Jovens autores e seus meios de produção na Balada Literária

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A Balada Literária é um dos mais importantes eventos literários da cidade de São Paulo. Capitaneada pelo quixotesco Marcelino Freire – que dá conta quase que sozinho da empreitada – ela tem como objetivo oferecer ao público, sem nenhum custo, debates sobre diversos aspectos da literatura, além de outras atividades culturais como shows, exposições e peças teatrais. Isso tudo na maior informalidade possível, no espírito de uma verdadeira balada. No último dia 20 de novembro, ocorreu uma das mesas do evento, que contou com os jovens escritores Raphael Montes (autor de Suicidas e Dias perfeitos), Clarice Freire (autora de Pó de Lua) e Danilo Leonardi (autor de Por que Indiana, João?). Os três produziram seus textos em formatos diversos antes de chegar aos livros. Essa foi a tônica da mesa, intitulada Sem preconceito: quando os gêneros se encontram. O mediador do debate foi o escritor Santiago Nazarian.

Santiago começa justamente se referindo ao preconceito que pode existir contra esses jovens, que vêm de outros meios e alcançam sucesso rápido, mas lembra que o jovem traz elementos interessantes para a literatura, como um certo frescor, uma certa espontaneidade que ele acredita que se perdem com o tempo. Dirige então a primeira pergunta ao grupo, questionando as razões para migrar de um outro meio para o livro.

Clarice contou um pouco a sua história: filha de um escritor e uma desenhista, diz que reconheceu a escrita e o desenho desde cedo como forma de expressão própria. Formou-se em publicidade (Santiago brinca que ela “tentou ganhar dinheiro com a literatura”) e, em meio a um projeto e outro, escrevia seus poemas, que sempre jogava no lixo. Até que os colegas de trabalho resgataram seus papeis e a impeliram a publicar aquilo. Nasceu então um blog que, rapidamente, alcançou enorme sucesso (a página do Facebook do Pó de Lua tem mais de um milhão e trezentos mil seguidores hoje). A partir dos pedidos dos leitores, ela então transformou seus poemas (que têm um componente imagético muito forte) em livro. Essa composição de imagem e texto, aliás, fez com que sua poesia parecesse a alguns “inclassificável”, o que a agrada profundamente.

Em seguida, Danilo falou um pouco de sua obra, que nasceu a partir de uma necessidade própria de escrever sobre o bullying sofrido nos tempos da escola. Santiago chama a atenção para as referências modernas da obra, como o Youtube ou o Facebook, e pergunta como ele lidou com esses elementos tão específicos de um determinado tempo. Danilo respondeu que generalizou os termos da melhor maneira possível (como ao substituir “Facebook” pelo termo “redes sociais”), mas ressaltou que essas referências não poderiam desaparecer completamente, dado que são elementos que fazem parte do bullying nos tempos atuais e, sem elas, a história não refletiria a vida de um garoto contemporâneo.

Por fim, Raphael conta a sua trajetória: interessava-se pelo teatro, mas percebeu que seus contos faziam algum sucesso na escola. Na faculdade, um amigo pediu para que ele escrevesse um roteiro a ser transformado em filme. Segundo ele, a história não funcionou naquele modelo, mas gerou seu primeiro romance, Suicidas. Para Raphael, sua grande dificuldade não é ter ideias para histórias, mas sim definir qual é o melhor meio para contá-las. Ainda brinca que escrever um roteiro é muito mais difícil, porque para ele se tornar filme, com explosões e perseguições, é preciso muito dinheiro, enquanto que para se tornar um livro, é preciso apenas uma linha.

Assista nosso especial: Romance policial, mercado editorial e entrevista com Raphael Montes

Santiago pergunta então se Clarice não se cobra mais agora, depois de tamanho sucesso, ao que ela responde que, apesar do susto inicial de ver a sua literatura significando tanto para as pessoas – ela diz que se surpreendeu quando uma leitora fotografou a tatuagem que fez de um de seus poemas – ela continua tentando escrever para expressar os seus sentimentos. Diz que prefere as madrugadas (“é quando o mundo se cala e a gente se ouve”) e que fala de tudo, até mesmo de temas duros, mas de uma forma delicada, que considera ser a sua maneira de falar.

Danilo é questionado sobre seu protagonista, que inicialmente seria gay. Ele explica que não queria que a discussão da homossexualidade sobrepujasse a questão do bullying e, por isso, optou por não trabalhar com esse traço em seu personagem. Ao ser questionado também sobre como lidou com a inversão de papeis na sua escrita – Danilo mantém um blog que resenha e avalia livros – ele disse que suas duas facetas convivem tranquilamente.

Raphael, ao ser questionado sobre seu interesse em literatura policial, diz que começou a gostar do gênero quando jovem, mas que sentiu um enorme interesse em produzir uma literatura policial atual. Para o autor, o tema central do gênero policial é a violência, e ele passou a pensar quais seriam as formas da violência no mundo hoje. Leu o que é feito no exterior e achou pouca tradição nessa linha no Brasil. Sugere que a literatura brasileira tem uma tradição bastante experimental – como em Guimarães Rosa ou Clarice Lispector – e que ele sente falta de um pouco mais de foco na história. Tentou, então, equilibrar linguagem e enredo e produzir uma literatura policial nacional. Chama a atenção para o fato de que produzir literatura nacional não significa usar estereótipos como a favela ou o futebol, mas sim pensar como brasileiro, inserido nessa sociedade. Dá o exemplo de um caso visto recentemente no jornal em que uma mulher, quando traída, divulgou a foto da amante do marido no Facebook como uma sequestradora de crianças, levando a um linchamento coletivo da traidora. Reforça que esse é um tipo de violência brasileira muito contemporânea e que isso o interessa. Afirma que o crime é um fato, mas as razões para um crime são as mais inatingíveis e, portanto, matéria interessante para a ficção. Relembra que a violência está em todo o lugar e que é praticada o tempo todo, mesmo em escala menor, como em pequenos atos de preconceito. Por fim, ressalta que a estrutura clássica do policial – crime, investigação, criminoso – pode e deve ser mexida em prol de uma modernização do gênero. Ele brinca que a parte da investigação tem pouco desenvolvimento na sua literatura, considerando que os crimes no Brasil são, em geral, pouco investigados.

Ao final, os três autores ficaram à disposição do público, autografando suas obras e conversando com os leitores, bem na linha do que a Balada Literária busca proporcionar.