Louco por Livros

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Ler é algo capaz de enlouquecer. Apenas digo isso porque às vezes, enquanto leio um livro, acabo me perdendo na leitura e tendo curiosos, até estranhos, pensamentos ou mesmo reflexões. Não por acaso, afinal sempre existe em toda boa obra, uma frase, um diálogo, um parágrafo com capacidade de me esmurrar com força me fazendo perder o fôlego.

Comento isso porque esses dias mesmo, arrumando os livros de minha estante, isso me aconteceu. E de tal maneira que acabei por me esquecer simplesmente do que estava fazendo. Mexi em um livro aqui, mexi em um livro ali, abri outro livro acolá, comecei a reler qualquer livro por acaso, senti nostalgia ao pegar novamente em minhas mãos um dos livros de Freud, a biografia de Albert Camus ou mesmo Admirável Mundo Novo. Enfim, quando vi me perdi. Acabei sentado no chão, encostado na parede, em um canto qualquer do meu quarto folheando algumas obras de meu interesse.

E pensando nisso, ou melhor, falando francamente, não acredito que não exista ninguém por aí, mas ninguém mesmo, pelo menos dos ditos bons leitores — pessoas que trocam até mesmo uma noite de sono para ler mais um capítulo de seu livro favorito — que já não tenha passado por algo assim, quero dizer, tenha se perdido entre livros.

Vamos lá: eu, por exemplo, quando vou a uma livraria pelo menos gasto uma hora do meu tempo. Se eu vou a sebos, muito mais. Afinal, em meio àqueles simpáticos senhores empoeirados, amontoados em todos em todos os cantos, eu acabo por me esquecer de todo o resto. Me esqueço que existe um mundo real — patético? — com suas filas de bancos, suas jornadas de oito horas de trabalho, os ônibus lotados em favor das ideias e histórias contidas em livros.

Não que eu tenha sido sempre um grande leitor, preciso confessar que não, se é que  sou um. Mas tomei gosto por livros já faz alguns anos. E desde lá criei uma capacidade de tamanha apreciação por esses seres de formato retangular, tamanho e peso variável, faces diferentes, que na medida do tempo passei a adotá-los como membros da minha estirpe — e sem distinção de cor, gênero, idade, orientação filosófica, política, científica ou mesmo religiosa. Afinal, são livros, e descobri em meu convívio com eles que tudo que me pedem, enquanto se doam para mim em conhecimento e cultura, é uma boa estante onde possam descansar e envelhecer em paz e com dignidade. Afinal muitos desses camaradas são sem dúvida nenhuma muito mais dignos do que inclusive por vezes os olhos que leem suas palavras.

Tudo isso então, essas voltas, para declarar meu amor por livros. Afinal, a possibilidade de cheirá-los, rabiscá-los com um lápis, rir de suas palavras, não sei, fazem deles, pelo menos no meu caso, realmente verdadeiros, preciso ser enfático, membros da minha família. Uma família que na minha estante, bem, já se somam de maneira a ser uma bela linhagem, multiétnica, multicultural na qual não há ódio pelas diferenças — diferenças as quais me mostram eles, essas obras, na verdade, necessárias. E por quê? Pela lição que me passam de que são das dicotomias entre si, dos mais variados conhecimentos, que se constrói um verdadeiro saber.

Não por acaso então que muito mais do que relaxar sobre minha cama depois de um dia exaustivo ouvindo, quem sabe, Beatles, gosto mesmo é de observar os livros existentes ali em minha estante. Esses, alguns deles bondosos coroas, me transmitem seriedade e uma boa dose de calma. Sempre me jogam na cara que estão desarrumados, que jamais consigo deixá-los organizados. Mas acho que não se importam, desde que sejam lidos e que seus conhecimentos me tornem mais lúcido e menos careta. Afinal, toda vez que entro em meu quarto é como se eles me sussurrassem aos ouvidos: nos leia, ou volte para a caverna.