Ler Neuromancer vai destruir seu cérebro (e vai ser bem legal)

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Publicado em 1984, Neuromancer traz discussões e previsões terrivelmente reais para o século XXI

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Neuromancer não é um livro fácil. Isto tem que ficar claro antes de se comentar qualquer aspecto do romance. William Gibson criou um romance ambicioso, por vezes ultracomplexo, cheio de detalhes e informações que, para quem não é fã ou nunca leu sci-fi, podem ser uma barreira.

Mas vamos ao enredo.

Case é um cowboy cibernético, uma espécie hacker que é contratado para roubar dados e segredos na matrix. A matrix seria uma plataforma nos moldes do que hoje é a internet com a diferença de que nela podemos literalmente adentrar fisicamente. No entanto, Case tentou passar a perna em algumas pessoas e sofreu sua pena: foi aplicado um processo que corrompeu qualquer possibilidade de adentrar na matrix novamente. Assim, ele vive num Japão degradado, vivendo de pequenos golpes e se drogando a maior parte do tempo.

Aqui Neuromancer começa.

Contactado por Molly, uma ninja modificada com unhas de aço e olhos de vidro como um google glass, Case é contratado para fazer parte de mais um grupo a serviço de Armitage. Os fins e os objetivos desse processo não ficam claro a maior parte do romance, muito menos quem é de fato Armitage, para quem ele trabalha e aonde vamos chegar com tudo isso. Case passa por um processo que o permite entrar outra vez na matrix e ganha um fígado novo e começa a sua aventura.

O mundo criado em Neuromancer é um clássico mundo cyberpunk: tecnologia avançada, relações sociais do mais baixo nível. Sendo o romance inaugural do subgênero, fica difícil de acreditar como um romance publicado em 1984 (sem piadas) conseguiu ser tão influente ao mesmo tempo em que previu com exatidão tantos fatos sobre a tecnologia e a internet com quinze anos de antecedência. A ideia de uma plataforma de troca de informação, o capitalismo agressivo por esta informação, o mundo e submundo de empresas tão grandes que não é possível determinar seu começo e fim, tudo está descrito em seus mínimos e contraditórios detalhes.

Além disso, se você leu com atenção quatro parágrafos acima, notará que citação da matrix. Não por acaso, este romance foi a base para os irmãos Wachowskis para o filme de mesmo nome. A ideia de inteligência artificial, seus limites e perigos pode parecer novidade no maravilhoso filme 1999, mas sua base inteira tinha sido proposta em Neuromancer quinze anos antes.

Outro ponto importante está na figura do próprio protagonista, o cowboy Case. A escolha do termo para descrever a atividade dele não se mostra gratuita. Case pertence ao arquétipo do anti-herói do começo ao fim. Ele é um degradado ambicioso, traiçoeiro e difícil de se amar. Durante toda a narrativa, conforme avançamos na confusão de fatos que se sucedem, não há brechas para uma identificação completa com ele. Não por acaso seu modelo lembra em vários momentos os anti-heróis dos filmes de faroeste, principalmente os revisionistas e spaghetti westerns, no qual os protagonistas são seres de moral duvidosa na maior parte do tempo. Mesmo nas cenas de ação, alguns clichês do gênero são perceptíveis caso você faça mais atenção – ou entenda o que se passa.

Neuromancer (Aleph, 2016)

Há muitas grandes sacadas em Neuromancer: misturar este faroeste num mundo altamente tecnológico, as discussões muito a frente do seu tempo, a projeção do que viria a ser realidade só no século XXI (ou ainda não se tornou, mas está em vias de).

No entanto, este não é um romance para todos. Espera-se que o leitor tenha um certo aporte do gênero e paciência. O romance está repleto de gírias que podem dificultar a leitura. Felizmente, a edição mais recente da Editora Aleph traz um glossário. O ritmo e os cortes também podem te deixar desnorteado, mesmo confuso e fazer com que você se sinta totalmente fora do lugar. Esta é exatamente a sensação que William Gibson deseja ao escrever o romance. Mesmo sendo narrado em terceira pessoa, temos apenas a perspectiva de Case – e sendo ela confusa por conta das inúmeras trocas do mundo real para a matrix e dos entorpecentes, fica fácil de se perder neste labirinto.

Enfim, Neuromancer se torna um tipo de romance que terminada a primeira leitura fará com que você pense um bom bocado e depois retorne à trama uma segunda e quem sabe uma terceira para entender e apreciar os pequenos detalhes e discussões propostas nesse amalgama sci-fi. Não há nada mais desafiador e fascinante dentro do gênero que este romance.