Julguei um livro pela capa (e me dei bem!)

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Saiba que escolher um livro pela capa, sem saber nada sobre o livro e o autor, nem sempre pode ser um mau negócio.

“Nunca julgue um livro pela capa” é, talvez, um dos ditados populares mais comuns e utilizados. Principalmente porque seu sentido se estende da esfera literária (apesar das palavras “livro” e “capa”), sendo usado recorrentemente em inúmeras situações. Geralmente está associado a julgar alguém ou algo pela aparência, tomando assim, uma conclusão precipitada. Portanto, o provérbio teria como objetivo uma espécie de combate aos estereótipos. Durante as férias, quis usar a frase a meu favor, mas aplicando-a de forma inversa. Deu certo.

Passei o fim de ano no litoral catarinense. E pela primeira vez me despi de qualquer dispositivo digital para viajar: notebook, celular, tablet, videogame. Levei apenas o Graça Infinita, calhamaço colossal do norteamericano David Foster Wallace – qual, descobriria mais tarde, o tédio do Sol da praia não me deixaria ler nem uma página sequer – e roupas e toalhas de banho. No segundo dia de estadia fui a uma feirinha que acontece nesses tipos de pequenas-cidades-do-litoral e logo encontrei um estande de livros. Tudo por R$ 5,00. Graças à falta de conhecimento de quem precifica essas leituras, vez em quando se acha umas raridades e uns clássicos nas prateleiras. Rejeitei alguns desses, relutante, pois o critério que estabeleci foi: Escolherei o livro com a capa mais bonita.

A ideia consistia em analisar as capas, encontrar a mais atraente e comprar o livro, não importando de quem fosse. O resultado foi um exemplar de O Mundo, de Juan José Millás, publicado aqui no Brasil em 2006 pela Editora Planeta. Nunca tinha ouvido falar no autor nem no livro. Quando cheguei em casa, conferi que se tratava de um escritor e jornalista espanhol de 68 anos, ainda vivo, que inclusive possui uma coluna no El Pais, principal jornal da Espanha. Além de dono de um estilo de escrita inconfundível, Millás é o criador do gênero articuento, que pode ser definido como uma crônica surreal, a realidade e a ficção amarradas em um nó fantástico, impossível de afirmar quem é quem. O Mundo, livro que adquiri, é o apogeu desta técnica.

A composição gráfica não é muito revolucionária, nem a diagramação, mas o livro estampa uma imagem excelentemente escolhida. Dois meninos sentados na rua à frente de uma porta acompanhados de uma bicicleta, o que, após a leitura do livro, pude constatar que foi a melhor forma de representá-lo visualmente. O olhar das crianças conserva a profundidade e a inquietude que as páginas revelam ao longo dos quatro capítulos (o de número 2, chamado “A Rua”, é bárbaro, de sensibilidade digna de uma alma grande).
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Essencialmente narrada na Calle Canillas, localizada em um subúrbio de Madri, na Espanha, o romance conta a história de Juanjo (personagem que representa o próprio Millás). Misturando memórias do passado a filosofias do presente, e até mesmo flertando um pouco com o existencialismo, o escritor aborda acontecimentos tragicômicos de sua vida: as aventuras com o amigo de infância; a onipresença da mãe, de quem nada podia esconder; seu primeiro e desconcertante amor platônico; a rápida carreira na Interpol; e a convivência com o pai, homem distante, interessado apenas em suas pseudo-invenções: como o famoso bisturi elétrico, que, assim como as memórias de Millás, “cauteriza as feridas no mesmo momento em que as produzem”. Além de sua família, alguns personagens ganham importância fundamental para o desenrolar do relato.

VITAMINAS – amigo de Juanjo, diagnosticado com uma doença incurável. A amizade entre os dois é marcada pelas visitas ao porão da casa de Vitaminas, onde os dois meninos assistem uma privilegiada vista da rua através de uma claraboia:

“Um dia, depois de ter ficado olhando a rua do porão da venda de secos e molhados, o Vitaminas me perguntou se eu acreditava que havia mais mortos ou vivos. Disse o que pensava: que os mortos formavam uma espécie de oceano enquanto os vivos somente alcançavam o tamanho de uma poça d’água.”

 

MARIA JOSÉ – Irmã de Vitaminas e amor platônico de Juanjo, mas que o ignora durante toda a infância, voltando a encontrá-lo anos mais tarde, já na idade adulta, quando se torna uma crítica literária:

“Então descobri de súbito que nos apaixonamos pelo habitante secreto da pessoa amada, que a pessoa amada é veículo de outras presenças da qual ela nem sequer é consciente. Por quem teria que estar eu habitado para despertar o desejo de Maria José?”

 

PAI DO VITAMINAS – Pai de Vitaminas, dono de uma venda de secos e molhados e agente disfarçado da Interpol, que conta com a ajuda do filho – e, posteriormente, de Juanjo – para a produção de boletins diários dos acontecimentos da Canillas, atrás de indícios de atividades subversivas (comunistas):

“Usava sempre um guarda-pó muito limpo, com uma camisa branca por baixo. Tinha um bigode fino, de ator americano, que cortava de maneira assimétrica, para produzir a impressão que sorria com um lado do rosto. Deste modo, pelo visto, as pessoas confiavam nele.”

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Entrei nessa sem muitas expectativas, apenas com o objetivo de arrumar algo para entreter – mesmo que fosse uma decepção. No entanto, dei de cara com uma narrativa fluída, gostosa de ler, com questionamentos profundos e sem resposta definitiva (meu tipo preferido de questionamento). 216 páginas bem escritas e que atravessaram minhas defesas contra as autobiografias, deixando a vontade de novas tentativas neste modelo de julgamento. Enquanto tiver dando certo, vou continuar.