Literatura, Educação e Política – os 98 anos de Antonio Candido

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Homenagem do Homo Literatus a Antônio Cândido, o maior crítico literário brasileiro vivo

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Referência para críticos, professores e escritores, Antonio Cândido chega aos 98 anos de idade como um dos maiores intelectuais brasileiros. Responsável pela formação de grandes professores e intérpretes do Brasil – tais como Roberto Schwarz, Arrigucci Jr., Walnice Nogueira Galvão, João Luiz Lafetá, José Miguel Wisnik –, Candido, ao lado de Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e Florestan Fernandes consolidou uma tradição de grandes pensadores, revolucionando assim tanto a maneira de ver a cultura nacional quanto de pensar o Brasil.

Nascido no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, ou, como melhor sintetizou Délcio de Almeida Prado em seus versos, “Nascido no Rio de Janeiro, /é paulista ou será mineiro/ Esse enigmático rapaz de Poços?”, dedicou a vida ao magistério, ofício do qual se orgulha e dedicou-se durante 36 anos. Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, também foi colaborador da revista Clima (1941-1943) – ao lado de Lourival Gomes Machado, Paulo Emílio Salles Gomes e Gilda de Moraes Rocha, com quem viria a se casar – e dos jornais Folha da Manhã (1943-1945) e Diário de São Paulo (1945-1947), dedicando-se em ambas as carreiras à paixão maior, a literatura.

Sociólogo de formação, foi na crítica literária que Antonio Cândido encontrou as linhas em que seriam escritas sua biografia. Sua crítica buscava encontrar a lógica interna de funcionamento da obra articulada na dinâmica histórica. Sendo assim, o texto literário tornava-se mais que um mero objeto histórico, mas uma espécie de sujeito capaz de pensar, interpretar e vivenciar a história. Visto isso, seu método ganhou destaque em meio ao academicismo dos anos 60 e 70 por apresentar a obra literária enquanto elemento da cultura humana, os elementos da vida social conformar-se-iam ao universo estético criado pelo autor. Os elementos histórico-sociais são internalizados pela obra, reestruturados em seu universo ficcional, segundo suas próprias leis, as quais são estéticas.

Suas realizações avançam conforme seu método, compromissado e de caráter  dialético não dogmático, acompanhando  e sintetizando o pensamento de críticos, filólogos e filósofos como Auerbach, Lukács, Brecht, Adorno e Benjamim. Seu instrumental, engajado sempre com o texto literário, tornava pública sua erudição, percebida em maior volume em suas legendárias aulas, sempre acompanhadas de clareza e elegância, e seus importantes ensaios, alguns desses responsáveis pelos novos rumos que a crítica literária viria a tomar no Brasil. Aqui citamos apenas alguns deles: Formação da Literatura Brasileira (1959 – uma análise histórico formativa da literatura brasileira, o Arcadismo e o Romantismo), Dialética da Malandragem (1970 – análise da obra  Memórias de um Sargento de Milícias), De Cortiço a Cortiço (1973 – estudo comparativo entre os romances O Cortiço de Aluísio de Azevedo e L’Assommoir de Zola).

Candido notabilizou-se em um momento cujo cenário crítico mantinha-se amarrado a uma tendência de caráter impressionista, pautada em dados biográficos, quando não sociologista, e um formalismo estruturalista. Seu método torna-se mais que uma forma de leitura, uma atitude ética e moral diante da obra, da História e da vida. Partindo do que ele mesmo chamava de “intuição literária”, conseguiu conferir às suas análises tamanha importância ao ponto de ser fundamental para o reconhecimento de autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, assim como foi responsável por mediar a leitura de Zola, Eliot, Tolstoi, Baudelaire, Balzac, entre tantos outros.

Assim como o professor Antonio Candido tratou da formação e consolidação da Literatura Brasileira, a narrativa do desejo dos brasileiros de terem uma literatura, conseguiu construir a narrativa do desejo de se criar uma tradição crítica brasileira, a qual nem com o desastre político e social ocorrido com o golpe militar de 1964 foi interrompido. Como tantos outros, em tal período teve de ausentar-se do país, indo para a Universidade de Paris (1964-1966) e a Universidade de Yale (1968), período em que seu comportamento político, ao tempo que consolidou o intelectual, aproximou-o de outros grandes pensadores latino-americanos, como o uruguaio Ángel Rama.

Alvo de inúmeras homenagens, o professor foi lembrado no seu aniversário de 80 anos na Universidade de São Paulo com os textos do encontro reunidos no livro Antonio Candido: Pensamento e militância, no de 70 anos com os trabalhos do simpósio reunidos em Dentro do texto, dentro da via e, nas comemorações nos seus 60 anos, Esboço de figura, cuja importância também ficou marcada pelo poema feito para as felicitações por Carlos Drummond de Andrade:

Arguto, sutil Antonio,
a captar nos livros
a inteligência e o sentimento das aventuras do espírito,
ao mesmo tempo em que, no dia brasileiro,
desdenha provar os frutos da árvore da opressão,
e, fugindo ao séquito dos poderosos do mundo,
acusa a transfiguração do homem em servil objeto do homem.

Crítico literário, pensador social e militante político, Antonio Candido é um dos mais importantes pensadores brasileiros. Sua crítica permanece vigente por ser um modelo produzido a ser revisto e repensado a cada novo momento, a cada nova obra, caso a caso. Não há como evitar festejos em ocasião de seus 98 anos de vida, uma trajetória crítica que entrelaça vida e obra, assim como é sempre a dos grandes professores.  

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Texto escrito por Diuvanio de Albuquerque Borges, Doutorando em Literatura Brasileira na Universidade de Brasília (UnB).