Musashi, leitura que abre a mente ou a sabedoria oriental

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Quem me acompanha por aqui sabe que bebo com frequência na literatura oriental. De forma alguma, pretendo desvalorizar nossa literatura com o objetivo de valorizar a deles. Cada uma tem o seu valor; e esta é a razão de eu não descartar este tempero oriental em meu cardápio literário.

Agora, ao ponto. Tempos atrás, enquanto lia um grande clássico recente da literatura japonesa, Musashi, de Eiji Yoshikawa, deparei-me com o trecho abaixo. Para a contextualização, a fala é do monge Takuan, numa espécie de punição ao jovem de espírito selvagem, Takeda, protagonista do livro. Ao encerrar-lhe numa torre onde passaria três anos, Takuan disse:

“— Leia tudo o que lhe for possível. Diz-se que certo renomado monge chinês encerrava-se periodicamente numa enorme biblioteca e lia milhares de livros. E a cada vez que de lá saía, diz a lenda, aos poucos seus olhos espirituais se abriam. Quanto a você, encerrado neste escuro recinto, considere-se dentro do ventre materno, preparando-se para o nascimento. Aos olhos da carne, este recinto nada mais é que um escuro quarto selado. No entanto, olhe com atenção e medite: a sala está repleta de luz, luz que todos os tipos de sábios da China e do Japão ofereceram à civilização. Tanto poderá viver enclausurado num escuro quarto selado, ou passar os dias numa sala cheia de luz — a escolha é sua e cabe ao seu espírito decidir”.

Sempre me pergunto se a leitura pode tirar alguém da ignorância. Refiro-me, claro, à leitura de ficção. Vejam bem, o que é o ato da leitura de um romance, apenas para exemplificar? Mais ainda, o quanto esta leitura pode modificar este sujeito? Em minha concepção, nada. Não acredito que a leitura em si possa modificar alguém.

Penso que o que modifica o leitor é o que ele faz com a leitura.

Quando Takuan encerra o jovem Takeda, que depois viria a se tornar Musashi, ressalta que ele tem uma escolha: “Tanto poderá viver enclausurado num escuro quarto selado, ou passar os dias numa sala cheia de luz”. Alguém pode ler mil livros e continuar ignorante, enquanto outra pessoa lê apenas um e se tornar um sábio. Não é o que o livro faz com você, mas aquilo que você faz a partir do livro. Tenho a sensação que foge a muita gente esta percepção ativa do leitor.

Neste contexto é engraçado algo que acontece comigo. Embora sem alarde por aqui, às vezes ganha-se no silêncio, fechei há poucos dias uma coletânea de contos, mas não é sobre ela como um todo que desejo falar; e sim da primeira narrativa do livro. Ela já foi lida por alguns amigos, contudo as respostas me surpreendem. Em minha concepção, escrevi uma história sobre um homem que teme ser pai, porém meus “leitores betas”, quando questionados sobre o que acharam, ressaltam ser uma ótima história sobre amizade. Por que acho pertinente citar isto? Simples, para mostrar que quando o autor entrega o texto, a história passa a pertencer ao leitor.

Uma história é como uma paisagem, cada um pode absorver o que quiser dela. Talvez alguém simplesmente passe incólume por ela, ou, se mais sábio, colhe flores de compreensão. Como disse Takuan: “…cabe ao seu espírito decidir”.