Conto: Mal nos ossos

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Saio de casa. Faz um dia sujo.
O céu está baixo, crépido em formações de nuvens infiltradas por um foco opaco, febril, minando gotas com textura de um óleo morno. Ungem as ruas vagas, sem circuito de veículos. Raras pessoas seguem sem pressa, feiamente agasalhadas, algumas protegidas por guarda-chuva. Os rostos ocupados por uma massa indistinta, sem feição.
Ando a esmo, circulando pelo bairro, um câncer geográfico.
Numa marcha renitente, vou ultrapassando prédios residenciais, terrenos baldios e estabelecimentos de baixo consumo, sem frequência e interesse. Aprecio o nada, o nada vasto, apenas sigo. Até que, num tipo de força invencível, sou puxado para o fliperama.
Estaciono na entrada, ainda imune ao ar rançoso que se confina naquela caixa de brilhos intermitentes, bem abaixo do luminoso de néon, com uma das letras queimada.
Todas as máquinas estão ligadas, piscando séries de números na barra do gabinete e repetindo game over em modo contínuo, mas ainda poucos as alimentam com fichas.
Um cara mais velho tenta a sorte na máquina de pinball, enquanto dois guris se ombreiam na primeira fase de Capitão Commando. Um rapaz de cabelos longos tingidos de vermelho, usando camisa flanelada e coturnos, estapeia os botões coloridos de Cadillac e Dinossauros, escutando walkman. Eu conheci alguém como ele. Não sinto vontade de jogar.
Atravesso a rua e entro numa avenida de casas velhas e separadas por muros com cacos de vidro no rebordo, onde funcionava uma fábrica de tecido que se incendiou e agora está sendo elevado o esqueleto de um prédio. Os tapumes arroxeados que selam a entrada foram pichados. Um mendigo aproveitou a cabeça de dois pregos tortos e atou tiras de barbante que sustentam uma lona sobre a caixa de papelão que lhe serve de abrigo.
Está sentado, com o corpo coberto por farrapos de vestuários masculino e feminino, sacos plásticos calçam seus pés. Quando me aproximo, me pede dinheiro para comer. Meto a mão no bolso da calça. Tenho mais do que preciso e dou uma nota para ele, embora saiba que vai usar para saciar um vício. Não me importo. Ele não me agradece.
Na quadra de uma esquina, fica a escola em que estudava. Não vou mais.
Quando comecei a cabular aula, a diretora ligou para o meu pai, convidando-o a ir ao seu gabinete para falar sobre o meu comportamento. Ele não foi e eu deixei de ir. Não que eu desgostasse da escola. Apenas não vou.
Está na troca de turno. O portão de entrada está tumultuado por alunos uniformizados que chegam e os que partem, controlados pelo inspetor. Alguns adultos se misturam ao grupo. Parentes e babás empunham guarda-chuvas. De um carro que acaba de encostar, desce uma mulher gorda guiando um cachorrinho, seguida por uma menininha proporcionalmente gorda. Ela segura uma lancheira do ALF e usa marias-chiquinhas.
Mais a frente, encontra uma coleguinha de sala, protegida por uma capa transparente, ao lado daquela que parecer ser a mãe. As mulheres trocam sorrisos formais. Depois a gordinha se abaixa, dá um beijo no cachorrinho e, de mãos dadas, as meninas cruzam o portão.
A cena desperta a vontade. Não consigo me controlar.
 
