Do livro ao Kindle: da falta de escolha ao deslumbramento

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Testemunho de um leitor que adquiriu um Kindle.

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Cheguei a um ponto em que meus abrigos improvisados para os livros se mostraram insuficientes. Aqui, eles nunca dispuseram de um lar legítimo, como seriam aquelas belas prateleiras que os deixam à mostra e agrupados. Portanto estabeleceram residência provisória em armários e gavetas.

Eis que, num belo dia, o recepcionista desse albergue me comunica: todos os quartos estão lotados. O pânico instaurou-se; no entanto, não queria recorrer a soluções drásticas como dar ordem de despejo a alguns dos moradores com os quais tinha menos afinidade. Acabei poupando a todos, inclusive as obras cuja leitura jamais havia iniciado, aquelas que muito pouco me encantaram e também algumas outras em que estagnei, sem previsão de retomada. Claro que algumas delas ficavam em acomodações piores, mas trata-se de um mero detalhe.

Com os cômodos todos abarrotados e habitando uma cidade destituída daquelas vastíssimas bibliotecas nas quais há praticamente todos os livros imaginados, eu me vi em apuros!

À mente visitou-me uma solução inesperada: recorra a um leitor digital, um e-reader. Não foram poucas as vezes em que ouvi críticas às tais engenhocas, argumentos sustentando que jamais estariam à altura dos livros em papel. Ademais, que fetiche teria com um aparelho eletrônico? Não seria o equivalente a ler em cópias em folha de ofício ou na tela do computador?

Todavia, o suporte em que lemos já sofreu transformações ao longo dos tempos. Passamos ao códex só depois de rejeitarmos o rolo da antiguidade. Decerto houve alguns saudosistas que ficaram inconformados com tal substituição, a despeito das práticas de leitura imensamente desconfortáveis que ocorriam no rolo e das novas possibilidades geradas por seu sucessor.

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Assim sendo, despi-me de meu saudosismo antecipado e fiz algumas pesquisas sobre os leitores de livros digitais. Leituras em sites e conversas com amigos possuidores de tais dispositivos foram o suficiente para dar uma chance às tais geringonças – até porque eu não tinha muita alternativa, era isso ou abster-me de ler o que desejava.

Não há indivíduos que se julgam especiais porque, em tenra idade, acalentavam o sonho de ser astronautas? Incluía-me nesse grupo até descobrir que 75% das crianças nutriam a mesma expectativa em relação ao futuro. Pois com o Kindle – e-reader pelo qual acabei optando – ocorreu algo semelhante. Eu julgava possuir hábitos originais enquanto lia. Tinha o costume de me deparar com novas palavras, ter a curiosidade atiçada e ir à caça de seus significados no dicionário. A seguir, a fim de memorizar a definição dos vocábulos recém descobertos e incorporá-los ao meu vocabulário, anotava-os em meu celular e os espiava constantemente, até gravá-los dentro da cabeça. Também me deixava arrebatar por alguns trechos e, obviamente, os queria para mim. Para tanto, empreendia fatigante jornada. Como não ousava riscar em meus livros e tinha preguiça de levantar – visto que minha posição predileta para ler é deitado -, acabava apontando no celular os meus fragmentos favoritos e, mais tarde, os transferia (manualmente) para um arquivo no computador, no qual o novo trecho coabitaria com as preciosas borboletas apanhadas anteriormente.

O Kindle tratou de revelar-me que a maioria dos leitores possui hábitos análogos aos meus. Fiquei sabendo disso porque o aparelho em questão simplificou todas as atividades supramencionadas que me são tão caras (e eu não poderia ser ingênuo a ponto de considerar que seus desenvolvedores souberam exatamente quais eram os meus anseios individuais e trataram de torná-los mais acessíveis). Poderia ter ficado ofendido com tamanha falta de sutileza por parte da engenhoca para jogar-me de volta à minha insignificância. Entretanto, reconheço, fiquei foi bastante feliz, porquanto tudo se mostrou tão prático! Para descobrir o significado de uma palavra basta posicionar o dedo sobre ela e, no segundo seguinte, a definição saltará aos nossos olhos. Automaticamente, será depositada no “construtor de vocabulário”, onde poderemos revisitá-la sempre que desejado, facilitando assim sua memorização. Quanto aos trechos prediletos, basta clicar com o dedo no começo do fragmento escolhido e carregá-lo até o final da parte que se deseja grifar. Ela ficará destacada no e-book e também integrará um arquivo separado, junto com os demais trechos salvos. Finalmente pude abrir mão das benditas vias intermediárias – livro-celular-computador – e passar meus fragmentos favoritos direto do Kindle para o computador mediante cabo USB, sem a necessidade de penosas transcrições. Além disso, o sonho de muitos orkuteiros foi realizado: finalmente dispomos da função ctrl + f em livros.

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Todo tipo de leitor está adquirindo o Kindle.

Quando comprava livros pela internet, muitas vezes selecionava cinco ou seis exemplares a fim de não pagar frete. Era uma alegria estonteante a chegada de todas aquelas obras de uma só vez. No entanto, após o júbilo inicial, dificuldades já surgiam no momento de decidir qual delas seria lida primeiro. Feita a escolha, as demais se portavam tais quais crianças birrentas, fazendo de tudo por nossa atenção. Eu não conseguia ler um livro em paz sabendo que havia mais meia dúzia à espera. Eles faziam manha, alarde, carinhas suplicantes, mas como pegar tantos infantes no colo ao mesmo tempo sem colocar a vida de todos eles em apuros? Era uma dor de cabeça.

No Kindle, por sua vez, não se precisa pagar pelo envio dos livros, o que favorece a compra individual. Leio muito mais à vontade sem saber que possuo outros livros ansiosos à espera. Dou à leitura o ritmo que mais me apraz, que mais condiz com a obra momentânea. Além disso, muitas obras podem ser baixadas gratuitamente em determinados sites, o que acaba fazendo, de certa forma, com que o aparelho se pague.
Mantive-me firme e forte por cerca de um ano na empreitada de não comprar mais livros físicos. Porém, há pouco tive uma recaída: deparei-me com autoras e autores tão incríveis cuja maioria das obras ainda inexiste em formato digital, por conseguinte fraquejei, caí em tentação.

A verdade é que ambos podem coexistir. O prazer da leitura reside mais em seu conteúdo do que em aspectos externos – xerox e telas de computador às vezes contradizem tal afirmação. Por fim, e-readers possuem muito de positivo e só não se mostram uma boa opção àqueles que fazem questão de derramar café em suas leituras.