Maçã Agreste, de Raimundo Carrero: fruto de um talento ímpar

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MAÇÃ AGRESTE, ROMANCE DE RAIMUNDO CARRERO, ABORDA ASPECTOS DAS VIVÊNCIAS EM SOCIEDADE E DA PSIQUE HUMANA, O QUE LEVA OS LEITORES A INÚMEROS QUESTIONAMENTOS

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Raimundo Carrero

Maçã Agreste é o sétimo livro do escritor pernambucano Raimundo Carrero, publicado pela Editora José Olympio em 1989 no Rio de Janeiro. O romance compõe-se do prólogo, seguido de três grandes partes, finalizando-se por um epílogo que nos remete ao início da narrativa.

O prólogo, intitulado “Sacrifício”, é focado na idosa e frágil Dolores. Ela procura seguir os Soldados da Pátria por Cristo, uma seita que ludibria fiéis com pregações fanáticas, favorece o nacionalismo e o militarismo, ao mesmo tempo que, por trás duma fachada moralista, esconde depravações dos pastores, tudo isso sob o pomposo lema: “Deus, Pátria e Família”.

A primeira parte, “Anverso”, conta com três capítulos cujos nomes nos remetem a suas epígrafes, tiradas de Ernesto Sábato, José Cardoso Pires e Mary Gordon respectivamente. Aqui a narrativa é mais dinâmica que no prólogo e avança em velocidade crescente e caótica, desnorteando e, simultaneamente, seduzindo o leitor, que se pegunta, afinal, aonde o levará tal texto tão singular.

O atormentado Jeremias vaga pelas ruas com pensamentos mórbidos e desconexos, fazendo-nos lembrar do personagem Raskólnikov – do romance Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski. Quando aparece Sofia, a trama vai ganhando mais consistência com o início das maquinações entre os dois, que irão fundar o grupo Soldados da Pátria por Cristo, abordado no prólogo (o qual – percebe-se – traz acontecimentos posteriores ao aqui narrado).

Começam a ser contadas, no segmento seguinte, “História”, ocorrências que a princípio parecem nada ter a ver com o resto do romance. Mas na verdade se trata da trajetória de vida de um indivíduo-chave para a vida de Jeremias. Um mesmo homem em quatro pessoas distintas: Ernesto Cavalcante do Rego, Dom Ernesto, o Rei das Pretas, o Velho. Os quatro são o pai de Jeremias, o pai a que simbolicamente ele terá que matar para se descobrir homem, realizador, líder. Líder a que a própria mãe reconhecerá como santo ao se tornar ela também adepta dos Soldados da Pátria por Cristo.

Em “Reverso”terceira parte, o escrito retoma o estilo da “Anverso”: rápido e desconcertante. São, aí também, três capítulos com títulos tirados das epígrafes (agora de Osman Lins, Emily Dickinson e Arthur Rimbaud). Toma-se plena consciência da lógica na aparente desordem.

No epílogo, que assim como o prólogo se intitula “Sacrifício”, volta-se a falar do envolvimento de Dolores com a seita, tal qual no início. O círculo se fecha.

Uma maçã de pecados, desejos e sacrifícios, onde se vê verso e reverso dos personagens, tudo em torno da história original de um pai e seu declínio frente ao avanço do tempo. Um romance com fortíssimo senso de unidade e com importantes aspectos psicológicos e simbólicos.

A decadência de Dom Ernesto é, ao mesmo tempo, a derrocada do patriarcalismo rural. Sofia evoca a personagem de Machado de Assis no romance Quincas Borba, a que também se faz referência através do personagem Rubião, amante de Raquel – irmã de Jeremias. A prostituição de Raquel encarada como vocação, dom, predestinação, caridade ou mesmo amor aos homens. Jeremias, desde a infância aficionado por música, vem a abandoná-la pela arte de conduzir o povo, regê-lo, dominá-lo. Tanto Jeremias quanto seus seguidores foram seduzidos pelo poder, cada qual a sua maneira.

Todos esses aspectos das vivências sociais e da psique humana abordados pelo romance nos tiram das prisões dos pensamentos corriqueiros e trazem à mente estranheza e questionamentos múltiplos.

Por tudo isso não há como resistir ao enigma e à tentação de ler Maçã Agreste, fruto da extrema competência literária de um dos melhores escritores brasileiros atuais.