Aperto o passo rumo à praça. Ali sempre é mais fácil encontrá-los. A chuva aperta, mas ainda não passa de pingos esparsos e viscosos. Um clima constipado, modorrento.
Dois quarteirões depois, o sangue corre acelerado pelo meu corpo. Desço a rua e cruzo o arco gradeado da entrada, disparando pelo largo rumo ao conjunto de árvores centenárias, a mancha assombreada. Geralmente eles se abrigam debaixo das copas, onde o terreno é mais fresco, mas não há presença hoje. Não venta, não estão ali.
Contorno a quadra de cimento e checo o coreto, vazio. A praça está praticamente vazia. Sem alunos cabulando aula para fumar, sem velhos jogando carteado. Os balanços enferrujados estão imóveis, os bancos de cimento desocupados. Apenas dois zumbis observam o chafariz sem uso, com os azulejos empastados por línguas de lodo.
Tenho de pensar aonde ir. Saio pelo portão do lado oposto, contorno a praça e começo a refazer o caminho. Latões de lixo são bons lugares para procurar.
Deixo um quarteirão para trás, atento a cada viela, beco e esquina. Sem sucesso. Na outra margem da rua, enquanto aguardo o sinal fechar, avisto o mendigo para o qual dei a nota. Ele empurra um carrinho de supermercado entupido de tralhas até a porta de um boteco, onde entra. Em seguida, um cachorro se aproxima e deita sobre a bainha de um cobertor imundo que vaza pela grade quebrada do forro aramado. Estremeço.
É um vira-lata amarelo, com o desenho cinzento das costelas sob a pele, e o rabo fino despelado por alguma chaga. Desisto de atravessar a rua, conheço o bairro.
Sigo em frente, rumo a um mercadinho perto. Na entrada, gôndolas feitas de tábuas cruas e pintadas com o mesmo verde desbotado que colore a fachada expõem verduras, frutas e legumes murchos. Meia dúzia de pessoas enche o lugar. Passo pelo corredor de produtos de higiene recendendo as pedras laranja de sabão e avanço até o fundo, onde pego, do interior de um compartimento refrigerado, três salsichas e as deposito num saco plástico.
Só há um caixa, ocupado por uma adolescente lerda e feia, usando uma camisa preta com a imagem da capa do Nevermind, folgada em função da magreza. Ela atende uma mulher que ora olha para os números no visor da registradora ora para baixo. Sigo o seu jogo e vejo um menino retardado, de cabelos louros crespos, com o rosto e as mãos lambuzados de chocolate. Ele lambe um biscoito recheado, fazendo escorrer uma baba marrom por entre os dedos que pinga na blusa. Quando a massa amolecida cai no chão, começa a gritar.
A mãe se assusta, mas logo percebe o que aconteceu. Abre a bolsa e tira um lenço. Agacha até ele, sussurra algumas coisas e lhe dá um beijo na testa. O menino grunhe e se acalma. Ela dobra o lenço e começa a limpá-lo. Em seguida levanta-se, volta a abrir a bolsa e puxa o pacote do mesmo biscoito. Novamente lhe beija, seguindo com o afago enquanto ele começa a lamber o recheio. O menino segue de onde parou porque não tem muito que fazer senão recompor os mesmos atos limitados cobertos de baba. Sinto um empurrão no ombro, então. Um sujeito atrás de mim, segurando uma lata de Baygon, pergunta se estou dormindo. A adolescente feia me encara com cara feia. Sou o próximo.
 
Volto correndo e o cachorro ainda está lá, quieto na mesma posição. Estou suado, empapada pela mornidão pegajosa do ar, a camisa começa a colar na pele.
Atravesso a rua e vasculho o interior do boteco. O mendigo está encostado no balcão, mastigando algo. Diminuo o passo, curvo o corpo e começo a me aproximar do vira-lata.
A princípio, ele não reage à minha investida. Dou mais três passos contidos, depois paro. Rasgo o saco, enfio duas salsichas no bolso da calça e prendo uma entre os dedos. Estou mais perto e, finalmente, ele nota a minha presença.
Ergue a cabeça triangular, com as orelhas em pé, porém não esboça reação. Parece ser dócil, fragilizado por fome e doença. Estico o braço e lhe ofereço a salsicha.
De pronto, ele levanta, farejando o ar. Não avanço mais. Quero conquistar a sua confiança, atraí-lo até a mim. O cachorro estica o corpo ossudo, mas não sai do lugar. Estuda a situação, arisco mesmo que faminto, desconfiado.
Eu não cedo, mantendo o braço esticado. Estou ensopado de suor. Gotas escorrem pelos lados do meu rosto, penduram-se nos cílios, misturando-se ao óleo da chuva acumulado no cabelo pesado. Não posso me mexer, contudo. Não posso fazer qualquer movimento brusco que rompa o elo de confiança.
Ele, então, arrisca o primeiro passo. Temeroso, com o rabo curvado por entre as patas traseiras. Titubeia novamente, tenciona a coluna e dá o segundo passo. Segue em frente, mais um, dois, e pega a salsicha com uma mordida lenta na ponta dos dentes da frente.
Deixo que coma, saboreie. Quando termina, pego outra e mostro para ele. O vira-lata estica o focinho e vagarosamente começa a abanar o rabo. Pronto!
Arranco um naco da salsicha e deixo cair em frente ao meu tênis. Ele se espicha e come. Começo a caminhar. Primeiramente devagar, depois aperto o passo, o cachorro me segue. Mais a frente, tiro mais um pedaço da salsicha e deixo cair. Ele salta, afoito, e o engole. Caminho, caminhamos num ritmo acelerado. Estou voltando para o prédio em construção, onde encontrei anteriormente o mendigo. Um local familiar para ele, que lhe impõe segurança, importante para a abordagem final.
Acho um vão entre os tapumes que selam a entrada por onde lanço o último naco da salsicha. O vira-lata se esgueira com tenacidade e desaparece pela abertura.
Quando chego do outro lado, ele já o comeu e, em posição de sentinela, me encara.
O terreno parece passar por uma última etapa de limpeza. Pequenas pilhas de destroços incinerados da antiga fábrica de tecidos se espalham pela área, um ou outro monte encorpado por pedaços sólidos de parede e blocos de concreto atravessados por vergalhões retorcidos. Ao fundo, um trator e uma empilhadeira se encaram, sem operação. Não há vigia.
Pego a última salsicha do bolso da calça, mostro para o cachorro e jogo no chão. Ato contínuo, dou dois passos para o lado. O vira-lata dispara cegamente.
 
