Lima Barreto esculacha o Brasil em “Os Bruzundangas”

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Em Bruzundangas, Lima Barreto desvelou o Brasil do início do século passado com ironia e humor

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Pode-se dizer que um escritor duplamente injustiçado no Brasil é Lima Barreto. Isso porque, na sua época, ser pobre e mulato, além de escrever com linguagem mais próxima do homem comum, foram elementos que o impediram de ter o reconhecimento merecido por sua obra (vale destacar que seu nome foi negado duas vezes para a Academia Brasileira de Letras); já no nosso tempo, temos o cruel fator vestibular, que muitas vezes relega excelentes autores a uma mera lista de características a serem memorizadas, retirando todo o brilho de seus escritos. Pois o objetivo deste texto é justamente reabilitar um pouco de Lima Barreto para o público, mostrando a graça e a atualidade de sua escrita. Para isso, falaremos da coletânea de crônicas Os Bruzundangas, compilada e publicada postumamente em 1923.

O nome é estranho, mas explica-se: a palavra bruzundanga quer dizer coisa inútil ou confusão. No contexto proposto, a escolha do vocábulo mostra-se precisa, visto que o livro propõe-se a uma análise da suposta República da Bruzundanga, um país no qual o cronista brasileiro teria morado por algum tempo, e que fornece matéria de sobra para livrar-nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos”. A graça dessa afirmação encontra-se no fato de que a Bruzundanga é justamente uma representação do próprio Brasil, como logo se percebe a partir da leitura dos textos. Trata-se, portanto, de uma grande encenação do autor, uma brincadeira ácida, que busca criticar um país cheio de defeitos como o nosso, sendo o primeiro deles a própria incapacidade de autocrítica.

Cada crônica tem como foco um determinado aspecto da nação. Eles são variados, mas abordam desde questões políticas, como a Constituição ou a qualidade dos representantes da época, até questões comportamentais, como a cultura da classe burguesa. Essa última torna-se prato cheio para um autor renegado como Lima Barreto, que não perde ali a oportunidade de alfinetar a pobreza de espírito dos seus conterrâneos. Em certa crônica, diz ele:

“O país da Bruzundanga, hoje República dos Estados Unidos da Bruzundanga, antigamente império, tem-se na conta de civilizado e, para isso, entre outras coisas, possui escolas para o ensino de belas-artes.

Naturalmente dessas escolas saem competências em pintura, escultura, gravura e arquitetura que devem ter mais ou menos talento; entretanto, ninguém lhes dá importância, seja qual for o seu mérito.

Se não conseguem lugares de professores, mesmo de desenho linear, nenhum favor público ou particular recebem da sua nação e do seu povo.

Houve um até, pintor de mérito, que se fez fabricante de tabuletas para poder viver; os mais, quando perdida a força de entusiasmo da mocidade, se entregam a narcóticos, especialmente a uma espécie da nossa cachaça, chamada lá sodka, para esquecer os sonhos de arte e glória dos seus primeiros anos.

Dá-se o mesmo com os poetas, principalmente os pouco audazes, aos quais os jornais nem notícia dão dos livros.

Conheci um dos maiores, de mais encanto, de mais vibração, de mais estranheza, que, apesar de ter publicado mais de dez volumes, morreu abandonado num subúrbio da capital da Bruzundanga, bebendo sodka com tristes e humildes pessoas que nada entendiam de poesia; mas o amavam.

A gente solene da Bruzundanga dizia dele o seguinte: “É um javanês (equivalente ao nosso “mulato” aqui) e não sabe sânscrito”.

Essa gente sublime daquele país é quase sempre mais ou menos javanesa e, quase nunca, sabe sânscrito.

Todo estímulo se vai e uma arte própria lá não se cria por falta de correspondência entre o herói artístico e a sua sociedade.”

Esse trecho chama a atenção pelo que pode se considerar um desabafo do autor, ele mesmo de raça socialmente desvalorizada, grau de cultura questionado e um histórico de irremediável bebedor. Sabe-se que Lima Barreto chegou a ser internado duas vezes para tratamento de depressão e alcoolismo.

