Qual o papel da literatura no mundo de hoje?

literatura no mundo de hoje

Neste terceiro milênio é pertinente discorrer sobre o papel da literatura no mundo de hoje.

Assim como a filosofia e outras ciências humanas, ela está inserida na sociedade desde a antiguidade. Mas antes de mergulhar nessa questão, e tentar chegar a um denominador comum que defina o papel da literatura na atual sociedade, devemos entender: o que é a literatura?

 

O que Miguel Cervantes, autor de Dom Quixote, tem a dizer?

“Uma coisa é escrever como poeta, outra como historiador: o poeta pode contar ou cantar coisas não como foram, mas como deveriam ter sido, enquanto o historiador deve relatá-las não como deveriam ter sido mas como foram, sem acrescentar ou subtrair da verdade o que quer que seja.” Miguel de Cervantes (1547 – 1616)

O que Cervantes nos aponta a respeito do poeta é que o artista (seja de qualquer tipo de arte) pode inventar, criar e recriar fatos e seres, e que o historiador (ou qualquer cientista), por sua vez, trabalha com fatos reais, documentados e relacionados com pessoas reais. Porém, o artista não se limita ao imaginário – devemos lembrar que nada impede que um artista crie um personagem a partir de uma relação com a realidade à sua volta, mesmo esse personagem fugindo dos padrões pregados pela sociedade da época.

A partir desse pressuposto, podemos iniciar nossa definição de literatura deste ponto: o artista pode criar uma realidade inventada por ele, o que chamamos de ficção, logo, literatura é ficção. Também essa realidade pode ser inventada através das palavras – literatura seria então ficção inventada e descrita através de palavras. Porém, devemos lembrar que palavras fazem uso da língua, sendo a língua a ferramenta usada pelo artista/escritor combinada com a carga pessoal do artista, sua subjetividade, o que revela sua maneira particular de ver o mundo. Assim, literatura é ficção inventada através de palavras e combinadas com a subjetividade do artista/escritor.

Cervantes pode nos esclarecer, através de sua fala, a diferença entre o artista (pintor, escritor, cantor etc.) e o cientista (historiador, jornalista, etc.), a diferença entre ficção e não ficção, literário e não literário, não obstante, devemos lembrar que o artista, neste caso usaremos o escritor como exemplo, também pode descrever a realidade através de sua subjetividade, usando a língua e as palavras.

Para isso, ele também usa de fatos reais, pessoas reais, assim como o historiador. A literatura também exerce esse papel de descrever, através da ficção, os fatos, sejam históricos ou científicos, de um determinado povo ou língua, e de uma determinada época. A maioria das narrativas, seja ela fantasiosa ou não, tem como plano de fundo a situação política, social e cultural da época em que foi escrita, podendo até mesmo o escritor voltar no tempo e fazer um resgate desse contexto histórico, social e político.

Por esse motivo, nota-se que a literatura é ficção, mas também é a realidade – pode se identificar verossimilhança na literatura, sendo fantasiosa e realista ao mesmo tempo. O poeta, então, é o porta voz de seu tempo, usando da literatura para não só descrever, mas para analisar e fazer críticas à sociedade e cultura de sua época.

Entre os inúmeros motivos da proposição apresentada, destaca-se que a literatura, mesmo sendo ficção, não tem apenas o papel de entreter, mas de informar, levantar pensamentos críticos da sociedade que ela narra, sendo, assim, uma ferramenta lúdica para alcançar conhecimento histórico, social, político e cultural.

 

O papel da literatura no mundo de hoje

Segundo o especialista Antônio Cândido, em seu texto Direitos humanos e literatura, a literatura é, ou deveria ser, um direito básico do ser humano, pois a ficção atua no caráter e na formação crítica do ser humano.

Ele destaca que a literatura deveria estar inserida entre os direitos básicos do ser humano, pois desde os primórdios da humanidade o ser humano tem a necessidade de se alimentar intelectualmente de algum tipo de ficção. Ele defende que nenhum ser humano é capaz de viver sem algum tipo de ficção, mesmo em uma parte de seu dia, todos os dias; aponta que a literatura é uma necessidade do ser humano, sendo assim, todos deveriam ter direito à literatura, assim como moradia, alimentação, saúde, segurança e os demais direitos que possuímos registrados na lei dos direitos humanos.

Em antítese ao texto de Cândido, podemos perceber, olhando apenas na superfície da sociedade em que vivemos hoje, que muitos não abraçam a sua visão.

A literatura, ou as artes em geral, não ocupam hoje o lugar que lhes é de direito. Ainda há pouco espaço para as artes em nosso cenário atual. A sociedade procura sua catarse no consumismo, ao invés de ter seus momentos de entrega ao “universo ficcional”. Dentro desse consumismo, a literatura é vista como mais um produto a ser vendido, e não exerce o papel apontado por Cândido em seu texto. Segundo ele, a literatura se manifesta universalmente através do ser humano, e em todos os tempos, tem função e papel humanizador. A literatura tem suma importância na construção de uma sociedade.

Oportuno se torna mencionar que a literatura, segundo Cândido, […] “tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas”. (p. 113).

 

Como inverter esse papel?

A literatura precisa ter a mesma importância que outrora já teve, deve receber uma maior importância a essa ferramenta imprescindível na formação crítica do homem.

Mas como realizar tal tarefa?

E cabe a quem realizar essa difícil tarefa? Da sociedade? Podemos dizer que sim. A sociedade sente essa necessidade, porém não a reconhece. Mas ao contrário do que se pensa, a mudança desse cenário não depende somente da sociedade, das políticas públicas e, tampouco, dos críticos literário como Antônio Cândido; essa difícil tarefa vai recair sobre o professor.

Cabe ao professor essa árdua missão, de além de fazer uma mediação entre o aluno e o conhecimento, também  exercer esse papel social, e acima de tudo, compreender que a literatura é uma ferramenta humanizadora e transformadora, e não apenas didática. Sobretudo, fazer o aluno entender esse papel da literatura, para que o aluno também possa enxergá-la como tal.

O aluno deve sim conhecer os gêneros literários, as escolas literárias e seus autores e obras, mas acima de tudo entender o contexto histórico, político, social e cultural na qual aquele autor e obra estão inseridos; as influências que aquele autor e obra tiveram, e ainda têm na sociedade, pois a literatura transcende tempo e espaço, e continua a falar conosco mesmo através de séculos; entender que o texto literário pode nos fazer entender a nossa sociedade de hoje.

Diante disso, entende-se que o papel da literatura depende que o professor abrace a ideia de Cândido, entenda o seu papel na sociedade, que ele compreenda que deve ter uma mediação mais eficaz, fazer o aluno entender que assim como aponta Cândido, todos tem direito à literatura, e que o aluno deve exercer esse direito.

O professor tem um papel formador de personalidade e pensamento crítico.

O aluno deve entender que literatura é ficção, mas também exerce um papel socioeducativo no processo de ensino aprendizagem e na difusão do livro e da literatura.