A literatura não é uma princesa no alto de uma torre que precisa ser protegida

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Por que ainda insistimos em dar a Literatura o status de algo a ser protegido como uma joia rara?

Com o anúncio de que Bob Dylan fora o ganhador do Nobel de Literatura em 2016, houve varias críticas à escolha. A maioria delas justas. Poderia terem dado o prêmio, e o reconhecimento que vem com ele, a Philip Roth, Mia Couto, Lygia Fagundes Telles, Ngugi wa Thiong’o, Thomas Pynchon, Alice Walker, entre outros. A premiação poderia ter saído do velho eixo Europa-Estados Unidos e ter sido dado a um latino americano, africano ou asiático para variar. Quem sabe uma mulher. Quem sabe uma mulher negra para variar. Nenhuma delas tira o crédito de Bob Dylan, bem como também mostram que se outro autor(a) ganhasse, seria justo e criaria uma enxurrada semelhante de questões.

No entanto, lendo sobre a escolha, encontrei várias vezes um argumento que me pareceu um tanto bobo, senão elitista e ingênuo. Não foi apenas em comentários em redes sociais, mas também em textos de grandes veículos internacionais – sinceramente, não lembro em quais, porém você, leitor, caso saiba dos textos que falo, poderia colocá-los nos comentários, por gentileza.

O argumento era o seguinte.

A Literatura, aquela com l maiúsculo, está em crise – de novo. O número de leitores está diminuindo, os meios de comunicação estão cada vez mais ocupando o espaço da leitura etc. etc. etc. Depois disso, diz o argumento, que por melhor que sejam as composições de Bob Dylan, a premiação não ser dada a um escritor de livro, um escritor que se esforça a anos pelo bem e pela salvação desse ramo da arte que está cada vez mais condenado a…

Apenas pare.

Lendo os argumentos dados para esta teoria de por que o prêmio foi mal dado, cheguei a conclusão de que a Literatura é uma princesa indefesa que precisa ser defendida como se fosse a mais rara das joias.

Além de ser uma imagem cafona, mostra uma visão um tanto quanto messiânica acerca da Literatura, aquela com l maiúsculo.

Mas vamos por partes.

Primeiro, o fato de que a Literatura sempre fora algo de nicho, reservada a um grupo ínfimo, escapa a quem argumenta que ela precisa ser salva. Até meados do século XIX, ela era fruto de poucos escritores, a maior parte deles ou aristocratas que praticavam-na pela elevação da alma ou escritores, na maior parte das vezes poetas, que tinham um mecenas os sustentando. Os leitores aqui eram alguns aristocratas, padres e os poucos letrados – e, quando digo poucos, são poucos mesmo.

Então veio a era das revoluções, a imprensa como a conhecemos, os folhetins, um alargamento singelo da alfabetização e o grande boom da chamada da Era de ouro do romance. O público aqui aumentou consideravelmente, sem sombra de dúvidas, porém ainda se reduzia a um grupo muito pequeno. Primeiro porque quem lia ainda eram poucos e segundo porque quem o lia na maior parte das vezes o fazia por razões práticas. A leitura de literatura, por prazer ou seja lá qual motivo, ficou restrita, digamos a uma parcela de menos de dez por cento da população mesmo em países com alta taxa de alfabetização. Ler romances, teatro, conto ou poesia não fazia o gosto da maioria como ainda não faz e provavelmente nunca fará. Com os anos, essa porcentagem oscilou sem nunca perder muito o mesmo patamar. O romance entrou em crise, e com ele toda a Literatura, teve o boom latino-americano e outra crise do romance, que ainda persiste segundo alguns. Os números daqueles que se dedicam à leitura da Literatura aumentou um pouco com a alfabetização em massa – e só. Nunca nós, os leitores de Literatura, fomos tantos quanto queríamos ser e nunca seremos.

Mas a Literatura está em crise e dar o prêmio a um não-escritor…

O Nobel de Literatura é o que é: um prêmio. Quem ganha tem o nome marcado para a História, essa também com h maiúsculo, um aumento de vendas, reconhecimento etc. Isso não salva a Literatura de forma alguma, até porque ela não precisa ser salva. Ela sempre esteve limitada a um grupo pequeno e assim continuará, pois quem lê precisa ter determinadas qualidades que, queiramos ou não, não fazem parte da maioria. No fundo, gostar ou não de Literatura e lê-la é resultado dessas características, bem como, por exemplo, gostar de futebol. Nem todos gostam de ver pessoas batendo bola, precisa-se de certas características para tanto, bem como a leitura.

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E a formação intelectual da humanidade, nunca antes na História se leu tão pouco e…

Pare aqui. Lê-se tão pouco quanto se lia no passado. Sem desmerecer os autores que poderiam ter ganho, o fato é que o mundo não se sensibilizaria muito mais caso fosse a Lygia Fagundes Telles, o Mia Couto ou qualquer outro autor ou autora. Quem não lê porque o Bob Dylan ganhou o prêmio também não leria caso fosse outro autor. Ninguém seria salvo pelo saber literário (sinto cheiro de incenso positivista nesse argumento). Por exemplo, caso a Lygia Fagundes Telles ganhasse, o número das vendas de seus livros aumentaria, claro, por um modismo do momento, não pelo valor da sua obra. Haveria mais traduções pelo mundo, uma boa autora brasileira teria o reconhecimento merecido, alguns brasileiros que não leem comprariam um livro ou outro, talvez um punhado pequeno mantivesse o hábito da leitura. Fim. A Literatura continuaria em crise e o mundo girando.

Não precisamos conservá-la porque ela sempre sobreviveu e sempre sobreviverá aos tempos. Às vezes com mais leitores, às vezes com menos. Ela atravessou a História da humanidade de várias formas, inclusive pela oralidade. Não é o fato de um compositor de canções ou de um bom autor ter ganhado um prêmio que a salvará. O Nobel, seja lá quem ganhasse, não cria ou preserva a Literatura e a sua instituição – seja lá o que isso queira dizer.

Ela continuará em crise ano que vem, bem como continuará sem necessidade de salvação dos paladinos da leitura.