Julio Cortázar e a saúde dos doentes

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No conto “A Saúde dos Doentes”, todos mentem – ou recriam uma verdade (?)

Cortázar tranquilo com o próprio fogo/ foto: Ulf Andersen / Getty Images
Foto: Ulf Andersen / Getty Images

Julio Cortázar já dizia que o fantástico “é uma coisa muito simples, que pode acontecer em plena realidade cotidiana… o fantástico pode acontecer sem que haja uma mudança espetacular das coisas.” (Conversas com Cortázar, página 37)

O realismo mágico/fantástico, lá pelas quadras da década de sessenta do século XX, atingia o seu auge na América Latina. É nesse contexto que Cortázar publica, em 1966, Todos os fogos o fogo. O livro é composto por 8 contos e, nessas narrativas do cotidiano, o fantástico se faz sentir; ele irrompe as ações e chega, aos personagens e ao leitor, de maneira quase imperceptível, por via da intuição.

As histórias são: A Auto-estrada do sul; A saúde dos doentes; Reunião, Senhorita Cora; A ilha ao meio-dia; Instruções a John Howell; Todos os fogos o fogo e O outro céu. Todas as narrativas beiram a perfeição, seja pela estrutura, seja pela criatividade. Aqui no meu texto, comentarei apenas uma: A saúde dos doentes. O conto, uma farsa familiar, centra-se numa mãe enferma, rodeada por seus filhos, irmãos, cunhadas e alguns amigos, isto é, de Carlos, Rosa, Pepa, Clélia, Alejandro, Tio Roque, Maria Laura e Bonifaz.

A família, devido à saúde frágil da matriarca, oculta dessa senhora a morte de seu filho Alejandro. Eles inventam que o rapaz, a convite de uma empresa de engenharia, fora trabalhar no Recife, Brasil.

“Já fazia quase um ano do desastre, mas era sempre como se fosse o primeiro dia para os irmãos e os tios. Era assim para todos menos para mamãe, para ela Alejandro estava no Brasil onde uma firma de Recife lhe encomendara a instalação de uma fábrica de cimento.” (página 46)

Todos tramam uma mentira ou, se preferirem, recriam uma verdade para essa mãe. Eles agem como se Alejandro estivesse vivo. A ausência física do filho é substituída por cartas; textos que os integrantes da casa se esmeram em elaborar, tecendo uma nova vida para Alejandro, mantendo assim a mãe distante da dor insuportável de saber seu filho morto.

“[…] um dia chegou a primeira carta de Alejandro (mamãe havia reclamado o silêncio dele já por duas vezes) e Carlos leu ao pé da cama. Alejandro adorara Recife, falava do porto, dos vendedores de papagaios e do sabor dos refrescos, a família ficava com água na boca quando tomava conhecimento que os abacaxis eram de graça, que o café era de verdade e tão cheiroso…” (página 49)

A mãe responde a essas cartas. Pergunta pela saúde do filho, pelo serviço e, principalmente, cobra uma visita de Alejandro. Tal situação leva os familiares, cada vez mais, a se emaranharem nesse novelo.

O problema se agrava quando tia Clélia, irmã da matriarca, também adoece. A partir desse momento, começa mais uma enxurrada de fabulações. A família inventa que a tia fora passar uns dias com uma amiga, para pegar novos ares. Tia Clélia, muito mal de saúde, acaba falecendo, o que só piora o arsenal de desculpas que os familiares precisam inventar.

O interessante deste conto é que essa mãe, de aparente fragilidade, conduz todas as ações dos demais personagens. Ela determina a movimentação de todos. Quando se lê a história, ficam os questionamentos: quem é, de fato, doente? Quem, realmente, é mais frágil? Todos vivem o mundo dessa mãe, todos ocupam o pequeno espaço do quarto, lugar do qual a mãe nunca sai. Todos estão, nem que seja por poucos instantes, à sua volta. Sobre essa relação familiar de A saúde dos doentes, a escritora Sandra Fischer comenta:

“ […] centrada na própria enunciação enunciada, a escritura de A saúde dos doentes se auto-representa, quase que iconicamente, tematizando num movimento circular – o qual, metaforicamente, remete à redondeza uterina que parece envolver os participantes da trama…” (página 95)

Para quem lê o conto, essa convivência faz pensar numa relação de extremo amor por uma mãe, misturada com uma situação de submissão. Seja por amor, por submissão, ou ambos, os parentes e os amigos mais próximos insistem nesse elo até o momento derradeiro da matriarca. No fim, fica explícito que essas verdades inventadas, por mais que, às vezes, lhes parecessem cruéis, também lhes atenuava uma dor, também lhes proporcionava a possibilidade de recriar uma verdade mais suportável.

“Três dias depois do enterro chegou a última carta de Alejandro, na qual, como sempre, perguntava pela saúde de mamãe e de tia Clélia. Rosa, que a recebera, abriu-a e começou a lê-la sem pensar e, quando levantou os olhos, porque de repente as lágrimas a cegavam, percebeu que enquanto lia a carta estivera pensando de que forma haveriam de dar a Alejandro a notícia da morte de mamãe.” ( página 65)

Certamente, Todos os fogos o fogo não é o livro mais conhecido de Cortázar, mas merece ser mencionado devido à sua poética singular e sua linguagem precisamente construída. O autor, nesta obra, está profundamente voltado às relações humanas, ao afeto, seduzindo e envolvendo o leitor de maneira singular. Todos os fogos o fogo é uma obra-prima.

 

Referências:
BERMEJO, Ernesto. Conversas com Cortázar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2002.

CORTÁZAR, Julio. Todos os Fogos o Fogo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira ed., 2002.

FISCHER, Sandra. Clausura e Compartilhamento – a representação da família no cinema de Saura e Almodóvar. São Paulo: Annablume ed., 2006.