Lidando com a morte: o luto em duas obras literárias

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De maneiras distintas, o sentimento de luto é abordado tanto no livro A Desumanização, de Valter Hugo Mãe, quanto na obra A Confissão da Leoa, de Mia Couto

Valter Hugo Mãe, autor de “A Desumanização” (2014) | Foto: Bruno Marques

Na literatura, a morte não é figurante, ao contrário, ela se faz presente desde os poemas sumérios. Mas como ir além do ato da morte, como abordar o sentimento de perda, de luto? Sigmund Freud, criador da psicanálise, conceitua o luto como a perda de um ente querido ou de uma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade, o ideal de alguém, etc. O primeiro caso é o mais impactante no ser humano – o luto é um mar de emoções aflitivas (tristeza, vazio, culpa, raiva) em que todos mergulhamos ou vamos mergulhar, pois se há algo certo sobre a vida é a sua finitude. Carl Jung, fundador da psicologia analítica, já dizia: não há consciência sem dor. Para superar o luto, portanto, é preciso vivê-lo.

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“A desumanização” (Cosac Naify, 2014)

Em A desumanização (2014), o escritor português Valter Hugo Mãe narra a história de irmãs gêmeas que são separadas pela morte. Uma “parte” se vai e o elo, a cumplicidade entre as duas garotas, interrompe-se para sempre. Enquanto uma “parte” cresce, desenvolve-se, a outra definha; enquanto uma tenta reviver sua outra parte através da enunciação de seu nome – pois se você falar sobre alguém falecido, de certa forma, acaba fazendo-o renascer –, o seu reflexo quase perfeito vai perdendo a humanidade, transformando-se simplesmente em nada. É o luto que faz com que a família de Sigridur se desmorone aos poucos: seu pai, amante das palavras, deixa que seus livros sejam queimados; a mãe começa a definhar, cortar a si e à própria filha com as facas da cozinha, enlouquecendo com seus próprios monstros. É devido à fragilidade do luto que uma criança vira adulta demasiadamente rápido; é na curiosidade quase infantil diante do mundo adulto que as responsabilidades pesam, fazendo com que o fardo se desdobre em outros fardos, outros lutos.

Valter Hugo Mãe revela, em nota deixada no livro, que a história se baseia num fato de sua própria vida:

Quando nasci já o meu irmão Casimiro havia falecido. Durante a infância imaginava-o à minha imagem, um menino crescendo comigo partilhando os mesmos interesses. Sabia, embora, que estava deitado sob a terra, e pensava que a palavra coração era da família da palavra caroço, uma semente. Achava que meninos mortos faziam nascer pessegueiros porque os pêssegos tinham pele. O primeiro pêssego que comi foi em idade adulta.

O autor carrega o olhar poético da infância, mas consegue ser incrivelmente maduro ao transmitir suas ideias. Vê a beleza das palavras e suas possibilidades através de metáforas, de novos significados. Como uma criança, também sabe instintivamente bater, o autor dá bofetadas no leitor, fazendo-o reler o final de sua história com a esperança de que tudo pode ser diferente. Que a ficção pode ser menos real, como um conto de fadas, e que uma criança amadurecida pelo sofrimento pode encontrar sua salvação, e não apenas mais dor. O autor, porém, continua a nos bofetear por semanas além do final da leitura: a história ainda vive dentro do leitor, esbarrando pelos cantos, puxando-o para precipícios.

Mia Couto, autor de “A confissão da Leoa” | Foto: Agência Patrícia Galvão

Já em A Confissão da Leoa (2012), o moçambicano Mia Couto também aborda o luto com um viés diferenciado. O livro foi baseado em uma expedição realizada em 2008, em que o próprio autor, que também é biólogo, participou, integrando uma equipe de estudos ambientais ao norte de Moçambique. A história, que aborda os ataques de leões selvagens às mulheres de uma aldeia indígena, é contada a partir de dois pontos de vista: o de uma habitante, a Mariamar, que perdeu Silência, sua irmã, no ataque de uma das feras, e o do caçador Arcanjo, incumbido de acabar com a ameaça.

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“A confissão da leoa” (Caminho, 2012)

O luto, neste caso, inicialmente não nasce da morte. Todas as mulheres da aldeia já se dizem mortas, como afirma a mãe de Mariamar: “Nós todas, mulheres, há muito fomos enterradas. Seu pai me enterrou; sua avó, bisavó, todas foram sepultadas vivas”. O sentimento de perda (no caso, da própria vida) já está incrustado na falta de perspectiva destas mulheres. É a partir da morte de si mesma que Mariamar, tal como Sigridur, acarreta outros lutos, nascidos em meio a uma sociedade machista, autoritária e abusiva.

Arcanjo, o caçador, também carrega em si as consequências de se perder alguém de forma trágica, sentindo o pesar logo na infância, ao ficar sem os pais. A mãe supostamente morrera de uma doença desconhecida e logo depois o pai fora assassinado pelo próprio irmão de Arcanjo, Rolando, cuja loucura culmina em sua internação em um sanatório. A dor também se acentua quando o caçador se apaixona pela enfermeira de Rolando, Luzilia, que, por sua vez, enamora-se pelo próprio internado. O luto também pode levar à loucura, como afirma Arcanjo:

Luzilia tem razão: a minha loucura começou no dia em que um tiro rasgou o meu sono e descobri meu pai, na sala, engravatando no próprio sangue. Antes de ficar órfão, tudo em mim estava intacto: a casa, o tempo, o céu onde me diziam que a minha mãe andava guardando as estrelas. De repente, porém, olhei a Vida e assustei-me: era tão infinita e eu tão pequeno e tão só. Subitamente, pisei a Terra e encolhi-me: tão poucos eram os meus pés. De repente, não havia senão o passado: a morte era uma lagoa mais escura e mais lenta que o firmamento. A mãe estava na outra margem, escrevendo cartas, e o meu pai nadava sem nunca atravessar o infinito lago.

Mia Couto, assim como Valter Hugo Mãe, revela-se sensível, poético, um autor que brinca com metáforas, o que torna a narrativa envolvente, agradável, apesar da previsibilidade do desfecho em A Confissão da Leoa. O que realmente não importa: o previsível é um detalhe quando se consegue capturar o leitor pelo estilo de escrita. Não são todos os autores que conseguem tratar de um assunto de maneira tão bonita, fazendo com que a tristeza do luto se torne em algo terno. Falar de morte através do sentimento que ela impõe e não de morte através do ato em si faz com que se evidenciem emoções não tão agradáveis, que são evitadas, não comentadas. Porque, evidentemente, nunca estamos preparados para lidar com a dor. E é exatamente por isso que se torna necessário ler, escrever e conversar sobre o assunto.

 

Referências

COUTO, Mia. A confissão da leoa. Lisboa: Editorial Caminho SA, 2012.

MÃE, Valter Hugo. A desumanização. São Paulo: Cosac Naify, 2014.