‘A arte da quarentena para principiantes’, de Christian Dunker

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Leituras da Pandemia: Como lidar com a quarentena e o distanciamento trazido pela nova ética imposta pela pandemia? 

meteoweb.eu

O mundo não está sofrendo a sua primeira pandemia, e talvez também não a última. Embora as memórias da peste negra, da varíola, da gripe espanhola (que veio do Kansas) e de tantas outras Influenzas, seja algo quase inexistente. Toda essa experiência parece não ter sido levada a sério pelos países, Estados e empresas, e hoje temos um exército de principiantes, que precisam entender e apreender o que se pode chamar ‘a arte da quarentena’.

O professor Christian Dunker, livre docente do Instituto de Psicologia da USP, desenvolve em A arte da quarentena para principiantes, livro digital lançado pela Boitempo Editorial, dez ensaios que relacionam a pandemia do COVID-19 com os aspectos contemporâneos e urgentes de nossa sociedade.

Quando não existem sentidos 

Em uma exposição clara e objetiva, Dunker reflete o distanciamento social ao qual estamos submetidos e escancara questões anteriores que há muito testavam os limites de nossa convivência em sociedade e nossa relação com os outros, colocando em xeque a fragilidade do Estado e de cada um de nós.

E nesse cenário de fragilidades, expõe nossos costumes de darmos sentidos às coisas, mesmo que elas não o possuam, e o fato de nos atemorizarmos diante daquilo que demora para fazer sentido e, muitas vezes, sequer pode ter um, que é justamente a reação generalizada diante da pandemia:

“(…) desde sempre transformamos o medo de algo que vem de fora na angústia indefinida de um pavor que vem de dentro. Tendemos a moralizar eventos naturais que escapam ao nosso controle, depositando neles um sentido que não possuem. É assim que a experiência de adoecer e entrar nesta espécie de intervalo ou parênteses da vida, pode tornar-se uma experiência de culpa e desamparo” 

Sem abandonar a robustez de sua formação em Psicologia, o autor discute os efeitos mentais que a pandemia pode provocar e que se somam a nosso histórico quadro de condições pré-existentes, para além das ditas ‘comorbidades físicas’, como os altos índices de suicídio, medicação massiva e insuficiência de recursos humanos e aparatos técnicos, bem como as consequências da ignorância de que bens culturais, a arte e o diálogo, são alicerces para garantir nossa saúde metal:

“Esse é o desserviço dos que imaginam que teatro, literatura, cinema e dança são apenas entretenimento ideológico e acessório – como se a ampliação e a diversidade de nossa experiência cultural não fossem essenciais para desenvolver capacidade de escuta e habilidades protetivas em saúde mental. Como se eles não nos ensinassem como sofrer e, reciprocamente, como tratar o sofrimento no contexto coletivo e individual do cuidado de si” 

 

Um pouco sobre necropolítica

O termo ‘necropolítica’ diz respeito ao entendimento de que as relações de poder estão baseadas na ideia de ‘autonomia’ sobre uma coletividade fragilizada, de modo que a política possa legitimar o direito de decidir quem vive e quem morre. O conceito foi proposto incialmente pelo o filósofo camaronês Achille Mbembe, que ensina:

“(…) a expressão máxima da soberania reside, em grande medida, no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania é exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implantação e manifestação de poder.”

Quando se fala em necropolítica, com razão, a primeira imagem que nos vem à cabeça é a miséria, a violência urbana, os regimes nazi-fascistas e os absurdos do totalitarismo. No entanto, a ‘política da morte’, não apenas se mostra nos grandes regimes autoritários.

O Estado também mata, e com frequência, cada vez que nega condições sanitárias às populações periféricas, ou que precariza as condições de trabalho, ou quando propaga tratamentos milagrosos à base de medicamentos sem eficácia comprovada. Também faz isso a cada vez que abusa da fé vendendo falsas curas, ou que convoca manifestações políticas em tempos de necessário distanciamento, ou mesmo quando se dificulta o acesso à cultura, ao ‘auxílio emergencial’, às condições propícias para isolamento e precaução, ao serviço de assistência médica pública e de qualidade.

A necropolítica encontrou terreno fértil em tempos de pandemia.

Uma mensagem para principiantes

A mensagem que A arte da quarentena para principiantes nos deixa é de que, apesar de toda confusão que enfrentamos e ainda enfrentaremos, o que nos resta é a solidariedade, capacidade de olhar para nossos semelhantes e compreender que estamos juntos, mesmo que à distância, unidos para superar medo, contestar as esferas de poder e cuidar de nossa saúde mental, nas palavras de Dunker:

“Não subestime nem superestime o medo. Siga todas as recomendações de isolamento social e cuidados com higiene e limpeza, mas não se deixe dominar pela solidão. Respeite seu medo, mas não o deixe se transformar em angústia e desespero. Fique em casa, consigo e com os outros que também estão passando por isso junto com você, ainda que à distância (…) Se ainda assim sobrar alguma energia, agradeça à ciência, às universidades, ao SUS (sistema Único de Saúde) e a todos os médicos, jornalistas, políticos e cuidadores que estão fazendo o possível nessa situação” 

 

 

REFERÊNCIAS

DUNKER, Christian Ingo Lenz. A arte da quarentena para principiantes. São Paulo: Boitempo, 2020.

MBEMBE, Achille. “Necropolítica”. Arte & Ensaios, PPGAV, EBA, UFRJ, n.32, dez. 2016.