores sentidos de contribuir para o conhecimento epistemológico. (Que confusão!)”.

No intervalo dos odores, entre uma brochada e outra, são levantadas questões sociais, políticas e humanas, como a questão judaica, tema que acompanha o autor desde o seu romance de estreia, “Antiterapias”. As diferentes perspectivas temáticas são reforçadas pelo hibridismo da narrativa: Fux passeia com segurança por diferentes gêneros e estilos literários como a ficção, a autoficção, o ensaio, a epistolografia.

A filósofa Márcia Tiburi resume bem a força deste texto inusitado com apenas duas frases na orelha do livro: “Fux conta histórias com aquele jeito de quem, ao falar da vida, faz uma piada. Morre-se de rir enquanto, ao mesmo tempo, fica-se a pensar.”