Lessing, Woolf, Beauvoir e Nïn – A literatura feminista

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Doris Lessing

É preciso, primeiro, falar de Doris Lessing. Autora que faleceu no início desse mês, com 94 anos, em Londres. A relevância e pluralidade de sua obra, a estabeleceram como uma das mais importantes do século XX. Multifacetada, foi vencedora Prêmio Nobel de Literatura de 2007. Em seu histórico constam romances, ficções científicas, peças teatrais, poemas, biografias, artigos e ensaios.

Sua literatura engajada elegeu temas como a crítica ao poder, a desigualdade, o preconceito racial. Mais que isso, Doris traçou uma profunda investigação da psique humana, o que levou com que se consolidasse, “por engano”, como ícone feminista após a publicação de seu livro mais famoso, o romance O carnê dourado, de 1962, que esboçava as relações entre maternidade e a sexualidade.

“Por engano” porque quando a autora se deu conta de que a obra havia sido elevada à posição de manifesto feminista, negou que essa fosse sua intenção ao escrevê-la. Mas pouco adiantou,  porque há mais de 50  anos o romance continua sendo referência para uma “bibliografia feminista”.

“Então eu virei um ‘ícone feminista’. Mas o que eu disse, realmente, em O carnê dourado? Que todo tipo de ideia fixa, tacanhez, obsessão leva necessariamente à desordem mental, senão à loucura.”

A célebre Virginia Woolf também entrou para a lista de referências literárias feministas, ao publicar, em 1929, o livro Um teto todo seu. Um ensaio concebido a partir de duas palestras proferidas por ela, nominadas As mulheres e a ficção.

Possivelmente, uma das mais surpreendentes obras de sua trajetória, ainda que estruturada em um caminho contrário à ficção – estilo pelo qual foi consagrada -, Woolf não dispensou sua prosa, tão característica. Permaneceu com a leveza e a fluidez típicas de sua escrita, como ficou marcada em Mrs. Dalloway e Orlando. Conseguindo, com isso, abordar com enorme delicadeza os aspectos mais terríveis e cruéis da vida de mulheres em uma sociedade patriarcal e machista.

Virginia Woolf

Simone de Beauvoir é um dos primeiros nomes que surgem quando se pensa em feminismo. Autora da obra  O segundo sexo, considerada por muitos a “bíblia feminista”, um estudo composto por dois volumes, Fatos e mitos e A experiência vivida.

O que nem todos sabem, é que o feminismo também esteve presente em obras ficcionais da autora, como em seu livro de contos, A mulher desiludida. Em que todo seu talento e conhecimento como filósofa se manifestam liricamente. De maneira poética e sensível, Beauvoir dá vida a três mulheres que mesmo em pouco número conseguem englobar diversos dos questionamentos sobre os limites enfrentados por mulheres ao redor do mundo.

Simone de Beauvoir

Outra escritora, cuja relevância para o feminismo na literatura é inquestionável, é Anais Nïn. Em busca do homem sensível e Incesto são suas obras mais representativas. Ambas tratam dos mais diversos assuntos através do olhar historicamente oprimido da mulher. A segunda é ainda mais especial, por se tratar de um apanhado de alguns de seus diários. Seus retratos sobre o amor, a sensualidade e a paixão foram muito marcantes, representaram um salto pela veracidade com a qual expuseram os desejos femininos.

A presença de mulheres na literatura se consolida cada vez mais. É preciso lembrar que outras as antecederam, outras as acompanharam e outras as seguirão. E a voz da mulher sobre ser mulher se tornará cada vez mais alta e representativa da sua importância, não somente, mas também nas produções literárias.

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Anais Nïn