Manifesto contra o aborto de novos leitores – Gisele Corrêa

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Este não é um espaço para falar de política, portanto, não leve para o lado partidário, não faça relação a este ou aquele governo, já que eu ainda sou, mesmo com tudo de errado que vejo no mundo, adepta à utopia e prefiro acreditar que a mudança começa dentro de cada um de nós.

Pois bem, agora que está tudo explicado, vamos ao que me aflige tanto, ao ponto de me fazer escrever algo um tanto quanto mundano e distante de minhas histórias e poesias.

Dizem as grandes cabeças deste país, e por grande cabeça, não quero dizer que tenham grandes cérebros, que uma criança pode chegar até os oito anos de idade sem aprender a ler e escrever. Eu levei algumas semanas, desde que conversei a primeira vez sobre isso, para digerir o absurdo e organizar meus pensamentos sobre ele.

Então, uma criança com menos de oito anos que em seu segundo ano de escola não pode ser reprovada. Ela deve seguir em frente, de olhos fechados para as maravilhas do mundo literário, impedida de crescer como indivíduo leitor, não porque não seja capaz de fazê-lo, mas porque e alguma forma, foi lhe negada uma segunda chance de aprender.

Colocando-me no lugar deste indivíduo, da criança que assiste às aulas sem poder aproveitá-la na íntegra, me imagino em um barco, esperando a hora certa para descer. Meu barco segue, e nas margens do rio, vejo coisas maravilhosas que não posso tocar, sabores que não tenho como experimentar. Meus amigos estão nestes lugares. Eles experimentam coisas que estão fora do meu alcance e eu não posso fazer nada sobre isso.  Quem sabe movida por uma angústia muito grande ou uma determinação que não me foi ensinada na escola, eu me jogasse na água e, aos trancos e barrancos, conseguisse chegar à margem. Molhada, cansada e sem fôlego, eu tentaria recuperar todas aquelas coisas que ficaram para trás. Mas o que passou, o que eu assisti a distância, não poderia ser recuperado.

Penso em todas estas crianças que não terão a chance de conhecer a vaca voadora, a turma da Monica ou tio Patinhas. Crianças que pularão direto para conhecer Capitu, ou as memórias de um certo Sargento. E pensando assim me lembro como foi difícil para mim, mesmo lendo desde o 1º ano, sendo estimulada a ler em casa e tendo conhecido Pollyanna e o Pequeno Príncipe, entrar no universo dos clássicos da nossa literatura. As “grandes cabeças” acreditam que os jovens não leem, acreditam que sendo assim, não é preciso investir em bibliotecas, ou incentivar autores nacionais e quando a população desmente e, pelos números de vendas, prova que temos a capacidade e buscamos os livros, podam aonde sentiremos mais, nos negando o direito de aprender e com isso um mundo inteiro permanece distante demais para ser alcançado.

Esta situação não me atinge por ter me sido negado algo, eu não tenho um grande cérebro e não aprendi nada sozinha. Eu tive uma professora que se preocupou em me avaliar corretamente, e uma família que me instigou a ver além das paredes, as páginas que me levariam a outros lugares. Mas me fere como cidadã que tantas crianças estejam perdendo o ponto de parada e continuem a assistir de longe o que lhes é negado tocar, assassinando o prazer de leitura, antes mesmo que ele possa nascer.

Agradeço a minha mãe por ter me presenteado com livros e a minha professora de 1º ano, Dona Vera, elas me fizeram quem sou, elas propiciaram-me um mundo que eu não conheceria se não tivesse aprendido a ler.