Ler nos faz mais inteligentes? Pense duas vezes

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Você acredita que ato de ler ou que a literatura podem fazer uma pessoa mais inteligente por si sós?

tumblr_m3tjnnFWeo1qfgwwmo1_1280Há vários mitos que o século XXI tem a obrigação de desconstruir, um deles, muito antigo, um dos doxas (verdades) mais antigas e inquestionáveis, é o fato de que quem lê se torna uma pessoa mais inteligente. É o clichê mais comum ouvir frases prontas do tipo: “ler acrescenta a vida” ou “leitura nos põe em contato com o conhecimento” ou ainda “livros ajudam a pensar” (a feira do livro de Porto Alegre emplacou este na edição 2015). Podemos dizer que elas são frases quase corretas.

Quase.

Para tentar explicar o porquê ler (e a cultura e o conhecimento advindo do ato) nem sempre levam a algo bom, vou usar um exemplo histórico primário, outro secundário e por fim tentar mostrar que nem sempre é isso que funciona.

A Alemanha ainda é hoje um dos países mais intelectualizados da Europa e do Mundo. Terra de Goethe, Schiller, Lessing, Hermann Hesse, Thomas Mann, Henrich Böll, Günter Grass, Leibnez, Kant, Hegel, Nietzsche, Frege, Heiddeger, Adorno, Walter Benjamin (para ficarmos nos principais escritores, filósofos e pensadores). No começo do século XX, entrou na Primeira Guerra Mundial, saiu derrotada e deu lugar ao teatro da maior barbárie moderna: o nazismo. Uma população muito culta, adepta da leitura, com um número impressionante de livros per capta foi capaz de aceitar respostas simples para questões como por que a Alemanha perdeu a guerra (judeus), ou como podemos reestruturar uma grande nação (matando judeus em campos de concentração), ou ainda de que maneira fazer a economia crescer (trabalho escravo de judeus). Mesmo entre os membros do Reich, o hábito de ler era fetichizado ao ponto de Adolf Hitler, por exemplo, possuir uma biblioteca com cerca de 30.000 volumes. Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, ex-estudante de Literatura, admitia sua admiração por Theodor Fontane. (há outros exemplos, mas o wikipedia pode te apresentar tais)

Mesmo assim, o Reich fez queimas públicas de livros além das já citadas atrocidades acima. Onde estava a inteligência da população, adquirida com uma próspera vida enquanto leitores?

Outro exemplo.

Stalin, contemporâneo de Hitler, criou uma máquina política que ainda hoje afeta a Rússia. Foi um capaz de matar muitos companheiros. Por outro lado, nutria um amor indescritível pela Literatura. Não mandou matar Boris Pasternak, nobel de Literatura, pois este traduzia as obras de terra natal dele, Georgia. Era admirador confesso de Balzac, Jorge Amado (não muito de Zola, entretanto). Nada disso o impediu de matar com a força política tantos outros.

Aqui chegamos ao ponto: literatura nos torna mais inteligentes?

Sim e não. Sim, ela nos dá possibilidades de dialogar com seres humanos e com suas ideias. Podemos aprender com os sistemas filosóficos de Platão, as peças de Shakespeare, os romances de Machado de Assis etc. No entanto, e aqui chegamos ao ponto, os livros e a leitura não são o fim, antes o contrário. Ela é, a melhor das hipóteses, um caminho, uma ferramenta. O livro, a cultura e as ideias de um texto estão mortas caso você as leia e as esqueça. Deve-se praticá-las, entendê-las, refutá-las. Deve-se, acima de tudo, não ser passivo ou compassivo com o que se lê. Nem tudo que é escrito merece respeito. Discordar de um ponto de vista também não é desrespeito, é sim pôr o melhor que um leitor tem a oferecer na prática (o diálogo com a obra escrita).

Assim chegamos aos exemplos históricos acima. Ler é bom, pode ser todos os clichês supracitados, mas precisa também ser crítico. Nenhum dos autores citados, que mudaram de alguma forma suas respectivas áreas e épocas, foi complacente com o que via. Assim, não ache que somente a leitura vai te mudar. O processo não funciona de fora para dentro, antes de dentro para fora. Não seja passivo e espere que os cinquenta livros lidos no último ano façam algo por ti.

Para finalizar, um pensamento simples e aterrador: Santo Agostinho, um dos doutores da Igreja, deve ter lido muito menos que alguém com mestrado hoje. No entanto, com o que hoje seria considerado pouca leitura, foi capaz de sistema de pensamento complexo e influente em pleno século XXI. Os outros são apenas pessoas com mestrado.