Jorge de Lima, fotógrafo ou poeta? – O que você acha?

Jorge de LimaNo conto As babas do Diabo, de Julio Cortázar, o narrador diz que as pessoas deveriam, ainda crianças, aprender a fotografar. Assim, elas desenvolveriam um tipo de senso crítico acompanhado da capacidade de fazer recortes de uma realidade, adotando diversos ângulos de visão. O que isso tem a ver com Jorge de Lima?

Numa época em que o visor da objetiva foi substituído pelo black mirror dos celulares, a proposta do narrador cortaziano tem requintes de vanguardismo. A tela dos smartphones talvez tenha sido batizada de espelho justamente porque, hoje, os usuários queiram somente fazer recortes de si mesmos, a fim de representarem personagens cool ou até mesmo assumirem um anti-heroísmo que renda os tão desejados likes.

Roland Barthes, no mais do que recomendado livro A câmara clara, escreve sobre a função do visor das câmeras fotográficas. Essa câmara escura funcionaria, segundo ele, como a visão que alguém tem ao olhar pelo buraco da fechadura. Uma imagem limitada pelos contornos do encaixe da chave, um recorte do que acontece no outro cômodo. É a função do fotógrafo: destacar um momento específico do panorama geral, algo que só o seu olhar artístico e treinado pode ver. Um quadro carregado de significados, assim como as palavras utilizadas por um poeta.

Jorge de Lima, além de consagrado poeta da segunda fase modernista, aventurou-se pela pintura e pelo romance. Na coletânea poética intitulada Poemas negros, há dois fragmentos da narrativa A mulher obscura.

Zefa lavadeira e O banho das negras representam um narrador relembrando sua infância, quando, camuflado ao lado de um rio, espiava essas mulheres lavando roupa e tomando banho. Como está escondido – pois, se fosse descoberto, sofreria represália de seus pais -, o menino, como se espiasse pelo buraco da fechadura, mira o visor de sua câmera nas curvas dos corpos que são acentuadas pela roupa molhada. Observar é estar e não estar em determinado lugar, diz um dos protagonistas do filme Medianeras. O observador está ali, mas as musas que entram no rio não sabem disso e dão continuidade ao seu ritual.

O que os dois fragmentos narrativos mostram não é simplesmente a descrição de mulheres nuas. A nudez é muito mais sugerida do que escancarada. Em ambas as cenas, há a descrição do contraste da brancura da espuma com a pele negra, dos caminhos percorridos pela pasta branca gerada pelo sabão. O narrador em primeira pessoa relembra quando viu algumas parentes no mesmo ritual. Não é a mesma coisa. As moças banhando-se em meio às pedras do rio, historicamente tão maltratadas pelo chicote das sinhás e dos sinhôs, possuem uma sensualidade pura e natural.

É a criança aprendendo a fotografar (Cortázar) e a recortar pedaços de realidade com o visor da objetiva (Barthes).

Jorge de Lima mostra que, além de poeta, pintor e romancista, também poderia ter sido um excelente fotógrafo. Zefa lavadeira e O banho das negras são um alento para olhos bombardeados por timelines saturadas de imagens sem função poética.

Murilo Reis Autor

Mestrando em Estudos Literários pela Unesp, escreveu o livro de contos "Identidades secretas" (Lamparina Luminosa, 2016). É autor do blog O paralelo (oparaleloblog.wordpress.com). @murilunk