O cachorro pensa em engolir antes de escapar, porém não há tempo para ambos. No momento em que freia e projeta a cabeça para o bote, passo a corda de nylon até a altura do seu pescoço, deixando que a ânsia para abocanhar a salsicha puxe o nó corredio.
Com a própria força reversa, ele se estrangula. A princípio, a fome cega o perigo. Chega a tirar um pedaço da isca, mas logo sente a redução do ar e começa a reagir. Os movimentos vigorosos afundam mais a corda na bainha do pelo, lanhando a pele rosa oculta, machucando-o, encurtando o laço. Agora ele sabe que está ameaçado e fará tudo para escapar. Com toda a força que reside na magreza, o vira-lata arremessa o topo da cabeça nos cascalhos, quer girar o corpo, atacar, libertar-se. Projeta as garras, crava-as na terra, tenta equilibrar as patas traseiras, pôr-se de pé, mas não consegue. Sacode a cabeça de um lado ao outro. Loucamente, estupidamente, desesperadamente. Sufoca. Eu o contenho.
O nylon escurece o sangue nas dobras dos meus dedos cerrados. Os nós brancos, as unhas arroxeadas. Seguro o cachorro com paciência, deixo que se esgane. O animal tentar rugir, mas não consegue. Gorgoleja, gane baixinho, um choro de filhote. Sabe que não vai escapar, que vai morrer, chora. A língua amortecida, inchada, balança no canto da mandíbula aberta, espumenta. Os olhos ejetados perdem o brilho, começam a revirar.
A luta se esgota. Aos poucos, a vida vai lhe abandonando, fica mole, as patas inertes. Parece uma pelúcia sem recheio, sem ar e sangue. Então, num gesto brusco, puxo a corda para cima, erguendo-o como algo fisgado. O solavanco lhe fratura a coluna vertebral.
 
No instante após a carcaça desabar no chão, sinto a energia esvaída do cachorro sendo absorvida pelo meu corpo. Um veneno que sobe pelas pernas, se irradiando pelas dobras da pele, os músculos, os tendões, as veias, os capilares, os ossos.
A escalada vai me vigorando, preenchendo o espaço que me conforma com uma eletricidade voraz, pulsante. Meu coração se torna um bicho enjaulado por igual, os dentes doem, a língua endurece. A pele que nasce sobre a minha pele, coberta de pelos duros, avança pela nuca, os maxilares, os ouvidos afiados. Quando chega à cabeça, é como se golpeasse uma redoma fina de vidro, lentamente rachando todo o crânio rachando por dentro e perfurando o cérebro por dentro com cacos incandescentes.
Desabo frouxamente, em etapas, puxando o cachorro morto sobre mim. Não consigo me mexer. Vou sujando a cueca.
 
Um tempo depois, me levanto. Ainda anestesiado, tiro a corda do pescoço do cachorro, a enrolo e guardo no bolso. Inclino o rosto, tento puxar um pouco de ar fresco. No esforço, uma gota inoportuna me acerta a boca, tem um gosto salobro. Gosto de lágrima.
 