Quanto à crítica política, não é menos brilhante. Há uma série de anedotas sobre políticos da época para evidenciar o quanto esses representantes eram medíocres nas suas atitudes e na sua competência. Sobre a escolha de um jovem para preencher determinado cargo público, conta:

“Da ultima vez, até quase que um atrevido javanês puro consegue o primeiro lugar, tal era o brilho de suas provas; Pancome, porém, arranjou as coisas tão lealmente diplomáticas que o rapaz perdeu a última prova.

Não queria que a coisa se repetisse e estudava o modo de, evitando o concurso, encontrar um candidato bonito, bem bonito, não sendo em nada javanês, que pudesse oferecer aos olhares do ministro da Coreia ou do Afeganistão um belo exemplar da beleza masculina da Bruzundanga.

Nessa mesma linha, chega a ser triste ler trechos tão atuais a respeito da atuação da classe política, ancorada apenas em conquistar e manter sua posição na estrutura governamental:

Era tudo a situação. Todos os partidos que não pertenciam a ela, pregavam a reforma da Constituição; mas, logo que a ela aderiam, repeliam a reforma como um sacrilégio.”

É também muito presente sua percepção sobre um povo dividido entre trabalhadores de vida miserável e governantes pertencentes a uma estirpe de nobreza “doutoral” (dada a respeitabilidade irrestrita de que dispunham os advogados na época e que, guardadas as devidas proporções, mantêm até hoje). Ele se lamenta:

“Os pais mesmo têm essa ideia; as mães também; as irmãs da mesma forma, de modo a só desejarem casar-se com os doutores. Estes vão ocupar os melhores lugares, as gordas sinecuras, pois o povo admite isto e o tem achado justo até agora.”

Ele, claro, não perde a oportunidade de escarnecer desse grupo social em mais de um texto. O excerto abaixo fala dos doutores que entram para a diplomacia com o único objetivo de deixar o país:

“Convém notar que, quando digo que a ânsia geral é viver fora do país, excetuo os ativos, aqueles que sugam dos ministérios subvenções, propinas, percentagens e obtêm concessões, privilégios, etc. Estes demoram-se pouco fora dele e, seja governo o partido radical, seja governo o partido conservador, esteja o erário cheio, esteja ele vazio, sabem sempre obter fartos e abundantes recursos monetários de um modo que só eles têm o segredo. Estes senhores gostam muito da Bruzundanga e são ferozes patriotas.”

A crítica é dura, mas justa. Olhando para as nossas classes dominantes, não se pode dizer que tal comportamento soa familiar?

Uma das coisas que o autor mais lastima – e que fica evidente neste último trecho – é a falta de respeito com que é tratado o seu país. É algo que chega a comover, pois entrega o verdadeiro amor que Lima Barreto tinha por sua pátria. Um amor real, porém, longe do sentimentalismo inocente do seu Policarpo Quaresma, um amor que dói justamente porque não ignora os defeitos do ser amado. Em diversos trechos o autor nos deixa entrever a sua tristeza por vivermos em um país tão saqueado, tão vergonhosamente explorado por um pequeno grupo de pessoas com nenhum interesse na coletividade e no desenvolvimento da nação. Qualquer um que tenha acompanhado a história do Brasil nos últimos cem anos sabe que, infelizmente, pouco disso mudou. Ler Os Bruzundangas é se deparar com uma realidade absurda e incômoda: a de que aquela sociedade aparentemente tão ridícula descrita por Lima Barreto ainda é a nossa. Chega a ser constrangedor. Talvez se o autor estivesse por aqui hoje, encabulado pelo que (ainda) vê, perguntaria: há condições de mudar esse cenário daqui para a frente? Ou o país estará no mesmo lugar nos próximos cem anos? Sem resposta, fiquemos com a provocação da obra. O cutucão é o primeiro passo.