Lucia Berlin: um achado imprescindível

Li o livro da Lucia com um sabor de encontrar um prazer há muito tempo esquecido

Lucia Berlin
Lucia Berlin

 

Por uma falha de comunicação, achei que precisava escrever um texto sobre livros recém-lançados no mercado editorial. De modo que fui direto ler dois grandes autores, um vivo; outro não, que foram publicados recentemente: Thomas Pynchon, talvez o grande escritor vivo e, sem sombra de dúvidas, o grande escritor norte-americano, que publicou em 2013, se não me engano, Bleeding Edge, saindo agora no Brasil como O último grito, na tradução sempre ótima de Paulo Henriques Britto. O outro livro que me debrucei, não menos importante, é Os irmãos Tanner, primeiro romance do maravilhoso Robert Walser, de 1907. E, assim, com Os irmãos, temos todos os três romances escritos por Walser publicados na nossa terra: O ajudante, que saiu pela Arx e está esgotado; e “Jakob von Gunten, que saiu pela Companhia das Letras, traduzido por Sergio Telarolli, que assina também a tradução d’Os Irmãos; além do Absolutamente nada e outros textos, volume de contos, crônicas, textos, etc., que saiu há uns anos pela Editora 34.

Mais adiante vou falar calmamente sobre esses dois livros. Depois que descobri que poderia escrever sobre qualquer coisa, tudo ficou mais fácil. De qualquer modo, a crônica de hoje não vai fugir desse tema: novidades. O mercado editorial, ultimamente, tem publicado muitas mulheres maravilhosas. Cito algumas que li e me impactaram muito: Alice Munro, Svetlana Alexievich, Natalia Borges Polesso, Guadalupe Nettel, Rosa Montero, Elena Ferrante, Lina Meruane… E sobre quem vou falar mais detalhadamente hoje: a excelente, embora esquecida, Lucia Berlin.

Lucia nasceu no Alasca e publicava seus contos na revista The Noble Savage, do grande escritor Saul Bellow, Prêmio Nobel de Literatura. Ao todo, a autora publicou 76 contos. Ganhou alguns prêmios em vida, mas estava meio fora da grande mídia. Lucia morreu em 2004. Ultimamente, voltou com força máxima com o seu Manual da faxineira, melhor livro do ano eleito por um catatau de jornais e revistas, incluindo o New York Times, El País e The Guardian. Merecidamente.

Lucia Berlin tem um estilo sucinto, mas lírico, denso, muito agradável de ler. Em poucas palavras, a autora te joga dentro da narrativa, te pega pela mão e te leva onde ela bem entender. Por exemplo, vou transcrever o início do conto que dá título ao livro, pra vocês entenderem:

“42- PIEDMONT. Ônibus lento até Jack London Square. Empregadas domésticas e velhinhas. Sentei ao lado de uma senhora cega que estava lendo um texto em braile, seu dedo deslizando pela página, lenta e silenciosamente, linha após linha. Era tranquilizador observá-la, lendo por cima do seu ombro. Ela desceu na rua 29, onde um letreiro que dizia PRODUTOS NACIONAIS FEITOS POR CEGOS tinha perdido todas as letras menos as de CEGOS.”

É de uma simplicidade que lembra bastante Raymond Carver, um dos mestres do conto no século 20. Li o livro da Lucia com um sabor de encontrar um prazer há muito tempo esquecido. Quando comecei a ler seus contos, tive que deixar Pynchon e Walser no banco de reserva por um tempo. É claro que não estou comparando. Mas, às vezes, os livros te chamam. Lucia Berlin é uma grande descoberta. Uma das melhores coisas que já li nos últimos anos.

Rafael Iotti Autor