Lou Salomé, a grande paixão de Nietzsche

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Nos tempos em que a mulher já nascia com seu papel bem definido, Lou escandalizou a sociedade e quebrou regras morais. Talvez a maior causa da curiosidade em torno de sua personalidade seja o fato de ter sido a grande paixão de Nietzsche

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Lou Salomé

Lou Andreas-Salomé, registrada como Louise Von Salomé, foi uma intelectual que nasceu em São Petersburgo, na Rússia, em 1861. Em tempos nos quais a mulher já nascia com seu papel bem definido, Lou escandalizou a sociedade e quebrou regras morais. Talvez a maior causa da curiosidade em torno de sua personalidade seja o fato de ter sido a grande paixão de Nietzsche. Logo ele que parecia temer que o amor-paixão pudesse facilmente declinar para um daqueles sentimentos inferiores que escravizam o ser humano. Em interpretações aleatórias do seu pensamento, Nietzsche seria hoje considerado “machista” por alguns. Mas se ele fosse machista, teria sido uma grande ironia ter se apaixonado por Lou Salomé, uma mulher de espírito rebelde e pensamento independente. Ela seria a mulher mais inteligente e divertida que poderia ter conhecido, exuberante e apaixonada pela vida. Consta que ele chegou a pedi-la em casamento e que teve seu pedido recusado. Especula-se ainda que um dos motivos do agravamento da doença de Nietzsche teria sido este amor não correspondido.

Lou era filha de um general do Exército do Czar e a irmã mais nova de cinco rapazes. Passou sua infância num ambiente aristocrático e teve sua educação confiada a um pastor protestante de origem holandesa, Hendrik Gillot. Aos dezenove anos iniciou seus estudos de Teologia e História da Arte em Zurique, mas teve de interrompê-los por motivos de saúde. Ela conheceu Nietzsche e seu amigo Paul Rée (um autor e filósofo alemão), quando teve que ir a Roma junto de uma amiga para se convalescer. Lou descobriu afinidades intelectuais que todos os três compartilhavam entre si, e se tornaram grandes amigos. Ambos teriam se apaixonado por ela e a pedido em casamento, ao que ela recusou. Dizem que para contrapor sua recusa, teria sugerido um ménage a trois, porém há divergências entre os autores sobre um sentido intelectual e não sexual que ela poderia ter dado ao termo. Porém, a amizade entre os três não dura muito, e Lou parte com Paul Rée, deixando Nietzsche. Parece que Nietzsche a interessava mais como filósofo.

 

“Tão certo como o amigo ama o amigo Também te amo, vida-enigma
Mesmo que me tenha exultado ou chorado, Mesmo que me tenhas dado prazer ou dor.
Eu te amo junto com teus pesares, E mesmo que me devas destruir,
Desprender-me-ei de teus braços Como o amigo se desprende do peito amigo.
Com toda força te abraço! Deixa tuas chamas me inflamarem,
Deixa-me ainda no ardor da luta Sondar mais fundo teu enigma
Ser! Pensar milênios! Fecha-me em teus braços:
Se já não tens felicidade a me dar
Muito bem: dai-me teu tormento.” (Hino à Vida-1881)

 

O fim da relação de Nietzsche com Salomé foi expressa por ele, em dezembro de 1882, em carta dirigida a Overbeck, seu editor: “Minha relação com Lou está nos últimos e mais dolorosos momentos. Pelo menos assim o creio hoje. Mais tarde – se houver um mais tarde – quero dizer uma palavra a respeito. Compaixão, meu caro amigo, é uma espécie de inferno, digam o que quiserem os adeptos de Schopenhauer.”

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Lou Salomé, Paul Ree e Nietzsche

Em 1887 Lou Salomé se casou com o professor universitário e orientador Friedrich C. Andreas que, segundo consta, teria ameaçado cometer suicídio caso ela recusasse sua proposta. Dizem que esse matrimônio nunca se consumou, mas não se sabe se eram apenas boatos, pois dela, assim como de Nietzsche, fizeram-se muitas especulações ao longo do tempo. Ela realizou diversas viagens pela Europa e costumava frequentar os meios revolucionários de Berlim, Munique, Paris e Viena, tendo conhecido escritores célebres como Gerhart Hauptmann, Henrik Ibsen e August Strindberg. Publicou seu primeiro livro em 1885 Im Kampf um Gott (Na luta por Deus). Em 1894 publica seu segundo livro Friedrich Nietzsche em senen Werken (Friedrich Nietzsche em sua obra).

