A lição do trabalho em 'A Metamorfose'

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Franz Kafka nos dá uma lição a respeito do trabalho: não podemos apenas bater cartão na empresa, temos de pensar, ler, refletir e criar

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Ilustração: autoria desconhecida

O episódio é conhecido: Gregor Samsa, um caixeiro viajante que ao acordar se vê metamorfoseado em um inseto. Mas é para o que se segue que desejo chamar a atenção. A primeira preocupação do personagem após o ocorrido é o trabalho. Não o que havia provocado aquilo, como reverter a situação ou como as pessoas lidariam com isso, mas como poderia trabalhar daquela maneira.
No início, a intenção era boa: Gregor trabalhava para ajudar a família a quitar uma dívida. Com o tempo isso acabou ficando esquecido e sua rotina frenética passou a valer por si mesma. Não importa que eu me torne uma barata, contanto que consiga continuar trabalhando.
Parece que Franz Kafka tem uma lição a respeito do trabalho para nossa sociedade. Ele se tornou mais importante do que no que estamos nos transformando. Sem tempo para refletir, ler, criar; transformamo-nos num inseto monstruoso que só se preocupa em bater cartão na empresa.
De início, tem-se a impressão de que era o trabalho de Gregor que sustentava a casa. Mas, surpreendentemente, apenas quando passam a não depender mais dele é que desabrocham suas próprias potencialidades. Sua irmã, até então uma figura discreta, chega a se tornar uma pianista de alto nível, a ponto de impressionar o próprio Gregor com sua música. A cena ilustra então o conflito entre o trabalho pelo sustento e o trabalho como forma de criação, que foi vivenciado pelo próprio autor, que se via obrigado a trabalhar como advogado ao invés de se dedicar exclusivamente à literatura. 
Isso me lembra do episódio quando um garoto de aparentes doze anos me perguntou no metrô: “o que é ócio?”. Surpreendido pela pergunta, numa situação incomum e vinda de uma pessoa de quem jamais esperaria isso, só entendi o porquê da pergunta quando percebi que ele lia sobre Theodor W. Adorno, filósofo alemão da Escola de Frankfurt. Expliquei-lhe, de forma sucinta, que eram os momentos em que não estávamos trabalhando, e que esse autor falava que estavam sendo roubados por outras atividades irrelevantes, levando-nos à alienação. Ao chegar do trabalho, ao invés de se preocupar com a política, com o desenvolvimento das próprias ideias, e até mesmo com ler um Kafka ou Adorno, as pessoas estavam sendo sequestradas por passatempos vãos oferecidos pela Indústria Cultural.
Assim, a leitura da obra kafkaniana nos incentiva a buscar algo além do trabalho pelo sustento – ele não dignifica ninguém. Esse conflito não ocorre em todos os casos, alguns conseguem viver da sua obra, e muitos outros terão que trabalhar pelo sustento, mas precisam reservar o ócio para trabalhar pela sua criação. Acredito que todos são capazes de criar algo de interessante para o mundo, deixar uma obra, seja ela de qualquer tipo (literatura, pintura, ciência, etc.). É preciso tempo para o cuidado de si, para o desenvolver dos talentos, ou então trabalharemos até criar antenas.