Kafka e o abandono como ato de amor

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Ilustração de Kafka | Via Pinterest

Para que possamos compreender algo, é necessário conhecer bem esse algo – afinal, o que levou esse algo a ser o que é hoje? – essa foi a experiência à qual me propus no último sábado. Um grande mestre afirmou que a culpa que os personagens de Kafka sentiam os induzia à situação que transportava essa culpa – restrita ao universo psicológico – para o mundo real. Em outras palavras, a culpa por algo que geraria uma não-aceitação de determinado personagem, por exemplo, o levava de fato a não ser aceito. A fala desse professor não poderia ter vindo em momento mais oportuno.

“Quer saber?”, pensei, “Vou ler um livro desse sujeito.” Acredito que a literatura afeta de maneira significativa a nossa visão de mundo. Portanto fui à biblioteca, peguei um exemplar de A metamorfose, uma novela de mais ou menos oitenta e cinco páginas e li em poucas horas, tamanha minha fome por certas respostas.

Trata-se da história de Gregor Samsa que, certa manhã “acordou de sonhos intranquilos, (…) metamorfoseado num inseto monstruoso.” A partir daquele momento, sua vida e a das pessoas que lhe eram próximas mudaria de maneira radical (não é pra menos!). Vilto Reis fez uma breve síntese da obra e direcionou seu olhar para a crítica que Kafka fez à estrutura social no quesito família e profissão em Resenha: A metamorfose – Franz Kafka ; já Priscila Yamany direcionou sua visão para o estilo kafkiano em Um pouco sobre Kafka e sua chatice; e por fim, Helena Bessa direcionou seu foco ao tipo de valor que nos constitui, destacando a crítica de Kafka que, ao perdermos a capacidade de servir, perdemos o valor para a sociedade em Gregor Samsa: uma reflexão sobre o homem moderno. Meu olhar será diferente. Será por um território que eu conheço, ou para ser menos pretensiosa, procuro conhecer. O território das emoções.

Os admiradores de Kafka que me perdoem, mas eu fiquei a história inteira torcendo para que, por algum milagre ou por acaso mesmo, aquela situação fosse revertida. Assim como Gregor acordou metamorfoseado, poderia acordar no dia seguinte em seu estado normal. Por que não? A verdade é que durante o tempo em que me dediquei a essa leitura, permiti que um abismo enorme se formasse dentro de mim e assim, experimentei um vazio como poucas vezes senti. Obviamente não posso rotular um autor por uma única obra, mas creio que foi o suficiente para ter uma base sobre os pensamentos de Kafka. Fiquei satisfeita, pois encontrei as respostas que procurava.

Mário Quintana diz que os autores nos vestem uma verdade que está nua dentro de nós. Ora, se você for mulher, compreenderá melhor quando eu digo que, se decidimos usar um vestido, vamos em busca de um vestido; se decidimos usar calça jeans e camiseta, vamos em busca de calça jeans e camiseta! Quando se trata de decisões, não existe tanto faz. Está certo que nos propomos a diversificar nosso repertório literário, mas falo daquele tipo de livro (e/ou autor) – o nosso queridinho – como a verdade que iremos vestir. Costumo dizer que nós, românticos, sofremos. Sofremos porque acreditamos demais. Mas o fato é que os pessimistas sofrem muito mais. Sofrem porque não têm algo em que acreditar.

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Não estou menosprezando quem lê Kafka, muito pelo contrário, ele é um excelente autor – conseguiu me envolver sobremaneira. Mas ele me apresenta um tipo de verdade que eu prefiro apenas admirar (?) de longe; jamais vestir.

Você leu o título desse texto e provavelmente se perguntou: como o abandono pode ser um ato de amor? Gregor “recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã.” Ele percebeu que estava sendo um fardo para aqueles que amava e então decidiu partir. Às vezes o amor se manifesta dessa maneira: partida.

Hoje eu fui aquele inseto repulsivo e, “… sem intervenção da [minha] vontade, [minha] cabeça afundou completamente e das [minhas] ventas fluiu fraco [meu] último fôlego.” Parti. Amei. Simplesmente…

A Metamorfose
Franz Kafka
Editora Brasiliense