Jorge Andrade e o Brasil que revela sua face

Em 1979, Jorge Andrade escreveu a peça “O incêndio” baseada em caso real de invasão e linchamento na cadeia pública de Chapecó.

Jorge Andrade | Enciclopédia Itaú Cultural
Jorge Andrade: foto por Fredi Kleemann

O linchamento de Chapecó

Em outubro de 1950, dezenas de pessoas invadiram a cadeia pública de Chapecó, em Santa Catarina, incitadas pelo delegado e o padre da cidade. Quatro presos foram linchados.

Romano Ruani, Ivo de Oliveira Paim, e os irmãos Orlando Lima e Armando Lima foram acusados de incendiar a igreja da cidade. Depois de mortos por tiros e golpes de faca, seus corpos foram incendiados e colocados para exposição.

Eles foram vítimas de uma trama articulada por pessoas conhecidas na cidade, entre elas o delegado Arthur Argeu e o padre Roberto. Este último não teve o mínimo pudor de dizer em um de seus sermões: “quem queimou a igreja deve ser queimado!”.

Com manchetes sensacionalistas intituladas “O massacre em Chapecó”, “Culpado é o delegado” e “Chapecó, cidade do pavor”, a imprensa acabou apurando o verdadeiro motivo para o crime: o poder, sempre ele.

As consequências

Romano e Ivo eram dois forasteiros que haviam chegado à cidade. Aproveitando-se das suspeitas que dois estranhos despertam em um lugar pequeno, o delegado os prendeu como mandantes do incêndio. Tiveram como seus cúmplices Armando e Orlando, ele sim o grande alvo, por causa da sua oposição ao coronelismo vigente na época.

A polícia chegou até os dois depois de torturarem Romano e Ivo, que horas antes da tragédia tentaram voltar atrás da sua falsa denúncia. O delegado, porém, não fez o mínimo esforço para mudar a situação.

Arthur não se desviaria de seus planos: acabar com a vida dos quatros homens para se livrar de futuras acusações de tortura e envolvimento com o incêndio da igreja. Algumas investigações mais tarde apontaram para um suposto interesse no seguro do local.

A peça baseada no caso

O dramaturgo paulista Jorge Andrade buscou nesses fatos tenebrosos a composição da sua peça “O incêndio”, compilado em “Marta, a árvore e o relógio”, junto com “Vereda da Salvação”, outro texto seu inspirado em um Brasil devastado pelo fanatismo religioso.

Em “O incêndio” a tragédia acontece em Água Limpa e vitima os forasteiros Romualdo, Orlando e Omar, o grande opositor do Coronel Azevedo, chefe político da cidade. É nítido o que Jorge, perseguido pela ditadura e ferrenho opositor do AI-5, buscou ao escrever a peça: a denúncia de um sistema que beneficia os ricos, mantém os pobres apavorados pela fé cega e os pune por serem marginais da sociedade.

O realismo da peça

Utilizando o realismo não como a corrente estética, que nos lembra do século XIX, mas na forma da técnica capaz de descrever sem rodeios a realidade psicológica e social do homem, Jorge deixa claro desde o início da peça a intenção de cada um dos personagens, como Jupira, prostituta conhecida na cidade, e corajosa e justa amiga de Omar:

“Estou ajudando o Omar, Luzia. Ele precisa vencer esse puto que explora o povo há trinta anos. O povo é muito besta. Vai na conversa. Enquanto o coronel não cair de boca no chão, não adianta nada. Este é o sonho de Omar”

E  também as “preocupações” dos envolvidos na trama que vai resultar no linchamento de Omar:

“-Esse moço precisa levar uma exemplada. Tome nota disto, Ulhôa. É pra isto que coloquei você na delegacia.
– Estou de olho nele, coronel. Qualquer escorregão que der, eu o levo pro pela-porco”

Pela-porco era o apelido da cela na prisão para onde os presos eram levados e torturados, além do local onde Omar teve os joelhos quebrados, fato que leva os envolvidos em sua prisão a planejarem sua morte, livrando-os também da culpa.

Ficção e vida real

Em Chapecó, a investigação levantou a possibilidade de que dois dos presos já estariam mortos antes da barbárie começar.

Em suas primeiras produções, Jorge escreveu sobre o passado para falar do presente. Com a denúncia do fanatismo em “O incêndio”, ele escreveu sobre o presente para discutir o futuro, nos mostrando que a luta contra a intolerância não é mérito (ou desgraça) dos tempos atuais.

“O incêndio” foi lançado em 1979 e é última peça de Jorge Andrade, que nos deixou em 1984, alertando sobre coisas que muitas vezes preferíamos não saber.

Créditos HL

O texto acima é de autoria de Débora Consiglio. A revisão é de Fernando Araújo. A edição é de Nicole Ayres, Editora Assistente do Homo Literatus.

Revisão por
Fernando Araujo Neto
Recifense, graduando em ciências sociais pela UFPE, apaixonado por cultura popular
Editoria por
Nicole Ayres
http://sentimentosemcompotas.blogspot.com.br/
Professora de francês, Mestra em Teoria da Literatura pela UERJ, escritora e editora assistente no Homo Literatus. Apaixonada pelas palavras e pela vida. Não sabe definir os limites entre seu fazer artístico, professoral e humano, e nem pretende.
- Advertisment -

Em Alta

- Advertisment -