O céu agora está castanho, com pequenos buracos prateados, uma intenção de coisa ruim. Saio da construção e sigo exatamente para o local onde avistei o cachorro.
Ali fica a parada de ônibus mais próxima. Na porta do boteco, o mendigo está sendo enxotado por um bruto vestindo uma camiseta da campanha do Collor com meias-luas de suor debaixo do sovaco. Não está mais mastigando, o mendigo. Parece inspecionar o buraco no forro do carrinho de supermercado entulhado.
A parada está vazia tal qual o ônibus que embarco. A viagem será rápida, portanto decido me sentar no fundo, próximo a saída. Logo me detenho ao assento onde estão uma mulher e um menino. Agem feito mãe e filho, conversam. O menino está no lado do corredor. Usa um conjunto de moletom e docksides com solado de borracha. Seu nome é Sérgio.
Segura um livro aberto sobre os joelhos, que a mulher lê para ele. Os dois estão com os corpos grudados, ela o envolve com um braço dobrado sobre seu pescoço e ombros.
Lê, ergue a cabeça e mira o curso, volta e aponta alguma coisa na página exposta, cutuca o menino, os dois riem. Ele balança os pés, entusiasmado, vira a página.
De repente, o ônibus para e, pela porta dianteira, embarca um homem trajado de branco. A mulher é a primeira a notá-lo e, rapidamente, troca de lado com o menino, que some do meu campo de visão, pressionado no canto da janela. Estranho a reação de alarme e me detenho ao novo passageiro que avança sem firmeza, escorando-se nas barras de apoio, ainda que o veículo siga em baixa velocidade. À distância, enxergo que tem uma placa de papel manuscrita em piloto vermelho pendurada no pescoço. Não consigo ler.
O ônibus para num sinal e, sem a resistência da gravidade, o homem enfim abeira o banco onde estão espremidos a mulher e o menino. Ele se inclina, estende a mão e fala algo, um gesto rechaçado prontamente pela mulher em movimentos tensos de cabeça. Nega o que pede, nega a sua presença. O homem custa a se render, depois segue em frente.
Sei que virá ao meu encontro e não me abalo. À medida que progride, os passos tortuosos fornecem tempo necessário para o desvendamento da sua aparência. Tem uma magreza cadavérica, os cabelos ralos e sem cor. A pele seca está tomada por manchas púrpuras que se destacam em contraste com a brancura do tecido. Um aidético, a placa de papel em torno do pescoço informa. Pede dinheiro para viver os dias contados.
Tiro uma nota do bolso e lhe entrego sem saber a quantia. Ele pega, tenta agradecer, mas a voz não sai. Então se esforça e sorri. Suas gengivas e dentes parecem ensopados por doses de azul de metileno. Puxo a cordinha da sinaleira e desembarco na próxima parada.
 
A chuva desaba quando me posiciono para cruzar a avenida. Não tento evitá-la. Sei que, caso corresse, de qualquer modo ela estaria à frente. Caminho, portanto. Mantenho o ritmo até alcançar a quadra onde está a escola. Paro. Observo o portão fechado, de longe.
A chuva me encharca, me suja. Tem um cheiro ruim, um aspecto encardido. Abro a mão e deixo que se acumule no centro da palma. Parece um óleo, um ranho, algo que escorre com densidade por entre os sulcos dos dedos.
Estou coberto por isso, esse líquido viscoso. Da cabeça aos pés. E, com o tempo, sinto-o se infiltrar pelo tecido, pelos poros da pele, varar a carne e se represar nos ossos. Sinto meu corpo absorvê-lo insaciavelmente, porém é também um processo de expulsão, o desabrochar de uma clareza que descortina, por fim, o sentido da minha vida.
O portão da escola corre, revelando uma fila de guarda-chuvas liderada pelo inspetor. Parentes e babás, que se abrigavam sob uma marquise no outro lado da calçada, partem ao resgate de seus protegidos. Concomitantemente, o ônibus escolar encosta, engolindo um grupo que embarca às pressas, a maioria vestida em capa de chuva. Carros de passeio aguardam a liberação do espaço para estacionar e, um a um, reprisam o mesmo procedimento acelerado, reduzindo o tumulto a raras presenças.
Assim, então, a avisto. Deixa o portão e para à beira do meio-fio, estudando como atravessar uma correnteza que flui pela sarjeta até se dobrar no bueiro. Não tem mais que oito anos. Cabelos negros, o corpo frágil curvado sob o peso da mochila. Estica uma perna e deduz que não é uma boa decisão. Desiste e resolve cruzar a rua mais adiante.
Eu a sigo com os olhos, um caminhar sereno para o mau tempo. Não usa capa ou se protege com guarda-chuva, ninguém a acompanha na saída da escola.
Começo a caminhar no mesmo sentido que ela.
O fim da calçada é rasurado por uma faixa de pedestres, sobreavoada por um sinal de trânsito. Ela estaciona ali. Estou do outro lado da rua. Frente a frente, separados por uma distância de poucos passos. Eu a encaro, ela não me nota. Veículos correm.
O sinal fecha, ela reage. Ergue a cabeça. E enfim nossos olhares se encontram.
Nesse momento, é como se tudo se escondesse por trás do manto baço, encardido da chuva, e ela se destacasse em primeiro plano. Apenas ela, tão clara quanto a minha vontade.
Nossos olhos se encontram. Pronto! Me sinto pronto. O nylon está pronto.

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Ilustração de Marcela Renata Ramos.