Em 1897 conheceu o poeta Rainer Maria Rilke, catorze anos mais jovem, por quem se apaixonou. Em 1952 após sua morte, foi publicada uma compilação da extensa correspondência trocada entre ela e o poeta alemão que revela a longa amizade entre ambos, Briefwechsel mit Rilke (Correspondência com Rilke).

Em 1911, já com cerca de 50 anos de idade, Lou associou-se ao círculo de psicanálise de Viena, tornou-se amiga pessoal e discípula de Freud, e passou a estudar o tema e a publicar artigos nas revistas de medicina. Tempos depois deu início a uma carreira como psicanalista em uma clínica e em 1931 escreveu o ensaio Mein Dank Freud (Meus agradecimentos a Freud), no qual fez uma homenagem pública a Freud e uma tomada de posição em relação ao seu dogmatismo.

Alguns dos seus ensaios são estudos e reflexões acerca do amor, da feminilidade e do erotismo. Para Lou Salomé compreender a natureza estética do amor nos possibilita compreender a nós mesmos, motivo pelo qual ela relaciona erotismo e arte em suas discussões.

“Pois, nos seios mesmo da paixão, nunca se deve tratar de “conhecer perfeitamente o outro”: por mais que progridam neste conhecimento, a paixão restabelece constantemente entre os dois este contato fecundo que não pode se comparar a nenhuma relação de simpatia e os coloca de novo em sua relação original: a violência do espanto que cada um deles produz sobre o outro e que põe limites a toda tentativa de apreender objetivamente este parceiro. É terrível de dizer, mas no fundo, o amante não está querendo saber “quem é” em realidade seu parceiro. Estouvado em seu egoísmo, ele se contenta de saber que o outro lhe faz um bem incompreensível…os amantes permanecem um para o outro, em última análise, um mistério.

Assim, para quem ama, o amor, por muito tempo e pela vida afora, é solidão, isolamento,cada vez mais intenso e profundo. O amor, antes de tudo,não é o que se chama entregar-se, confundir-se, unir-se a outra pessoa. […] O amor é uma ocasião sublime para o indivíduo amadurecer, tornar-se algo por si mesmo, tornar-se um mundo para si, por causa de um outro ser: é uma grande e ilimitada exigência que se lhe faz, uma escolha e um chamado para longe.” (Do livro Os Sentidos da Paixão)

Lou Salomé veio a falecer em fevereiro de 1937 aos 76 anos em Göttingen, Alemanha.

“No dia em que eu estiver no meu leito de morte
Faísca que se apagou,
Acaricia ainda uma vez meus cabelos
Com tua mão bem-amada
Antes que devolvam à terra
O que deve voltar à terra,
Pousa sobre minha boca que amaste
Ainda um beijo.
Mas não esqueças: no esquife estrangeiro
Eu só repouso em aparência
Porque em ti minha vida se refugiou
E agora sou toda tua.” (Hino à Morte)

 

Obras

1885 – Na luta por Deus
1892 – Personagens femininos de Ibsen
1894 – Friedrich Nietzsche em sua obra
1895 – Ruth
1896 – Sobre uma alma perturbada
1898 – Fenitschka
1899 – Os filhos dos homens
1901 – Mamãe
1902 – Na zona crepuscular
1910 – O erotismo
1917 – Três cartas a um menino
1919 – A casa e O diabo e sua avó
1928 – Rainer Maria Rilke
1931 – Carta aberta a Freud

 

Publicações póstumas

1951 – Revendo minha vida
1952 – Correspondência Lou Andreas-Salomé – Rainer Maria Rilke
1958 – Na escola de Freud
1982 – Cadernos íntimos dos últimos anos

 

Títulos sugeridos sobre Lou Salomé

Os Sentidos da Paixão – Ed.Cia das Letras, 1987
Humana, demasiado Humana – Edit.Rocco