Litercultura 2015: por que ir a um festival literário?

“Em um festival literário, encontramos outros atormentados como nós.”

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Você vai até o Largo da Ordem, região “boêmia” de Curitiba, e se depara com o Palacete Garibaldi. O prédio histórico exibe na testa a faixa do Litercultura, cuja foto acima extingue qualquer necessidade de descrição em sua falta de discrição. Este é o cenário onde acontecem os debates de um dos festivais literários mais importantes do Brasil.

Tivemos a oportunidade de acompanhar alguns desses debates. Os quais, apesar de terem temas tão diferentes, levaram-nos pela mão até a pergunta-título deste texto. Antes de respondê-la, falemos sobre as discussões.

No sábado, 29/08, presenciamos o enfrentamento “A Curitiba oculta de Jamil Snege e Manoel Carlos Karam”, com participação de Joca Reineres Terron e Christian Schwartz, mediada por Luís Henrique Pellanda. Mesmo que o nome dos autores discutidos não fossem de todo estranhos, um alheamento se revelava em cada fala. Foi como se presenciássemos comentários sobre uma literatura produzida em uma dimensão à parte. Conhecê-la pode até provocar certa curiosidade, porém o fato de ela só dizer respeito a si mesma também a distancia de nós. A fala de Joca colaborou para tornar a imagem de Karam mais humana. Diferente do discurso de Christian focado na obra de Jamil, mas sem a aproximação de tal obra a um público que a desconhece. Encurtando o discurso, de modo mais sulista impossível, certa áurea curitibana pairou sobre o debate, excluindo os forasteiros literários.

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Luís Henrique Pellanda, Joca Reineres Terron e Christian Schwartz

 

A discussão seguinte, entre Marcelino Freire e João Anzanello Carrascoza, mediada por Sandro Moser, pareceu pertencer a outro festival. Como se por ironia, o tema “Vasto mundo, microcontos”, em sua redutividade, tornou-se grande. Não havia mais dois indivíduos falando cada qual de seu tema, mas sim um assunto comum sendo explanado de forma descontraída. Marcelino contou sua experiência na organização da antologia Os cem menores contos brasileiros do século, transmitindo seu fascínio pela forma concisa de narrativa, além de revelar anedotas a partir dos contatos realizados com grandes escritores, como Millôr Fernandez e Dalton Trevisan, para a antologia. Sem negar sua veia humorística, arrancou risadas da platéia ao saldar a suposta vinda de Trevisan ao evento (sendo fato conhecido que o autor não comparece a festivais literários). Carrascoza, por sua vez, expôs a sensibilidade das palavras que abundam em seus texto, citando o uso do haicai como um exercício de concisão utilizado na época em que abordava o slogan nas aulas de redação publicitária.

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Sandro Moser, João Anzanello Carrascoza e Marcelino Freire

 

Além das duas mesas, assistimos à apenas uma terceira, no domingo (30/08). “O Brasil dividido” foi abordado por Luiz Felipe Pondé e Christian Ingo Lenz Dunker, com mediação de Manuel da Costa Pinto. A partir das manifestações ocorridas em todo o país nos últimos anos, o mediador provocou os debatedores a exporem suas visões políticas com base em suas obras. O conflito entre as duas opiniões demorou um pouco a amadurecer. A sensação que tivemos foi a de que o debate foi curto, embora proveitoso e nem sempre de todo digestivo. Um pouco menos de retórica e mais de desejo de construção tornaria a proposta mais interessante.

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Manuel da Costa Pinto, Luiz Felipe Pondé e Christian Ingo Lenz Dunker

 

Avaliar o Litercultura a partir de apenas três debates assistidos seria um erro de nossa parte. O evento se construiu a partir de muitas outras atividades, como os capítulos anteriores, e neste ainda: oficinas, espetáculos teatrais, mostra de cinema, sarau erótico, shows musicais e outros debates realizados. Contudo, assistir à pequena parcela do evento nos lançou diante da pergunta: por que ir a um festival literário?

A resposta é o próprio Litercultura em sua diversidade de programações.

Pois a literatura não está desconectada do mundo. Muito pelo contrário. É o ponto de partida para inúmeras outras discussões. Ela nos incomoda, perturba, arranca nossas calças, diz para nós que nossa hipocrisia está fedendo e provoca nossa atitude até não aguentarmos mais. Em um festival literário, encontramos outros atormentados como nós. Dilemas são compartilhados e ideias ampliadas. Se isso não é motivo o suficiente para ir a um festival de literatura: pare de ler, entregue-se à mediocridade (e invocando a mais sem vergonha da psicologia reversa: não vá ao Litercultura do ano que vem).

 

Vilto Reis Author

Escritor, Editor-chefe do Homo Literatus, Diretor da RUSGA - Cursos Para Escritores, Publisher da Editora Nocaute e autor do romance Um gato chamado Borges (Nocaute, 2016).