A juventude mitológica de Murilo Mendes

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A idade do Serrote é um delicioso livro de memórias que não destoa da linguagem onírica que consagrou Murilo Mendes como poeta surrealista

murilo-mendes-1Murilo Mendes possui um assento modesto no panteão da literatura brasileira, mas bem modesto mesmo. Daqueles que foram esquecidos até pelas pichações e profanações afins.

Para muitos ele é apenas o autor da paródia mais conhecida da Canção do Exílio (“Minha terra tem macieiras da Califórnia/onde cantam gaturamos de Veneza”), geralmente tomada como ícone da irreverência dos primeiros momentos do modernismo tupiniquim.

Na contramão dessa visão que reduz uma obra tão rica e divertida a alguns poucos versos, propomos contemplar aqui um título pertencente à sua fase madura e que pode ser um bom convite a todos aqueles que não foram apresentados ainda ao mundo desse pacato mineiro de Juiz de Fora: A Idade do Serrote.

Escrito entre 1965 e 1966 (enquanto lecionava a disciplina Cultura Brasileira na Universidade de Roma) e publicado em 1968, A Idade do Serrote é um delicioso livro de memórias que não destoa da linguagem onírica que consagrou Murilo Mendes como poeta surrealista. Antes ele já havia se aventurado na prosa com os aforismos de Discípulo de Emaús, sendo que muitos dos temas abordados nesse livro de 1945 são desenvolvidos melhor aqui, como a questão do tempo, o espaço, o amor e Deus.

Já no primeiro capítulo, frases curtas compõem cenas ligeiras, quase como uma prévia da infância incomum do poeta em sua querida cidade-natal. Seus pais são o primeiro casal numa versão levemente modificada do Genêsis na qual Eva falece tempo depois de dar à luz. Etelvina, a ama-de-leite,  apresenta-o  ao subversivo brinquedo dos deuses que lhe foi confiado por Prometeus. Com Isidoro da Flauta tenta segurar o som, mas é distraído por um incêndio num morro próximo.

Todos têm algo a ensinar ao rebento de Elisa e Onofre, até mesmo o doido Tio Chicó, que planta feijões de todas as cores no assoalho da casa. Até mesmo o Tio Lucas, que curava pessoas no seu barco-consultório-biblioteca, e o leão “amnésico e vegetariano” que atendia no circo pelo nome de Marruzko.

Como toda história de formação, essa também tem seus personagens que não oferecem boas lições. É o caso do advogado e boêmio Amanajós, “o tenor da cachaça”, que abala os ânimos de todos os moradores da cidade com seu revólver fumegante. Quem também se enquadra nesse rol é o galo “napoleônico” que tiranizava o quintal e em cuja deposição Murilo teve uma participação crucial.

Um capítulo à parte são as paixões juvenis. A prima Carmen “martelava os sentidos”, marcando-o com seus “dentes voluntariosos”, mas foi para o exterior deixando como lembrança apenas a cicatriz no braço do amante secreto. Com Teresa, órfã adotada por uma de suas primas, veio o namoro público antes de ser enviado para completar seus estudos na capital federal em 1920. Anos depois, Mendes descobriria que uma vez vítima de um noivado rompido, Teresa se atirou no rio Paraibuna sendo tragada pelas águas.

Embora não tenha confrontado ambas no decorrer do livro, uma comparação se insinua diante de suas impressões sobre estas mulheres tão diferentes. Carmen deixava-o ao mesmo tempo excitado e desconfortável com sua atitude voraz, revelada somente longe dos olhos da “sociedade”, enquanto Teresa, sempre afável, permitia que ele improvisasse mil papéis, de audaz cavalheiro a malandro adorável. Do saldo de tais experiências se destacaria uma conclusão transformada em aforismo anos mais tarde: “o homem é um ser eminentemente teatral”. Portanto, o amor, apesar de embasado em sentimentos puros, só se desenvolve com o jogo de cena.

A grande exceção da regra no mundo em que Murilo cresceu talvez tenha sido Cláudia, sua professora de piano. Serena e pensativa, ela conservava-se misteriosa sem o menor esforço cênico. Surpreendentemente compartilhava de ideias que o menino Murilo julgava questionáveis, mas que posteriormente seriam abraçadas pelo poeta Murilo. A principal delas era a sensação de que o tempo era uma realidade embaralhada.

Na conversa com os amigos de escola, a dificuldade de classificar Cláudia tornava-se patente. Princesa? Não, ela tinha “olhos de moça próxima”. Mesmo consagrado como poeta era difícil explicar aquela definição tão pontual dada anos atrás. Cláudia era um mito novo, nem Eva, nem Górgona, nem Capitu.

Através de Cláudia descobrimos o ambicioso projeto lírico de Murilo Mendes: a “mitização da vida cotidiana”, ou seja, a reinvenção do comezinho. O que ele propõe não é construir uma dimensão oposta à realidade ordinária, mas expandi-la utilizando elementos que tingem a trajetória de um menino numa pacata cidade interiorana com tons quase épicos.

Na origem da argamassa utilizada pelo autor está a Bíblia, a mitologia greco-romana e, principalmente, aquilo que Jack Keroauc chamou de “o armazém universal”, a literatura. Assim, temos Etelvina-Prometeus que apresenta o fogo aos mortais enquanto as gêmeas Florinda e Florentina, que chocaram a cidade com sua rivalidade amorosa, reencenam Esaú e Jacó de Machado de Assis.

Ao final de A Idade do Serrote fica evidente que os fatos arrolados até então, por mais aleatórios que possam parecer, descrevem o processo de tomada de consciência da necessidade de “aprender a brincar” com a realidade. Em outras palavras, ele utiliza seu método “mítico” ou “surrealista” para explicar sua adoção. Se muitos biógrafos creditam à passagem do cometa Hailey pelos céus o mérito de ter despertado Mendes para a poesia, o próprio procura demonstrar que circunstâncias anteriores ao acontecimento ajudaram a gestar o interesse pela beleza das palavras.

Dono de uma narração sinestésica, capaz de fundir traços cinematográficos e musicais nos breves capítulos de A Idade do Serrote, Murilo Mendes oferece em seu livro mais que uma autobiografia ou que um romance de formação. Ele oferta uma verdadeira ode à fabulação.