A curiosidade de Leonardo Da Vinci e a modernidade anestesiada

Leonardo da Vinci foi, sem dúvida, uma personalidade de destaque na história da humanidade, desenvolvendo estudos e contribuindo com o progresso de inúmeras áreas do conhecimento.

Anatomia, Engenharia e Ótica são apenas alguns itens de sua extensa lista de interesses, além da própria Pintura, trabalho através do qual se tornou mais conhecido graças a obras que foram imortalizadas, como a Mona Lisa.

Embora fosse realmente um indivíduo de inteligência notável, através dos séculos construímos sua imagem como de um semideus ou artista inalcançável sem refletimos sobre o motivo pelo qual este homem, nascido como muitos outros na cidade de Anchiano, na comuna de Vinci, na Itália do século XV, alcançou feitos tão grandiosos; o que acontece é que toda a genialidade e as ideias de Leonardo nasceram em uma capacidade que é garantida de fábrica a todos os seres humanos: a curiosidade.

 

O livro Leonardo da Vinci, de Walter Isaacson

Em 17 de outubro de 2017, o jornalista americano Walter Isaacson, conhecido biógrafo de personagens como Benjamin Franklin, Albert Einstein e Steve Jobs publicou seu mais recente trabalho de investigação: Leonardo da Vinci.

Em 634 páginas, o autor disseca todos os momentos importantes e não importantes da vida pessoal, interesses, trabalhos realizados e abandonados, lugares frequentados e pessoas de destaque que fizeram parte dos 67 anos em que Leonardo esteve entre nós.

Adquiri o livro, pois sou um entusiasta de biografias e também do próprio Da Vinci, e, apesar de ter me deliciado com tantas informações interessantes, o que mais me chamou a atenção durante a famosa ressaca literária pós-leitura foi o que dá nome a este texto: a curiosidade insaciável que acompanhou esse italiano renascentista durante cada dia de sua vida.

 

A curiosidade de Leonardo da Vinci

Leonardo não tinha limites: interessava-se por botânica, por biologia, por anatomia, pelas belas artes, por engenharia, por matemática; das coisas mais debatidas em sua época, como a astronomia e as ciências, até as coisas consideradas mais banais, como a forma de comunicação dos pica-paus ou a velocidade do voo de um inseto. Seja para melhorar suas técnicas de pintura, seja pela simples curiosidade de saber como alguma coisa funciona, Da Vinci foi um pesquisador em tempo-integral de quase tudo que existia, do tipo que não consegue dormir se não compreender exatamente o porquê das coisas.

E foi nesse momento que uma pergunta surgiu em minha mente, cinco séculos depois:

Por que não somos mais curiosos sobre nada?

Será que a culpa é do ritmo cada vez mais crescente de nossas rotinas? Ou será que estamos anestesiados com tantas informações disponíveis e despejadas de uma só vez, e não sabemos mais apreciar em detalhes fenômenos pequenos que acontecem a nossa volta o tempo todo?

“[…] Conforme você andar pela cidade, observe constantemente, faça anotações e analise as circunstâncias e o comportamento dos homens enquanto eles discutem, ou riem, ou partem para as vias de fato […]” (p. 127), escreveu Isaacson citando uma anotação do próprio Leonardo em seus cadernos sobre a necessidade de saber coisas e sua habilidade superdesenvolvida de observação, um traço encontrado em muitos personagens presentes na cultura pop e na literatura, como o Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle ou o Detetive Dupin de Edgar Allan Poe.

Naturalmente, o contexto e os tempos que vivemos não permitem que gastemos grandes quantidades de tempo apenas observando o mundo, mas por que é tão difícil para o Homem do século XXI parar e simplesmente prestar atenção? Existimos em um grande borrão de movimento, seja do passo, do carro ou do ônibus, e nunca temos imagens nítidas do que nossos olhos ou câmeras de celular registram.

A curiosidade é um traço específico da nossa espécie, que foi responsável por sairmos das cavernas, das florestas, pela criação da Ciência e da investigação; a curiosidade é o que nos define e o que impede que sejamos devorados pela inércia.

Ao chegar ao final desse texto, deixo para o leitor um desafio: feche o seu dispositivo, saia lá fora, olhe ao seu redor e seja Leonardo da Vinci.

Everton Missiagia Autor

Um solitário estudante de Jornalismo, entusiasta da Literatura e amante da palavra escrita.